garimpomiudogarimpomiudohttps://www.garimpomiudo.com/blank“Inês”: realidade e ficção pelo direito ao devaneio poético]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/09/20/%E2%80%9CIn%C3%AAs%E2%80%9D-realidade-e-fic%C3%A7%C3%A3o-pelo-direito-ao-devaneio-po%C3%A9ticohttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/09/20/%E2%80%9CIn%C3%AAs%E2%80%9D-realidade-e-fic%C3%A7%C3%A3o-pelo-direito-ao-devaneio-po%C3%A9ticoTue, 20 Sep 2016 22:19:15 +0000
“Quando eles se conheceram, eu andava escondida no meio de outras coisas. Curva de brisa, alga vermelha, briga de passarinho. Eu ainda não era uma vez”.
É com esse início arrebatador (clique aquie confira a nossa lista dos começos mais inesquecíveis da literatura infantil) que Inês, livro ilustrado de Roger Mello e Mariana Massarani, publicado em 2015 pela Companhia das Letrinhas, pega o leitor pela mão e o convida para voltar a 1355, para o epicentro de um acontecimento que só conhecemos pelos livros de História: o beija mão da rainha Inês.
O título antecipa quem é a protagonista. Inês é Inês de Castro, dama de companhia da rainha Constança, esposa do príncipe de Portugal, Pedro I. Aprendemos pela História que o romance proibido entre os dois nasceu em um cenário de disputa política e poder, culminando no assassinato de Inês a mando do rei, e na conseguinte coroação da moça, que se tornou rainha mesmo depois de morta: episódio conhecido como Beija mão de Inês de Castro. É um misto tão impreciso entre realidade e ficção que surpreende que tenha se tornado livro infantil somente agora.
Uma história que a um só tempo pertence ao campo do registro histórico e da poética do imaginário popular; Inês de Castro não poderia parar por aí. Tanto é que foi recontada por Camões, Bocage e muitos outros autores. O que não esperávamos é que ainda seria dada a palavra à Beatriz, filha do casal. E é isso que Roger e Mariana fazem neste livro: dão voz a um eu-lírico criança para narrar a história do ponto de vista do devaneio infantil.
Quando Beatriz diz “eu ainda não era uma vez”, o leitor entende que vai saber de tudo desde antes de a nossa narradora nascer. Para a criança, o que vem primeiro é a identificação com o ponto de vista, a possibilidade de revisitar um capítulo da História como se esta pudesse finalmente ser tão real a ponto de acontecer com ela mesma. Para o adulto, o que fica são interrogações de surpresa: “Então isso é literatura infantil?”; “Posso falar de assassinato, traição, violência para crianças?; “Posso falar de História contando história?”.
Inês ensina que é possível fazer um livro absolutamente brasileiro – na estética, na intenção e na concepção – mesmo contando algo que aconteceu em Portugal. Que é possível falar do outro para falar de nós mesmos. Afinal, mesmo narrada por uma criança, a vida de Inês de Castro ainda pertence ao campo do devaneio, em que importa menos saber o que é fato e o que é lenda, do que se deixar levar pela possibilidade de participar da História com letra maiúscula. Ser leitor deste livro é se aproximar dos cochichos dos peixes do rio Mondego, passear com olhos de criança pela Quinta das Lágrimas, acreditar que as algas vermelhas são lágrimas do sangue de Inês.
A fantasia aqui não é só elemento e matéria-prima do livro, é personagem. Num certo momento, Beatriz diz que conheceu muitos dos nomes do seu pai: Pedro, O Cruel; Pedro, o Cru; Pedro isso, Pedro aquilo. Mas, para ela, era só Pedro. No livro A poética do devaneio, o filósofo Bachelard diz que “Somente pela narração dos outros é que conhecemos a nossa unidade. No fio de nossa história contada pelos outros, acabamos, ano após ano, por parecer-nos com nós mesmos. Reunimos todos os nossos seres em torno da unidade do nosso nome”. Este livro é isso: uma manifestação do devaneio poético da infância e da entrega ilimitada ao fato de que somos muitos, depende só da maneira de contar.
