10 começos inesquecíveis da literatura infantil e juvenil

Quando se fala em começos na literatura, logo vem à mente uma porção de inícios inesquecíveis de grandes clássicos. "Lolita", "Cem Anos de Solidão", "As Intermitências da Morte", "Grande Sertão: Veredas". E na literatura infantil, quais seriam os começos mais marcantes? Se o livro precisa concorrer com o mundo cada vez mais preenchido de estímulos, onde as crianças recebem cada vez mais informações, as primeiras páginas devem ser os fios inevitáveis que nos puxam pela mão e levam para dentro de um universo desconhecido e insubstituível.


Vasculhando a nossa memória de leitor, talvez nos lembremos de como foi, ainda criança, ler as primeiras linhas da coleção Vagalume, de Viagem ao centro da terra, Marcelo Marmelo Martelo, Meu pé de laranja lima, Memórias de Emília e tantos outros. Foram eles os começos que nos guiaram em nossos primeiros passos de leitor.


É um arrebatamento diferente aquele que o toca o leitor quando ele ainda está descobrindo o tamanho das palavras, o peso do discurso e como uma coisa e outra reverberam muito além do nosso controle.


Voltar a esses começos é conhecer melhor o leitor que somos hoje. Por isso, o Garimpo faz essa brincadeira: misturando diferentes estilos literários e períodos de publicação, listamos 10 inícios inesquecíveis da literatura infantil e juvenil. Aqueles que, mesmo depois de lidos três, quatro, cinco vezes não terminam de dizer o que querem dizer. Começos que podem ser três parágrafos ou uma linha só.


E como toda escolha é feita de memória, a conclusão aqui é metalinguística: uma lista de inícios que nunca terminam de começar.


1. Peter e Wendy – James Matthew Barrie (Cosac Naify, 2012; reedição)

"Todas as crianças crescem, menos uma. Logo ficam sabendo que irão crescer, e Wendy sabia disso pelo seguinte motivo: um belo dia, quando tinha dois anos de idade, estava brincando num jardim, colheu uma flor e saiu correndo com ela em direção a sua mãe. Imagino que a menina devia estar linda, porque a sra. Darling pôs a mão no peito e exclamou:

- Ah, por que você não pode ficar assim para sempre?

Nada mais foi dito entre as duas sobre o assunto, mas Wendy ficou sabendo que um dia precisaria crescer. Dois anos é o começo do fim."

2. Dentes de rato – Augustina Bessa-Luís (Peirópolis, 2006; reedição)

Lourença tinha três irmãos. Todos aprendiam a fazer habilidades como cãezinhos, e tocavam guitarra ou dançavam em pontas dos pés. Ela não. Era até um bocado infeliz para aprender, e admirava-se de que lhe quisessem ensinar tantas coisas aborrecidas e que ela tinha que esquecer o mais depressa possível. O que mais gostava de fazer era comer maças e deita-se para dormir. Mas não dormia. Fechava os olhos e acontecia-lhe então uma aventura bonita e conhecia gente maravilhosa. Eram as pessoas que ela via no cinema ou que ela já tinha encontrado em qualquer parte. Não gostava de ninguém que se pusesse entre ela e a imaginação, como um muro, e não a deixasse ver as coisas de maneira diferente. Não gostava que lhe tocassem e, sobretudo, que a gente grande pesasse com a grande mão em cima de sua cabeça. Apetecia-lhe morder-lhes e fugir depressa. Mas não fazia nada disso.

3. As aventuras de Pinóquio – Carlo Collodi (Cosac Naify, 2012)

- Um rei! – dirão logo os meus pequenos leitores. Não, meninos, vocês se enganaram. Era uma vez um pedaço de pau.

Não de madeira de lei, mas um simples pedaço de lenha, desses que no inverno atiramos nos fogões e nas lareiras para acender o fogo e aquecer os aposentos.

Não sei como a coisa aconteceu, mas a verdade é que um belo dia esse pedaço de pau foi parar na oficina de um velho carpinteiro, que tinha por nome Antonio, embora todos o chamassem de Cerejo, por causa da ponta de seu nariz – sempre roxa e lustrosa – como uma cereja madura.

4. O menino no espelho – Fernando Sabino (Record, 1982)

Quando chovia, no meu tempo de menino, a casa virava um festival de goteiras. Eram pingos do teto ensopando o assolhado de todas as salas e quartos. Seguia-se um corre-corre dos diabos, todo mundo levando e trazendo baldes, bacias, panelas, penicos e o que mais houvesse para aparar a água que caía e para que os vazamentos não se transformassem numa inundação. Os mais velhos ficavam aborrecidos, eu não entendia a razão: aquilo era uma distração das mais excitantes. (...) Passado o temporal, meu pai subia ao forro da casa pelo alçapão, o mesmo que usávamos como entrada para a reunião da nossa sociedade secreta. Depois de examinar o telhado, descia, aborrecido. Não conseguia descobrir sequer uma telha quebrada, por onde pudesse penetrar tanta água. Um mistério a mais, naquela casa cheia de mistérios. O maior, porém, ainda estava por se manifestar.

5. Inês – Roger Mello e Mariana Massarani (Companhia das Letrinhas, 2015)

"Quando eles se conheceram, eu andava escondida no meio de outras coisas. Curva de brisa, alga vermelha, briga de passarinho. Eu ainda não era uma vez."

