Odilon Moraes e Maurício Meirelles: ao invés de afastar as crianças da realidade, podemos transformá



Uma festa de cultura não pode estar descolada da realidade. Este parecia ser o lema da conversa entre os autores Odilon Moraes e Maurício Meirelles durante a Flipinha no último sábado (2), em Paraty. Reunidos na Flip para falar de seu livro juntos, Birigui (lançado agora em junho pela editora mineira Miguilim), os dois foram direto para a matéria-prima de que foi feita a história: o confronto com a realidade. Afinal, quanto de realidade podemos mostrar em um livro infantil? Por que existir um fator limitante à arte de representar o real?


Birigui, escrito por Maurício e ilustrado por Odilon, fala sobre um menino que sai com o pai para uma caçada pela primeira vez. Minado de metáforas sutis, o livro ajuda a entender a crueldade a partir do ponto de vista de uma criança. Seria classificado por muitos como um livro “difícil”, por falar de morte, violência, enfrentamento. Mas a razão de ser do encontro entre os autores foi justamente discutir por que consideramos uma história mais fácil do que a outra quando vamos apresentá-la a uma criança. Que critérios escolhemos - consciente ou inconscientemente - escolhemos para classificar o grau de periculosidade de uma história?Birigui é, na verdade, uma tentativa de, como explicou Mauricio, “devolver a violência do mundo”. Para ele, os livros são como “uma ferramenta de reaproximação com o real”, que vivemos tentando ignorar.


Questionar qual é (e se há) uma função para o livro infantil, tanto dentro da escola quanto no ambiente familiar e de lazer, é falar justamente do poder de representação que é próprio da ficção, e que interessa não só a professores, escritores e mediadores de leitura, mas ao ser humano.


Exemplo disso é que um dos momentos mais emocionantes da conversa foi quando Odilon exemplificou o que estava dizendo com uma experiência de leitura do seu filho, João. Ele conta que, quando o menino puxou o livro O Matador (de Wander Piroli e Odilon Moraes, editora Cosac Naify) da estante para ler pela primeira vez, correu para ele e perguntou:


- Pai, foi você que desenhou essa história?

- Foi.

- Não acredito que você fez isso.


E correu para o quarto, chorando.


A fábula quase suspense do passarinho morto a tiros feriu a emoção de João, e pode ferir também a das outras crianças que lerão o livro. Mas vem daí uma reflexão maior, que Odilon aprofundou durante a conversa. “Devemos proteger as crianças de uma realidade que elas vão encontrar mais cedo ou mais tarde? Fico pensando que é mais importante nós, escritores, equacionarmos essa realidade do que fingir que ela não existe. A escrita é uma coisa inventada para a gente dizer tudo”.


Depois, para apaziguar a plateia, ele conta que bastou um diálogo franco entre pai e filho sobre o livro para o pequeno entender os porquês de aquela história existir. “Perguntei a ele: ‘você percebeu que o menino só atirou para provar que tinha pontaria? Ele queria ser aceito. Depois desse dia, ele nunca mais falou sobre o livro, mas tenho certeza que é uma história que ele nunca mais esquecer’”, conta.


Ou seja, a narrativa ganhou com essa experiência novas dobras de interpretação, estendendo o imaginário da criança para questões como aceitação, pressão social, padrões de conduta, contexto socioeducativo do personagem, etc; universos muito ricos para desenvolver um conceito completo de realidade.


Ao tocar nesse ponto, Odilon defende uma espécie de “curadoria da violência”, que pode ser passada para a criança por meio dos livros, de uma peça de teatro, de uma música. Para ele, a arte é que possibilita experenciar a realidade do mundo de uma forma mais lírica. “A literatura antecipa experiências, ou pelo menos propõe um senso estético do que é real. É como aquela frase que diz que ‘o homem suporta apenas pequenas doses de realidade’. Os livros oferecem essas pequenas doses.", explica o autor.


Para Maurício, os livros considerados tabus assustam mais do que deveriam. “A gente se preocupa tanto se o livro vai ser violento, mas a violência chega para a criança de tantas formas. A televisão, por exemplo, é cheia dela”, pontua o autor. Além disso, ele diz que uma obra literária e seus personagens podem transmitir para a criança noções de empatia e compaixão que só o contato com o outro pode proporcionar. “Eu não escrevi o livro (Birigui) pensando que seria uma história infantojuvenil. Mas, lá pela terceira página, por estar escrevendo em primeira pessoa a partir da experiência de um menino, eu percebi que poderia funcionar. Mais do que isso, que só assim poderia funcionar. A coisa toda da empatia com os animais e o ambiente só poderia ser construída a partir do ponto de vista de uma criança.”



Quando o vazio conta uma história


Os autores falaram também sobre como, em um livro infantil, o que não está dito (e muitas vezes, também não está nem desenhado) também ajuda a contar a história.


Por inusitado que pareça, os dois têm formação em Arquitetura, e compartilharam da mesma metáfora para comparar a arquitetura das coisas e a do livro. “Arquitetura não está na construção de duas paredes, mas no espaço entre elas. Em um livro, é a mesma coisa: as paredes são as páginas, e a história está no espaço entre elas. Ou seja, o autor constrói onde ele não intervém”, explica Odilon, como se erguesse um manifesto pela ideia de que o livro é de quem lê.


Quando o assunto é livro ilustrado, é preciso considerar também a materialidade da imagem na narrativa. Quando o texto deixa de dizer alguma coisa, muitas vezes passa essa função para o desenho, mas nem sempre. Às vezes, os dois se constroem pelo silêncio, pelo não dito. “A gente está acostumado a achar que o vazio não é nada, mas ele sempre é alguma coisa. Num livro ilustrado, existe uma construção do espaço entre uma página e outra, e ela é feita por dois vazios diferentes: um é constitutivo da imagem, e o outro é constitutivo da própria história”.


A conversa culminou, se não numa conclusão, ao menos na defesa de uma literatura infantil menos minada por inseguranças e mais por intenções de reaproximação com a verdadeira essência do mundo e das coisas. Afinal, para repetir o próprio Odilon, “A escrita é uma coisa inventada pra gente poder dizer tudo. Às vezes, tanto as palavras quanto as imagens servem também pra gente esconder coisas; e com o que você esconde, você mostra”.

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