]]>
Trocando em miúdos: Dipacho]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/09/07/Trocando-em-mi%C3%BAdos-Dipachohttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/09/07/Trocando-em-mi%C3%BAdos-DipachoWed, 07 Sep 2016 15:28:33 +0000
Dipacho é o nome divertido que o ilustrador colombiano Diego Francisco Sánchez Rodríguez criou para assinar os seus livros. Em uma passagem recente pelo Brasil, ele esteve em São Paulo e Campinas, ministrando oficinas e apresentando o seu traço delicado e repleto de camadas de significado, em que uma coisa sempre pode ser outra coisa. Suas histórias levam para os pequenos conceitos e conversas da maior importância: igualdade, respeito, amadurecimento, ética, consumo e crítica social.
Três livros dele já chegaram ao Brasil. Para a sorte dos leitores, esse movimento ficou a cargo do trabalho cuidadoso da editora Pulo do Gato; são publicações que respeitam o projeto de cada livro e sabem bem o tamanho do olhar do leitor que vai acessá-los: Dois passarinhos (2015), A viagem dos elefantes (2014) e Todos zoam todos.
Com 32 anos, Dipacho recebeu muitos prêmios internacionais importantes. Seu livro mais recente por aqui, Dois passarinhos, foi incluído na lista de honra do International Board on Book for Young People (IBBY), e faz parte da biblioteca especializada em literatura para crianças mais importante do mundo, a alemã Internationale Jugendbibliothek (IJB). Com o livro ilustrado Jacinto y Maria José, Dipacho ganhou o prêmio La Orilla del Viento, do Fundo Nacional de Cultura. Todos zoam todos (no original, Todos se burlan) e El animal más feroz receberam menção de honra na Bienal Internacional de Ilustração de Bratislava.
O Trocando em Miúdos de hoje foi conversar com o artista para alcançar as informações que não têm nome, não foram publicadas em lugar nenhum, e ninguém mais pode contar a não ser a criança que vive bem dentro de suas caraminholas.
1. Por que às vezes o desenho tem um tamanho e o texto tem outro?
Porque às vezes um tem mais história para contar do que o outro. Mas sempre dependo do livro e como o texto e a ilustração jogam entre si, não importa tanto o tamanho.
2. Pra que serve uma cor? E a imaginação?
Uma cor serve para transmitir emoções e sensações. O amarelo pode transmitir alegria e o cinza tristeza, embora também possam existir personagens amarelos tristes e cinzas felizes – para isso serve a imaginação, para brincar com as ideias e também com as cores. A imaginação pode invertes as sensações, ou ampliá-las.
3. Você já trombou com uma história no meio da rua?
Sim, claro! Encontro-as por todos os lados! As histórias estão até nos pequenos detalhes, algumas se transformam em livros, outras ficam dando voltas dentro da cabeça.
4. Uma história nasce na barriga ou na cabeça?
Nasce no coração, passando pela barriga e pela cabeça.
5. Dos mundos que não existem, qual é o seu favorito?
Os que eu ainda não inventei.
6. Como consertar uma história que não funciona?
Deixando-a quieta um pouco – às vezes, anos. Com o tempo, as histórias amadurecem.
7. É mais fácil ganhar de um monstro ou de um medo?
De um monstro, é muito mais fácil, é preciso não ter medo para ganhar do monstro. Mas ganhar do medo é muito mais difícil.
8. Qual a diferença entre as palavras fáceis e as difíceis?
As difíceis travam a língua para falar. As fáceis, conhecemos de memória.
9. Por que os adultos às vezes querem esconder algumas na estante mais alta?
Os adultos às vezes são indecifráveis.
10. Se os livros tivessem perna, pra onde eles iriam?
Perseguiriam os humanos.
Para quiser conhecer de perto o jeito de trabalhar de Dipacho, uma boa dica é este minidocumentário, produzido pelo salão de ilustrações ImagenPalabra, em que ele mostra seus desenhos, rascunhos, sketchbooks e o jeito todo dele de trabalhar, como um caderno de personagens, onde ele guarda ideias para futuras histórias.
