A primeira história infantil de Monteiro Lobato?


Você provavelmente já ouviu falar de um peixinho. De um peixinho que morreu afogado. Da Velha História do Peixinho que Morreu Afogado. Opa, aí já é título de livro. E é mesmo, da escritora Marilia Pirillo com o ilustrador Eloar Guazzelli. Mas a história não é deles (Ou é? É de todo mundo?). Na verdade, ela está em muitos lugares, como acostuma acontecer com as histórias tão populares que nem dono têm.


O peixinho está em Mario Quintana, em Almirante & Bando, no cancionário popular brasileiro. Quem não se lembra daquela canção de infância "Peixe vivo" que se surpreendia nos versos "como pode um peixe vivo viver fora da água fria?” Mas o que poucos sabem é que a literatura indica que a história do pobre peixinho que morreu afogado foi a primeira história infantil que Monteiro Lobato escreveu, em 1920. Em "A Barca de Gleyre", livro de cartas entre Lobato e o amigo Godofredo Rangel, está a história de como Lobato conheceu o tal peixe.


"Certa tarde, na Editora, jogava xadrez com Toledo Malta, quando, no intervalo entre dois lances, este lhe conta a história de um peixinho que por haver passado um tempo fora d'água desaprendera a nadar, e de volta ao rio afogara-se. Perdi a partida de xadrez naquele dia, talvez menos pela perícia do jogo do Malta do que por causa do peixinho. O tal peixinho pusera-se a nadar na minha imaginação, e quando Malta saiu, fui para a mesa e escrevi a "História do peixinho que morreu afogado" - coisa curta. Do tamanho do peixinho. Publiquei isso logo depois, não sei onde."


E então voltamos a 2014. Deslumbrada com o mote de uma história tão popular que atravessou gerações e gerações, virou música, anedota e canção de ninar, Marilia fez uma pesquisa sobre a presença deste conto popular em diversas manifestações da cultura brasileira. Então, junto com o ilustrador Eloar Guazzelli, os dois trouxeram a história para os dias de hoje, embrulhada em um projeto de livro ilustrado cheio de esmeros e segundas leituras, assinado pela Raquel Matsushita, que mistura pantenes de cor para transmitir a ideia da fusão entre o real e o imaginário.


Daí o peixinho ser transportado para o rio poluído moribundo de uma grande metrópole (qualquer semelhança com São Paulo e seu rio Tietê não é mera coincidência) ser pescado por um homem engravatado e sisudo para depois ter com ele uma passageira amizade, ser devolvido à agua e pum: morrer afogado.

E de repente o que era só uma metáfora para o amor e seu poder de libertar e aprisionar na mesma medida, acabou se tornando uma outra coisa. "A história do peixinho que morreu afogado" é um símbolo da vida na cidade, para o tempo de contemplação que a correria urbana nos rouba. Somos todos um pouco como o peixinho que morre afogado. Mas somos também o homem. Como saber em que proporção somos o quê? Aí está o livro para provocar essas interrogações. O Garimpo foi ter um dedinho de prosa com a Marilia para saber mais sobre tudo isso.

Você teve a ideia de escrever este livro quando leu o conto "Velha História", do Mario Quintana, o simpático senhor que você desde adolescente observava de longe no calçadão da praia, em Porto Alegre. Muito legal essa história. Como foi isso?

Na verdade, li este conto ainda adolescente e mexeu comigo. Depois disso, o tal peixinho ficou nadando nas minhas ideias. Queria e precisava fazer algo com essa história mas não sabia bem o que. Uma década (!) depois, fiz uma oficina de animação onde precisava criar um storyboard como trabalho de conclusão. Veio a história do peixinho: com cenários porto-alegrenses, os personagens bem definidos e toda minha vontade de recontá-la. Fiquei tão animada com o projeto que o inscrevi num edital de produção cultural. Infelizmente, o projeto não foi selecionado e a história do peixinho voltou pra gaveta. Só agora, outra década depois, já escritora e ilustradora, eu decidi reavivá-la para transformá-la em livro.

