Trocando em miúdos: Catarina Sobral

“Dá para imaginar um mundo sem ponto final nem de interrogação, sem relógio de ponto nem ponto de encontro, sem ponto de costura, sem ponto de vista, sem ponto de referência?” Pois esse mundo existe e saíram da cabeça de uma das artistas do livro para crianças mais interessantes da atualidade, Catarina Sobral. Se você estiver andando por uma livraria e esbarrar no nome dela, repare bem: são mundos inventados para mãozinhas miúdas de imaginação sem tamanho. Suas palavras e desenhos têm sempre um caminho delicado de chegar num lugar mais interessante de observar o mundo. Desconstruir, mais do explicar.


Dizer que ela foi considerada “A maior ilustradora de livros infantis com menos de 35 anos” é dizer pouco. Mas não dizer é ignorar a importância de sua obra no cenário do livro para a infância no contexto das publicações europeias. Desde 2012, quando ganhou Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração de 2011 na Feira do Livro Infantil de Bolonha, ela é considerada um dos grandes talentos da sua geração, com requintes de dizer tanto pela palavra quando pelo desenho. Sobre o seu livro O meu avô, Roger Mello, Sophie van ver Linden e Pablo Nuñez, júri da Feira em 2014, disseram existir ali “um domínio claro da composição, uma grande maturidade e uma forte identidade”.


Catarina é ilustradora e designer de comunicação, o que são duas formas diferentes de dizer que ela decifra o mundo com a arte – ora do texto, ora da imagem. Natural de Coimbra, atualmente, ela vive e trabalha em Lisboa.


No Brasil, ela publicou o belíssimo livro ilustrado Greve - o primeiro escrito e ilustrado por ela - e Achimpa, ambos editados pela WMF Martins Fontes em 2013 e 2014, respectivamente. Greve conta a história de sinais de pontuação e linhas que resolvem bolar um plano para mostrar ao mundo o seu valor. A autora propõe assim uma série de jogos em torno da palavra "ponto" e das expressões que derivam dela, e constrói um mundo sem pontos de vista, nem pontos de referência, tampouco pontos de fuga.


Achimpa fala sobre uma palavra que salta do dicionário sem ninguém a conhecer, e de boca em boca vai ganhando novo significado. Como a própria Catarina disse em entrevista à Revista Emília, “a palavra 'achimpa' é como um objeto que vai mudando de dono”. O que vem daí é toda uma conversa indireta sobre como percebemos a palavra, tantas incorporando-a em nosso dia a dia sem parar para pensar no que ela realmente diz. E entendemos a partir disso como às vezes as pessoas fingem perceber a palavra, fingem saber de que se trata.


Juntos, os dois livros compõem o ainda pequeno (mas já imenso) catálogo de obras que propõem sempre um olhar inviesado e muitas vezes irônico para a realidade, um jeito de interpretar o modo de viver de seu país, os anacronismos e incoerências que podem passar despercebidos por simples assimilação cultural.


São intenções que não perdem o sentido quando mudam de endereço, pois os livros de Catarina são todos feitos de pesquisas visuais notáveis e de uma vontade de retratar os traços atemporais da humanidade. O pesquisador português "António Franco Alexandre diz que essas suas obras "colocam a palavra centro do seu desabrochamento conceitual", e isso é tão preciso que eu não ousaria dizer nada além.


Nesta entrevista-brincadeira, Catarina revela um pouco do modo de pensar de sua criança interior.

1. Por que às vezes o desenho tem um tamanho e o texto tem outro?

Porque contam coisas diferentes. Às vezes a história precisa de texto visual, outras vezes precisa de palavras, outras vezes precisa de silêncio.

2. Pra que serve uma cor? E a imaginação?

Para dar a luz certa a uma ideia.

Para nos salvar da realidade.

3. Você já trombou com uma história no meio da rua?

Várias! A rua está cheia delas, a maioria passeia-se por aí disfarçada de pessoas.

4. Uma história nasce na barriga ou na cabeça?

As minhas nascem na ponta dos lápis.

5. Dos mundos que não existem, qual é o seu favorito?

Gosto de tantos que vou escolher um dos mundos que eu inventei: aquele em que os pontos e as linhas decidem delinear uma estratégia política e por um ponto final aos problemas de classe. Que é como o nome diz, decidem fazer Greve.

6. Como consertar uma história que não funciona?

As histórias não funcionam por três motivos: ou há um problema no motor da história, ou no andamento, ou na travagem.

7. É mais fácil ganhar de um monstro ou de um medo?

Se o monstro for real é um medo.

8. Qual a diferença entre as palavras fáceis e as difíceis?

As fáceis vemos todos os dias. As difíceis só aparecem nalguns jantares (com convite).

9. Por que os adultos às vezes querem esconder algumas na estante mais alta?

Porque são palavras sem vergonha nenhuma e gostam de passear nuas pelas estantes.

10. Se os livros tivessem perna, pra onde eles iriam?

Para as nossas mesas de cabeceira, para as nossas mochilas, para o jardim ou para a praia onde estamos. Seguir-nos-iam para onde quer que fôssemos.

Para conhecer melhor o trabalho da Catarina, visite o site da ilustradora - vai ser um passeio para os olhos! www.catarinasobral.com


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