]]>
"Todos podem criar imagens bonitas", diz a ilustradora alemã Stefanie Harjes]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/09/02/Todos-podem-criar-imagens-bonitas-diz-a-ilustradora-alem%C3%A3-Stefanie-Harjeshttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/09/02/Todos-podem-criar-imagens-bonitas-diz-a-ilustradora-alem%C3%A3-Stefanie-HarjesFri, 02 Sep 2016 13:06:14 +0000
Stefanie Harjes é umas das principais ilustradoras alemãs da atualidade. Suas ilustrações resgatam o que há de criança nos adultos, e respeitam o que há de maduro em cada criança. Apenas um de seus livros foi editado no Brasil, Meu Kafka (Cosac Naify, 2013), onde compartilha sua relação pessoal e artística com o criador de A Metamorfose. Mas o valor do seu trabalho vai muito além do produto final: é muito mais uma intenção de inaugurar um jeito de olhar o mundo e se relacionar com o infantil que está nas coisas e nas pessoas.
No Brasil para uma série de atividades em parceria com o Goethe Institute, Stefanie passou também pela Bienal Internacional do Livro. Longe do burburinho apressado da feira, presenteou um grupo de pouco mais de 10 pessoas nesta quarta-feira, n’a Casa Tombada. Com generosidade de criança, compartilhou seu processo criativo desde a ideia até a publicação. Falamos sobre poesia, pintura, política e, principalmente, sobre observação. A importância de olhar.
Feito a autora, seus desenhos são bicho solto, não seguem técnicas nem padrões formais de proporção e realismo. Ao contrário, têm forte influência do “automatismo psíquico”, o fluxo de consciência inventado pelo surrealista André Breton para deixar fluir desejos criativos, sem preocupação com estética ou rigor. Essa postura é um norte não só para as ilustrações, mas também para o modo de ser da artista, que parece gostar mais de contar sobre seu gosto por natação e flauta doce do que sobre seu trabalho.
Na linguagem, Stefanie diz beber de fontes diversas, como Pablo Neruda e Paul Klee. Colagem, pintura, traço à mão, experimentos com café, frutas, sucatas, desejos orgânicos, objetos improváveis: tudo vale para dizer o que quer dizer. Por isso, sua obra final é sempre fruto do que ela chama de “jogo do acaso”, em que uma coisa nunca é igual à outra. “Não existe certo ou errado, mas, sim, pelo menos 10 formas de certo”, brinca. “Todo mundo é capaz de criar imagens bonitas, a beleza é o que a gente vê”, complementa.
Ela conta que, no atelier onde trabalha, em Hamburgo, sua mesa é totalmente coberta por papel, onde vai testando cores, rabiscando ideias, desenhando enquanto fala ao telefone. O ambiente onde vive é frequentemente tomado pelo acúmulo das coisas que vê e guarda. “Venho de uma família que passou pela guerra, então criei o vício de guardar as coisas para que, se vier a faltar de novo, eu tenha”, explica. “Quando minha avó morreu, encontramos mais de cem sapatos, 50 guarda-chuvas e mais de 30 ferros de passar. Eu não passo roupa, então decidi que queria fazer algo bonito com aquilo”.
Arte que ensina a olhar
Para explicar o que faz, Stefanie usa uma citação de Joan Pratis: “A arte nos ensina a não tropeçar como cegos pelo mundo”. São as particularidades das coisas não vistas que mantêm o seu espírito criativo aceso. Por isso, suas composições nascem de um comportamento tipicamente infantil diante do mundo: recolher detalhes aparentemente insignificantes do cotidiano. “As imagens já estão aí, nós só temos que aprender a vê-las”.
Por onde passa, repara em texturas, cores, formatos, cheiros. Entende que o mundo natural e físico comunica arte, e incorpora esses elementos na criação. Dos papeis de embalagem, bilhetes, tickets, recorta o que pode querer usar nas ilustrações. “Faço tudo com a mão e estou ficando boa em recortar coisas muito pequenas. Às vezes, fico horas procurando um pedacinho e descubro que está grudado embaixo do meu sapato”.
Em um poema que escreveu em homenagem a Jacques Prévert, ela resume seu modo de criar: “Sua cabeça fala mas / é o coração que tudo sabe / ouça mais e mais /o que seu coração tem a dizer / continue até toda a poesia estar ilustrada”.