Há algumas histórias que parecem não ter dono, e vão mudando de contador para contador. Essa parece ser mais uma dessas histórias. Pode falar um pouco sobre isso?

A minha versão se propõe a ser mais contemporânea. Coloco os personagens em um cenário de metrópole. O homem solitário passa a ser um empresário bem-sucedido e totalmente ocupado. E o peixe se transforma mais explicitamente em um delírio, uma quimera deste homem que gostaria de voltar para a infância – tempo em que era livre para sonhar – e, talvez, construir um futuro diferente para si.

O biógrafo Edgar Cavalheiro nos conta que essa foi a primeira história infantil que Monteiro Lobato escreveu. A questão da verdadeira autoria foi uma questão na hora de escrever e publicar o seu livro?

Eu só conhecia o conto de Quintana e a música “Peixe-vivo” (que seria a trilha do meu projeto de animação). Achava que para reescrever esta história teria de ter autorização dos herdeiros de Quintana porque acreditava que a história era dele. Quando descobri que Lobato teria ouvido esta história de um amigo durante um jogo de xadrez, e que a havia escrito e publicado, percebi que poderia se tratar de um conto popular, o que me daria a liberdade de escrever uma nova e particular versão. Assim, depois de pesquisar e confirmar a informação, mantive o esqueleto da história mas a reescrevi inteiramente, deixando, na verdade, poucas referências ao texto de Mario Quintana.

O trabalho do Guazzelli anda junto com as suas palavras, de mãos dadas. Como foi a concepção da linguagem que encontraram, e como foi a ideia de retratar o peixe voando?

Na verdade, conheço e admiro o trabalho do Guazzelli há muitos anos, da época em que vivíamos em Porto Alegre. De um tempo para cá, Guazzelli começou a desenhar, com frequência, peixes voadores nos cenários mais inusitados. Assim, desde que escrevi a história, pensei nele para ilustrá-la. Apresentei Guazzelli para a editora, fizemos uma única reunião para a leitura em grupo do texto, trocamos algumas ideias e tudo fluiu maravilhosamente. Para finalizar, a edição ainda recebeu o projeto gráfico luxuoso da Raquel Matsushita, que costurou texto e imagens e realçou o clima da história.

Um peixe vivo em um rio quase morto. Um homem que faz amizade com um ser de um mundo diferente do seu. O impulso de querer aprisionar o que amamos. Este livro é um pouco sobre solidão, um pouco sobre egoísmo? O que a história significa para você e para o leitor de uma grande cidade?

Acho que a história mexeu comigo desde a primeira leitura justamente por se tratar de solidão e da busca pelo amor, pela amizade, pela atenção. Quando falamos em solidão, pensamos em alguém vivendo isolado numa cabana distante de todos, mas a verdade é que a vida nas grandes cidades, com todos os afazeres, informações e uma multidão nos cercando também pode ser extremamente solitária. Talvez até mais do que numa cabana! Apesar de estarmos rodeados de pessoas, nossas relações estão cada vez mais impessoais, e a busca pelo amor, pela amizade e por atenção está crescendo de forma desesperadora.

O que está preparando para este ano? Novos livros, projetos, ilustrações, histórias?

Estamos passando por um momento delicado, o mercado editorial está bastante retraído, mas eu estou longe de pensar em ficar parada. Espero, com muita esperança, a publicação de dois novos livros para este ano. São dois infantis, um sobre uma menina que sonha em ter um lar, e outro sobre uma menina “aluada”, que se sente um ser de outro mundo. Sigo ministrando oficinas sobre literatura para crianças e jovens e, neste momento, estou ilustrando “As aventuras de Gulliver”, para a coleção Grandes Clássicos para Jovens Leitores, da FTD. Aguardem!

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