Patricia Auerbach e Aline Abreu: manifesto pelos espaços em branco na vida e na literatura infantil


O nome da mesa era “Diálogos: texto e imagem”. Tanta coisa cabe nesse diálogo, não é? Às vezes, um fala mais do que outro; assim, quem está do lado de cá – o leitor – pode ouvir mais. E o livro acontece. Porque literatura é acontecimento, se não é outra coisa.


As autoras Patricia Auerbach e Aline Abreu conversaram com os pequenos e grandinhos da plateia da Flipinha na última sexta sexta (01) sobre o que pode acontecer durante esse tal diálogo. Acabaram tocando em questões urgentes não só do livro, mas da sociedade: a importância do silêncio, o excesso de informações a que submetemos as crianças, o valor do tempo ocioso, entre outras. Sorte de quem estava lá para ouvir. Aqui, tento puxar pela memória o que de mais potente foi dito por lá.


Em busca dos pontos comuns entre as obras das duas autoras, a mediadora e também escritora Anna Claudia Ramos – curadora da Flipinha 2016 –, foi procurar na infância delas a possível explicação para fazerem o que fazem. “Quando eu era criança, brincava com tatu bola, mexia na trilha das formigas, e, quando eu tô escrevendo, isso volta com muita força. Lembro que, enquanto meus primos ficavam correndo lá fora, eu preferia ficar dentro de casa, do lado da minha bisavó, ouvindo as histórias dela. Pensando agora (porque quando alguém pergunta a gente é obrigado a pensar), acho que vem daí meu gosto pelas histórias”, contou a ilustradora e escritora Aline Abreu. E então, como quem diz algo muito simples, sem mirar na poesia mas acertando em cheio, ela continua: “Eu gosto das coisas que não existem mais”.


Aí está uma definição muito possível se alguém nos pergunta o que é literatura, afinal, o que é a ficção senão as coisas que não existem mais, ou que não poderiam existir nunca, não fossem as histórias?


Autora de mais de dezenas de livros, Aline escreveu e ilustrou o delicado Menina amarrotada (editora Jujuba, 2014), que inventa um novo adjetivo para definir o sentimento de uma menina que é obrigada a lidar com a perda.

Na mesma toada, Patricia Auerbach contou sobre o nascimento do belíssimo Coisas de gente grande (Cosac Naify, 2015) com um lirismo incalculado. “Este livro é minha tentativa de dizer o que é a infância" - conta, lembrando que a ideia para escrevê-lo surgiu durante uma aula do curso de Pedagogia, quando uma professora perguntou “O que é casa?”, e a autora se viu obrigada a refletir sobre como elaboramos as definições de cada coisa. Para quem não conhece, o livro é construído por páginas duplas, em que cada palavra é colocada em contraponto com a sua representação no imaginário da criança; “a palavra conta o universo do adulto, e o desenho o que passa na cabeça da criança”, simplifica a autora. Aqui, alguns exemplos.




O manifesto pelos espaços em branco – tanto no livro quanto na vida – foi uma constante durante a conversa. "Quando chego em escolas, sempre escuto duas coisas dos professores; ou dizem que adoram meus livros porque não tem texto e tão fácil de entender, ou que adoram meus livros mas que são difíceis de ler para os alunos porque só tem imagem. Quer dizer, a ausência da palavra é mais uma falta com a qual não sabemos lidar”, contou Patricia, sobre o retorno dos educadores em relação à mediação dos seus livros.


Outra questão fundamental a se pensar nesse sentido é o excesso de informações a que estamos submetidos na sociedade pós-moderna, o que faz com que não sobre espaço para o entendimento, as sensações, o encantamento. “A vida já está tão preenchida, as coisas já chegam muito prontas pra gente. Mas precisamos ensinar as crianças que o vazio é possível, sabe? É dele que surgem as coisas. Além disso, se a gente só alfabetizar para a palavra, a criança não vai dar conta de decodificar o mundo, que é muito visual”, defendeu Patricia.

Já para Aline, os vazios que aparecem na literatura infantil são uma espécie de devir. "O espaço em branco é como uma tela onde podemos projetar as coisas”, explica. A autora falou também sobre o papel do artista nesse contexto todo. “A Clarisse Abujamra diz que ‘ser artista no Brasil não é escolha, é diagnóstico’. E é muito isso, porque se a gente não faz, enlouquece. A imagem dentro desses livros é literatura, e deve ser lida como literatura. A gente fica sonhando que isso que a gente faz vai melhorar o mundo de alguma forma". Créditos das fotos: Mariana Vergara


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