Stefanie Harjes Ilustrou mais de 30 livros, e há mais de 20 trabalha como artista do livro em seu atelier, “Sobrevento”. Dá palestras e oficinas para crianças, onde defende o livre criar, e ilustra para editoras e revistas na Alemanha, além de apresentar suas criações em exposições individuais em todo o mundo. Dentre os inúmeros prêmios que recebeu, em 2009, foi a primeira mulher a ganhar o Prêmio de Ensino de Hamburgo (Hamburger Lehrpreis).
Mas, à parte isso, ela escolhe suas próprias importâncias. No final do encontro n' A Casa Tombada, Stefanie entregou a cada um dos presentes alguns papéis com uma espécie de biografia íntima, informações sobre si escolhidas a dedo, como o fato de que nasceu três anos antes de sua irmã, Annette, ou que começou a falar com sete meses de idade. E que, simplesmente porque se diverte fazendo, continua desenhando.
]]>
10 começos inesquecíveis da literatura infantil e juvenil]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/08/25/10-come%C3%A7os-inesquec%C3%ADveis-da-literatura-infantil-e-juvenilhttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/08/25/10-come%C3%A7os-inesquec%C3%ADveis-da-literatura-infantil-e-juvenilThu, 25 Aug 2016 12:50:24 +0000
Quando se fala em começos na literatura, logo vem à mente uma porção de inícios inesquecíveis de grandes clássicos. "Lolita", "Cem Anos de Solidão", "As Intermitências da Morte", "Grande Sertão: Veredas". E na literatura infantil, quais seriam os começos mais marcantes? Se o livro precisa concorrer com o mundo cada vez mais preenchido de estímulos, onde as crianças recebem cada vez mais informações, as primeiras páginas devem ser os fios inevitáveis que nos puxam pela mão e levam para dentro de um universo desconhecido e insubstituível.
Vasculhando a nossa memória de leitor, talvez nos lembremos de como foi, ainda criança, ler as primeiras linhas da coleção Vagalume, de Viagem ao centro da terra, Marcelo Marmelo Martelo, Meu pé de laranja lima, Memórias de Emília e tantos outros. Foram eles os começos que nos guiaram em nossos primeiros passos de leitor.
É um arrebatamento diferente aquele que o toca o leitor quando ele ainda está descobrindo o tamanho das palavras, o peso do discurso e como uma coisa e outra reverberam muito além do nosso controle.
Voltar a esses começos é conhecer melhor o leitor que somos hoje. Por isso, o Garimpo faz essa brincadeira: misturando diferentes estilos literários e períodos de publicação, listamos 10 inícios inesquecíveis da literatura infantil e juvenil. Aqueles que, mesmo depois de lidos três, quatro, cinco vezes não terminam de dizer o que querem dizer. Começos que podem ser três parágrafos ou uma linha só.
E como toda escolha é feita de memória, a conclusão aqui é metalinguística: uma lista de inícios que nunca terminam de começar.
1. Peter e Wendy – James Matthew Barrie (Cosac Naify, 2012; reedição)
"Todas as crianças crescem, menos uma. Logo ficam sabendo que irão crescer, e Wendy sabia disso pelo seguinte motivo: um belo dia, quando tinha dois anos de idade, estava brincando num jardim, colheu uma flor e saiu correndo com ela em direção a sua mãe. Imagino que a menina devia estar linda, porque a sra. Darling pôs a mão no peito e exclamou:
- Ah, por que você não pode ficar assim para sempre?
Nada mais foi dito entre as duas sobre o assunto, mas Wendy ficou sabendo que um dia precisaria crescer. Dois anos é o começo do fim."