6. O livro de todas as coisas – Guus Kuijer (Martins Fontes, 2011)

"Thomas era capaz de ver coisas que ninguém mais via. Não sabia por quê, mas tinha sido sempre assim. Lembrava-se de uma violenta chuva de granizo que um dia tinha caído. Thomas pulou para dentro de um portal e ficou observando as folhas sendo arrancadas das árvores. Depois correu para casa.

- De repente virou outono – ele gritou. – Todas as coisas caíram das árvores.

(...) Thomas subiu para o quarto e pegou o livro que estava escrevendo. O título era: O livro de todas as coisas. Ele pegou a caneta e escreveu: “A chuva de granizo foi tão forte que as folhas caíram das árvores. Isso aconteceu de verdade, na rua Jan van Eyck, em Amsterdam, no verão de 1951, quando eu tinha nove anos.”

Ele olhou pela janela para pensar, pois sem janela não conseguia pensar. Ou talvez fosse o inverso: quando havia uma janela, ele automaticamente começava a pensar. Então escreveu: “Quando eu crescer, vou ser feliz.”

7. A fada que tinha ideias - Fernanda Lopes de Almeida (Ática, 1987)

"Clara Luz era uma fada de seus dez anos de idade, mais ou menos, que morava lá no céu, com a senhora fada sua mãe. Viveriam muito bem são fosse uma coisa: Clara Luz não queria aprender a fazer mágicas pelo Livro das Fadas. Queria inventar suas próprias mágicas.

- Mas, minha filha – dizia a Fada-Mãe – todas as fadas sempre aprenderam por esse livro. Por que só você não quer aprender?

- Não é preguiça, não, mamãe. É que eu não gosto de mundo parado.

- Mundo parado?

- É. Quando alguém inventa alguma coisa, o mundo anda. Quando ninguém inventa nada, o mundo fica parado. Nunca reparou?

- Não...

- Pois repare.

8. O paraíso são os outros – Valter Hugo Mãe (Cosac Naify, 2014)

"

"Reparei desde pequena que os adultos vivem muito em casais. Mesmo que nem sempre sejam óbvios, porque algumas pessoas têm par mas andam avulsas como as solteira, há casais de mulher com homem, há de homem com homem e outros de mulher com mulher. Há também casais de pássaros, coelhos, elefantes, besouros, pinguins – que são absurdamente fiéis. Quero dizer: há casais de pinguins e até golfinhos podem ser casais. Tudo por causa do amor.

O amor constrói. Gostarmos de alguém, mesmo quando estamos parados durante o tempo de dormir, é como fazer prédios ou cozinhar para mesas de mil lugares."

9. Kafka e a boneca viajante – Jordi Sierra i Fabra (Martins Fontes, 2009)

"Os passeios pelo parque Steglitz eram um bálsamo. E as manhãs, tão doces...

Casais precoces, casais parados no tempo, casais que ainda não sabiam que eram casais, velhos e velhas com mãos cheias de histórias e rugas cheias de passado procurando cantos de sol, soldados com galas de distinção, criadas de uniforme impecável, babás com meninos e meninas vestidos com esmero, casais com filhos recém-nascidos, casais com sonhos recém-destruídos, solteiros e solteiras de olhar esquivo, guardas, jardineiros, ambulantes.

O parque Steglitz transpirava vida naquele início de verão.

Um presente.

E Franz Kafka absorvia, como uma exponha, viajando com os olhos, atraindo energias com a alma."

10. A história sem fim – Michael Ende (Martins Fontes, 2010)

"Esta inscrição encontrava-se na porta envidraçada de uma pequena loja, mas, naturalmente, só tinha este aspecto quando, do interior sombrio da loja, se olhava para a rua através da vidraça. Lá fora, era uma manhã cinzenta e fria de novembro, e chovia a cântaros. As gotas escorriam pela vidraça e por cima das letras floreadas. Tudo o que se via era uma parede manchava pela chuva do outro lado da rua.De repente, a porta se abriu com tanta força que os sininhos de latão, que pendiam sobre ela, começaram a tilintar e só pararam depois de alguns instantes.O causador desse tumulto era um garoto baixo, gordo, de uns dez ou onze anos. O cabelo castanho-escuro, molhado, caía-lhe sobre o rosto; tinha o casaco encharcado de chuva e trazia a tiracolo uma pasta escolar presa por uma correia. Estava um pouco pálido e ofegante, mas, apesar de há pouco parecer ter muita pressa, continuava parado diante da porta aberta, como estivesse pregado no chão. (...)

O rapaz não sabia muito bem o que fazer, por isso deixou-se ficar simplesmente ali, fitando o homem com os olhos muito abertos. Finalmente, o velho fechou o livro, deixando o dedo entre as páginas, e resmungou:- Preste atenção, menino! Eu não gosto de crianças. Sei que está na moda fazer um grande alarido quando se trata de vocês... Mas comigo, não! Eu não gosto nada, nada de crianças. Para mim, são todos uns patetas choramingas, de uns desajeitados que estragam tudo, sujam os livros de geleia, rasgam as páginas e não querem nem saber dos problemas e preocupações que os adultos possam ter. Digo isto para que você não se iluda. Além do mais, não tenho livros para crianças. Espero ter sido claro.

O rapaz assentiu em silêncio e fez menção de se retirar; de alguma forma, porém, pareceu-lhe que não poderia aceitar aquele sermão sem protestar e, por isso, voltou-se uma vez mais e disse, baixinho:

- Nem todas são assim.


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