Um ano inteiro: um livro para falar sobre empatia, atenção e cuidado

Se você é uma criança que quer investigar qual o melhor mês para observar os rouxinóis, este livro é pra você. Se você é um adulto que gostaria de lembrar de olhar para o céu, este livro é pra você. Se você não pratica nenhum desses exercícios de estar no mundo, aí sim: este livro é pra você!


Um ano inteiro, lançamento da editora portuguesa especializada em livros infantis Planeta Tangerina, se propõe a ser uma agenda semanal para explorar a natureza. Mas, mais do que isso, oferece a oportunidade de refletir sobre o tempo que dedicamos a conhecer a realidade que nos rodeia. E, sabemos, ele é cada vez menor.


Prova disso é que, se nos perguntam aleatoriamente qual é a cor do chão da nossa sala, escritório ou sala de aula, provavelmente a resposta não viria tão fácil. Com frequência, só reparamos no chão onde pisamos se ele estiver molhado ou sujo. E quantas vezes deixamos passar os detalhes mais bonitos de um dia?



As crianças de hoje nascem em um ambiente com cada vez mais estímulos e informações, recursos que ajudam a chegar a algum lugar, mas esquecem de ensinar a aproveitar o caminho.


Quanto aos adultos, muitos só reparam na sopa se o prato estiver quebrado. Este livro propõe uma interrupção dessa lógica, tira o ser humano do centro das importâncias e concentra o olhar onde tudo está em constante transformação: o mundo natural.


O livro divide os meses do ano em cores e reúne sobre cada um as curiosidades mais inusitadas e sugestões de passeios, expedições e observações para fazer com as crianças. Com ele, ficamos sabendo o que é solstício, quando é que as andorinhas dormem, onde nascem os rios, como observar borboletas.


O texto de abertura se disfarça de prefácio para ser um verdadeiro tratado sobre a atenção:


“Pouco interessa se falamos de aves, peixes, borboletas, anfíbios, flores ou pessoas. A mudança faz parte da nossa natureza. (...) E nós? Refugiados em nossas tocas, nem sempre nos apercebemos do que está a acontecer. Os dias de chuva incomodam-nos, o frio estraga-nos os planos, os dias curtos não chegam para tudo o que queremos viver. Acontece com frequência de nós nos lembrarmos da natureza – e só sentirmos necessidade de nos aproximarmos dela – quando as temperaturas sobem e celebramos a chegada da primavera.”

Ao dizer que estamos acostumados a festejar só os dias abertos, floridos e ensolarados, o livro faz uma metáfora potente sobre a urgência de inaugurar um novo olhar sobre o mundo. Afinal, para chegar ao sentido profundo das coisas, é preciso antes conhecer a superfície. E nada melhor do que ensinar as crianças desde cedo a ter curiosidade sobre como cada coisa chegou até ali. Como quando sugere “apanha conchas e aprende seus nomes”.



O ano inteiro ainda não tem previsão de chegada no Brasil, mas no site da Planeta Tangerina é possível conhecer e baixar o conteúdo do livro. E, principalmente, ter ideias de como espalhar essas atividades com as crianças. No livro, depois de cada mês, há uma página em branco para a criança preencher com suas próprias descobertas e percepções.


Por ser um livro português, a brincadeira segue a lógica das estações europeias, mas ainda assim funciona por aqui em sua intenção de estimular o espírito garimpeiro de quem não se contenta em passar pelas coisas e não reparar nos seus detalhes.


E se engana quem pensar que preocupações assim são de natureza menor ou assuntos da autoajuda. A negligência do ser humano com as realidades mais próximas é um pensamento complexo que fez parte da literatura de muitos autores enormes, como Julio Cortazar, Eduardo Galeano, Ítalo Calvino, David Foster Wallace. O poeta alemão Ludwig Tieck, por exemplo, dizia que “deveríamos fazer do comum algo extraordinário e então nos surpreenderíamos descobrindo que está muitas vezes perto de nós a fonte de prazer que buscamos em algum lugar distante e difícil”. Quem já leu Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo, do David Foster Wallace, pode se lembrar também daquele ensaio que se tornou um clássico do autor, “Isto é água?”, em que ele conta a história de um peixe que não sabe o que é água. Mas aí já é assunto para outros garimpos.


Por fim, o crítico Miguel Esteves Cardoso disse sobre esse livro algo que, se não define tudo o que ele é (porque é impossível!), ao menos dá uma boa pista: “Acontece muito raramente, mas há livros para crianças que é preciso comprar duas vezes”. Um livro que dá vontade de ter e depois ter de novo só para poder dar a alguém.


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