2. Dentes de rato – Augustina Bessa-Luís (Peirópolis, 2006; reedição)
Lourença tinha três irmãos. Todos aprendiam a fazer habilidades como cãezinhos, e tocavam guitarra ou dançavam em pontas dos pés. Ela não. Era até um bocado infeliz para aprender, e admirava-se de que lhe quisessem ensinar tantas coisas aborrecidas e que ela tinha que esquecer o mais depressa possível. O que mais gostava de fazer era comer maças e deita-se para dormir. Mas não dormia. Fechava os olhos e acontecia-lhe então uma aventura bonita e conhecia gente maravilhosa. Eram as pessoas que ela via no cinema ou que ela já tinha encontrado em qualquer parte. Não gostava de ninguém que se pusesse entre ela e a imaginação, como um muro, e não a deixasse ver as coisas de maneira diferente. Não gostava que lhe tocassem e, sobretudo, que a gente grande pesasse com a grande mão em cima de sua cabeça. Apetecia-lhe morder-lhes e fugir depressa. Mas não fazia nada disso.
3. As aventuras de Pinóquio – Carlo Collodi (Cosac Naify, 2012)
- Um rei! – dirão logo os meus pequenos leitores. Não, meninos, vocês se enganaram. Era uma vez um pedaço de pau.
Não de madeira de lei, mas um simples pedaço de lenha, desses que no inverno atiramos nos fogões e nas lareiras para acender o fogo e aquecer os aposentos.
Não sei como a coisa aconteceu, mas a verdade é que um belo dia esse pedaço de pau foi parar na oficina de um velho carpinteiro, que tinha por nome Antonio, embora todos o chamassem de Cerejo, por causa da ponta de seu nariz – sempre roxa e lustrosa – como uma cereja madura.
4. O menino no espelho – Fernando Sabino (Record, 1982)
Quando chovia, no meu tempo de menino, a casa virava um festival de goteiras. Eram pingos do teto ensopando o assolhado de todas as salas e quartos. Seguia-se um corre-corre dos diabos, todo mundo levando e trazendo baldes, bacias, panelas, penicos e o que mais houvesse para aparar a água que caía e para que os vazamentos não se transformassem numa inundação. Os mais velhos ficavam aborrecidos, eu não entendia a razão: aquilo era uma distração das mais excitantes. (...) Passado o temporal, meu pai subia ao forro da casa pelo alçapão, o mesmo que usávamos como entrada para a reunião da nossa sociedade secreta. Depois de examinar o telhado, descia, aborrecido. Não conseguia descobrir sequer uma telha quebrada, por onde pudesse penetrar tanta água. Um mistério a mais, naquela casa cheia de mistérios. O maior, porém, ainda estava por se manifestar.
5. Inês – Roger Mello e Mariana Massarani (Companhia das Letrinhas, 2015)
"Quando eles se conheceram, eu andava escondida no meio de outras coisas. Curva de brisa, alga vermelha, briga de passarinho. Eu ainda não era uma vez."
6. O livro de todas as coisas – Guus Kuijer (Martins Fontes, 2011)
"Thomas era capaz de ver coisas que ninguém mais via. Não sabia por quê, mas tinha sido sempre assim. Lembrava-se de uma violenta chuva de granizo que um dia tinha caído. Thomas pulou para dentro de um portal e ficou observando as folhas sendo arrancadas das árvores. Depois correu para casa.
- De repente virou outono – ele gritou. – Todas as coisas caíram das árvores.
(...) Thomas subiu para o quarto e pegou o livro que estava escrevendo. O título era: O livro de todas as coisas. Ele pegou a caneta e escreveu: “A chuva de granizo foi tão forte que as folhas caíram das árvores. Isso aconteceu de verdade, na rua Jan van Eyck, em Amsterdam, no verão de 1951, quando eu tinha nove anos.”
Ele olhou pela janela para pensar, pois sem janela não conseguia pensar. Ou talvez fosse o inverso: quando havia uma janela, ele automaticamente começava a pensar. Então escreveu: “Quando eu crescer, vou ser feliz.”
7. A fada que tinha ideias - Fernanda Lopes de Almeida (Ática, 1987)
"Clara Luz era uma fada de seus dez anos de idade, mais ou menos, que morava lá no céu, com a senhora fada sua mãe. Viveriam muito bem são fosse uma coisa: Clara Luz não queria aprender a fazer mágicas pelo Livro das Fadas. Queria inventar suas próprias mágicas.
- Mas, minha filha – dizia a Fada-Mãe – todas as fadas sempre aprenderam por esse livro. Por que só você não quer aprender?
