O silêncio na literatura infantil

Antes de chegar no silêncio, precisamos falar sobre a paixão. Mas o que a paixão pode ter a ver com a literatura infantil e juvenil? Não seria exagero responder "tudo".

O semiólogo francês Roland Barthes tem um livro muito simpático de 1984 chamado "O Rumor da Língua"*, uma série de ensaios em que ele explicita suas opiniões sobre literatura e linguagem. Em um trecho que nunca me saiu da cabeça, ele diz:

"Nunca lhe aconteceu, ao ler um livro, interromper com frequência a leitura, não por desinteresse, mas, ao contrário, por afluxo de ideias, excitações, associações? Numa palavra, nunca lhe aconteceu ler e levantar a cabeça?"

Essa expressão "levantar a cabeça" não por acaso está em itálico no livro e saltou da página no momento em que eu a li. Acho uma metáfora muito poderosa e desde então ela me acompanha (para não dizer persegue) quando o assunto é livro.

Para Barthes, isso de "levantar a cabeça" já é em si um ato de paixão. Quer dizer, mesmo estando totalmente mergulhado numa história, o leitor que levanta a cabeça concorda em interromper a leitura para depois voltar a ela e dela se nutrir para em seguida levantar a cabeça outra e outra vez. A literatura ali tem natureza dupla: ao mesmo tempo em que dispersa e leva para outros e muitos lugares, também canaliza, raciocina e organiza, dá foco à realidade. É um mecanismo apaixonado. E a literatura para crianças está minado deles, consideravelmente mais do que a literatura adulta, e por um motivo simples: o silêncio.

Se a gente vasculhar a nossa memória de leitor, não vai ser difícil encontrar momentos de levantar a cabeça durante a leitura de um livro adulto, mas quase sempre eles acontecem pela teimosia de encontrar em meio a uma grande quantidade de palavras, ideias e associações o espaço para o silêncio existir. É preciso um leitor paciente e obstinado para criar o silêncio e persistir na reflexão.

Na literatura para os pequenos, o espaço já está ali. Ele pode ser uma página dupla só com ilustrações, uma folha de guarda toda cheia de ícones e símbolos e até mesmo uma página em branco absoluto; enfim, o silêncio está em qualquer instante propositalmente (e aí a palavra "propósito" se torna fundamental) designado para que a história se interrompa e o leitor preencha a parte que falta.

O livro "Cantiga" (Cosac Naify, 2014), do francês Blexbolex (pseudônimo do escritor francês Bernard Grander), é um bom exemplo para esse tema, pois já nasce de uma intenção de silêncio.

O livro todo é feito assim: uma ilustração e uma pequena sentença embaixo formada apenas de um artigo e um substantivo, por exemplo: "a casa", "a floresta", "o caminho". A narrativa que envolve e amarra essas pequenas frases quem constrói é o leitor, até que, em um dado momento, as palavras são suprimidas e pronto: silêncio. Fica só a imagem, às vezes seguida de uma vírgula, de reticências ou de ponto final, para sugerir as muitas possibilidades de preenchimento que o leitor tem quando se permite indagar: "o que poderia haver aqui?"

A princípio, é só uma criança voltando da escola para casa, mas pode ser mais, e é. E o autor não poderia ser mais certeiro quando abre o livro dizendo que esta é "uma história antiga como o mundo: ela recomeça a cada dia". Também não por acaso é que o personagem "O desconhecido" apareça com força. Aliás, vale dizer que o autor deste livro recebeu um prêmio curioso, o de Livro Mais Bonito do Mundo, na feira de Leipzig, na Alemanha, por conta da obra "L'imagier des gens" ("Pessoas", 2008). "Cantiga", em sua versão original americana, foi considerado um dos dez livros mais bonitos de 2013 pelo New York Times Book Review, e recebeu o Prêmio Pépite du Livre, entregue pelo Salão de Montreuil.

detalhes do livro Cantiga", de Blexbolex (Cosac Naify, 2014)

Quando falamos de um livro para criança, nada mais potente do que reconhecer nesses espaços em branco o lugar do desenvolvimento cognitivo e associativo.

"Quando escutamos a maneira singular com a qual as crianças nomeiam o mundo, colocamos em saudável tensão nossas fibras interpretativas", diz Cecilia Bajour no livro "Ouvir nas entrelinhas - o valor da escuta nas práticas de leitura" (editora Pulo do Gato, 2012).

Ainda neste livro, uma afirmação iluminada: "A linguagem contém mundos e é poliglota". E é isso. O adulto tende a achar que a palavra é só o que ela quer dizer. Ficamos quase sempre na intencionalidade do texto, mas entre querer dizer e poder dizer há um mundo mágico e infinito. A linguagem literária é por excelência o reino do poder, no sentido de possibilidade, e a criança percebe isso com imensa naturalidade. "A fala das crianças é habitada por surpreendentes esforços metafóricos de ir além de um universo de palavras que começa a ser construído e ainda é pequeno", complementa Cecilia.

Outros exemplos de livros infantojuvenis que são repletos de espaço de silêncio:

Hoje - Eva Montanari (Jujuba, 2014)

Lá e aqui - Odilon Moraes e Carolina Moreyra (Pequena Zahar, 2015)

A árvore vermelha - Shaun Tan (SM, 2009)

Inês - Roger Mello e Mariana Massarani (Companhia das Letrinhas, 2015)

Este chapéu não é meu - John Klassen (WMF Martins Fontes, 2013)

Se você quiser ver uma baleia - Julie Fogliano e Erin E. Stead (Pequena Zahar, 2013)

Passarinha - Regina Berlim e Thais Beltrame (Peirópolis, 2011)

...e muitos outros que ainda vou descobrir ou me lembrar 5 minutos depois de publicar este texto.

Ps*: "Rumor da Língua" está esgotado nas livrarias e nos sites de venda de livros (na Estante Virtual, não se encontra por menos de R$100 patacas. Mas você pode acessar e baixar o pdf no Scribd ou ler o livro online na íntegra aqui.


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