- Não é preguiça, não, mamãe. É que eu não gosto de mundo parado.
- Mundo parado?
- É. Quando alguém inventa alguma coisa, o mundo anda. Quando ninguém inventa nada, o mundo fica parado. Nunca reparou?
- Não...
- Pois repare.
8. O paraíso são os outros – Valter Hugo Mãe (Cosac Naify, 2014)
"
"Reparei desde pequena que os adultos vivem muito em casais. Mesmo que nem sempre sejam óbvios, porque algumas pessoas têm par mas andam avulsas como as solteira, há casais de mulher com homem, há de homem com homem e outros de mulher com mulher. Há também casais de pássaros, coelhos, elefantes, besouros, pinguins – que são absurdamente fiéis. Quero dizer: há casais de pinguins e até golfinhos podem ser casais. Tudo por causa do amor.
O amor constrói. Gostarmos de alguém, mesmo quando estamos parados durante o tempo de dormir, é como fazer prédios ou cozinhar para mesas de mil lugares."
9. Kafka e a boneca viajante – Jordi Sierra i Fabra (Martins Fontes, 2009)
"Os passeios pelo parque Steglitz eram um bálsamo. E as manhãs, tão doces...
Casais precoces, casais parados no tempo, casais que ainda não sabiam que eram casais, velhos e velhas com mãos cheias de histórias e rugas cheias de passado procurando cantos de sol, soldados com galas de distinção, criadas de uniforme impecável, babás com meninos e meninas vestidos com esmero, casais com filhos recém-nascidos, casais com sonhos recém-destruídos, solteiros e solteiras de olhar esquivo, guardas, jardineiros, ambulantes.
O parque Steglitz transpirava vida naquele início de verão.
Um presente.
E Franz Kafka absorvia, como uma exponha, viajando com os olhos, atraindo energias com a alma."
10. A história sem fim – Michael Ende (Martins Fontes, 2010)
"Esta inscrição encontrava-se na porta envidraçada de uma pequena loja, mas, naturalmente, só tinha este aspecto quando, do interior sombrio da loja, se olhava para a rua através da vidraça. Lá fora, era uma manhã cinzenta e fria de novembro, e chovia a cântaros. As gotas escorriam pela vidraça e por cima das letras floreadas. Tudo o que se via era uma parede manchava pela chuva do outro lado da rua.De repente, a porta se abriu com tanta força que os sininhos de latão, que pendiam sobre ela, começaram a tilintar e só pararam depois de alguns instantes.O causador desse tumulto era um garoto baixo, gordo, de uns dez ou onze anos. O cabelo castanho-escuro, molhado, caía-lhe sobre o rosto; tinha o casaco encharcado de chuva e trazia a tiracolo uma pasta escolar presa por uma correia. Estava um pouco pálido e ofegante, mas, apesar de há pouco parecer ter muita pressa, continuava parado diante da porta aberta, como estivesse pregado no chão. (...)
O rapaz não sabia muito bem o que fazer, por isso deixou-se ficar simplesmente ali, fitando o homem com os olhos muito abertos. Finalmente, o velho fechou o livro, deixando o dedo entre as páginas, e resmungou:- Preste atenção, menino! Eu não gosto de crianças. Sei que está na moda fazer um grande alarido quando se trata de vocês... Mas comigo, não! Eu não gosto nada, nada de crianças. Para mim, são todos uns patetas choramingas, de uns desajeitados que estragam tudo, sujam os livros de geleia, rasgam as páginas e não querem nem saber dos problemas e preocupações que os adultos possam ter. Digo isto para que você não se iluda. Além do mais, não tenho livros para crianças. Espero ter sido claro.
O rapaz assentiu em silêncio e fez menção de se retirar; de alguma forma, porém, pareceu-lhe que não poderia aceitar aquele sermão sem protestar e, por isso, voltou-se uma vez mais e disse, baixinho:
- Nem todas são assim.
]]>
Terra de Cabinha: inventário afetivo das crianças do sertão]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/08/17/Terra-de-Cabinha-invent%C3%A1rio-afetivo-das-crian%C3%A7as-do-sert%C3%A3ohttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/08/17/Terra-de-Cabinha-invent%C3%A1rio-afetivo-das-crian%C3%A7as-do-sert%C3%A3oWed, 17 Aug 2016 18:27:41 +0000
“Cabra da peste” virou “cabrinha”, que logo passou a ser só “cabinha”. O jeito de chamar as crianças lá no Cariri, transformado de boca em boca, revela a oralidade que tantas vezes substituímos pela linguagem escrita. Terra de Cabinha, título escolhido para o livro onde a jornalista Gabriela Romeu e o fotógrafo Samuel Macedo depositam as histórias das crianças da região, aponta, então, para uma intenção de natureza dupla: ao mesmo tempo em que quer resgatar a cultura oral de apreensão de saberes e fazeres, também discute a importância de transportar a memória intangível para o concreto do livro.
Fruto de uma extensa viagem pelos quatro Estados que formam o Cariri nordestino – Paraíba, Pernambuco, Ceará e Piauí –, o livro apresenta para a criança da cidade grande as brincadeiras, receitas, adivinhas, tradições, causos, receitas e costumes da criança do Cariri e seus incontáveis contadores de histórias. Histórias de meninos que viram reis, caçam jumentos e fogem de encantados.
Dessa imersão pelos quintais do Brasil, nasceu o projeto Infâncias, do qual este livro faz parte. Idealizado por Gabriela e pela também jornalista Marlene Peret, o projeto começou há três anos, com a proposta de investigar as diferentes culturas de infância que compõem o jeito brasileiro – e ao mesmo tempo global – de ser criança: a ludicidade. “O brincar é a língua universal da infância. As crianças brincam em todos os tempos, territórios e contextos. Ainda que confinadas nas escolas, que engessam corpos brincantes em carteiras enfileiradas, o impulso do brincar rompe a aridez imposta pelo mundo dos adultos”.
Publicado pela editora Peirópolis em uma edição de encher os olhos, Terra de Cabinha será lançado em São Paulo neste sábado, 20 de agosto (serviço completo abaixo), mas, antes, viajou de volta para o Nordeste, onde passou pelas mãos dos cabinhas, matriarcas e mestres que puxaram essas histórias da memória, uma a uma. “Muitos dos cabinhas já estavam crescidos, alguns já não eram mais crianças. Vi meninos e meninas acariciando as páginas do livro como que tentando captar um momento de infância que se dissipou no tempo”, relembra Gabriela.
E o livro não se esgota em sua intenção de mostrar a criança daqui como é a criança de lá. Antes disso, transforma esses meros advérbios em lugar constante, de visitação sempre possível. Por isso, se transforma em um material rico de pesquisa sobre a brincadeira, a cultura da infância, e oralidade e a educação. Tanto é que o prefácio fica por conta de Gandhy Piorski, um dos maiores nomes da pesquisa da cultura do brincar no Brasil. Para exemplificar o grau de lirismo que permeia todo o livro, aqui vai um trecho da fala de Gandhy:
“A infância é um estado que se sustenta pelo contínuo trabalho de instilar, peneirar, filtrar o mundo. Crianças são como espécies de pássaros garis da natureza: fazem continuamente o trabalho de renovar as sobras do mundo, digerindo-as em uma calórica forja imaginadora, transformando-as em novos nutrientes, artefatos da brincadeira, crenças e certezas jovens, recém-nascidas, porém embevecidas de fascínio."
Quem quiser antecipar o mergulho nessa infância do Brasil profundo, pode acessar conteúdos extras do livro no site da editora, que disponibiliza áudios, vídeos, depoimentos, entrevistas e minidocumentários sobre esse universo.
Mais do que isso, só mesmo buscando junto de quem fez. Por isso, o Garimpo foi conversar com a Gabriela Romeu para saber quais as impressões e sensações trazidas por esse universo de encantarias infantis. O que ela conta não está no livro – sorte a nossa! – e vale cada linha!
Como começou a sua curiosidade de trabalhar com crianças deslocadas dos centros urbanos?
Ao atuar como jornalista dedicada à infância, eu sempre cobri as realidades infantis pelo Brasil. As pautas que mais me instigavam eram as que revelavam as infâncias: como é a vida das crianças numa ilha do Maranhão, das crianças angolanas que moram no Complexo da Maré, no Rio, ou as crianças ribeirinhas que têm o rio como estrada, entre outras realidades que tive a oportunidade de conhecer. Mas acho que essa história começou mesmo na minha infância, quando eu ouvia atentamente os relatos dos tempos de meninas de minha mãe e minhas tias, todas mineiras e cheias de prosa. Eu adorava ouvir as histórias dessa infância rural, pé na terra. Foi ali minha primeira incursão etnográfica pelas infâncias do Brasil profundo.
Em termos de cuidado com a infância, grandes centros urbanos estão muito aquém do ideal. Como você acha que podemos evoluir para que as cidades percebam melhor a criança?
Sempre que volto dos lugarejos que visito no Brasil profundo fico pensando o que perdermos nesse processo intenso de urbanização do país.... E acho que foi se dissipando com o tempo algo que precisamos resgatar: o senso comunitário, do viver em comunidade, o que é essencial para uma infância livre, autônoma. Nas comunidades tradicionais, as crianças andam livres pelos quintais, pois estão sendo cuidadas por todos, pelo tio, avó, vizinha. Sabe aquele dizer africano de que “é preciso toda uma aldeia para cuidar de uma criança”? Mas acredito que os movimentos todos que se disseminam pelas cidades, repensando o espaço público na dimensão do humano, podem ser um caminho para que a cidade acolha melhor as crianças e suas infâncias.
Depois desses quatro anos investigando diferentes culturas de infância, acha que existe um componente comum, uma espécie de ingrediente universal da infância, que faz um guri, um cabinha ou um piá serem crianças onde quer que elas estejam?
O ingrediente universal da infância é o brincar, a língua universal da infância. As crianças brincam em todos os tempos, territórios e contextos – às vezes mais, às vezes menos. Eu me lembro de meninas que brincavam de pular elástico com os dedos, na sala de aula. Ainda que confinadas nas escolas, que engessam corpos brincantes em carteiras enfileiradas, o impulso do brincar rompe a aridez imposta pelo mundo dos adultos.
Percebo também outros aspectos que ligam as infâncias do Brasil profundo: um tempo menos fragmentado e segmentado, um aprendizado permeando a vida, um território muitas vezes convidativo ao exercício de ser criança, saberes compartilhados entre adultos e crianças na comunidade.
Há ainda os dilemas de crescer, os ritos de passagem, que fazem parte da vida de meninos e meninas por todo o Brasil, seja da cidade, seja do interior. Romper o mundo da infância e adentrar a adolescência é um desafio grande para todas as crianças. A diferença é que em algumas comunidades tradicionais ou em povos indígenas essa passagem é marcada, celebrada, ritualizada. No meio urbano, nas grandes cidades, os ritos muitas vezes se diluem no apressado da vida.
No prefácio do Terra de Cabinha, o artista plástico Gandhy Piorski diz que o livro apresenta as imagens fundamentais de uma “infância de cosmicidade”, um conceito de Bachelard. Pode explicar o que é isso, uma infância de cosmicidade?
Um desafio e tanto explicar os pensamentos de Gandhy Piorsky, que está para falar desse e de outros assuntos no livro Brinquedos do chão, que também será lançado pela editora Peirópolis. Mas vou fazer uma tentativa, bem breve. Uma infância cheia de cosmicidade abarca uma memória coletiva das origens do mundo, dos cosmos. É uma infância que enfrenta o medo da noite, que bem traduz os mistérios do mundo, e pressente que a natureza é sábia e também devoradora, pois ali vivem as Caboclinhas que levam as crianças para a mata profunda e os tios são também Lobisomens.
Ainda no prefácio do livro, destaca-se o fato de as crianças da cidade estarem perdendo o “valor nutricional dos causos, mitos, lendas, histórias e práticas de diálogo com o mundo natural”. Pra você, o que a falta de todos esses elementos causa a uma criança?
Eu cresci ouvindo uma tia querida, Cida, contando causos de medo em noites em que dormíamos encolhidas – eu me lembro e ouço vivamente a sua voz e sinto ainda hoje o cheiro do talco que ela usava. Eram histórias sobre diabinhos e outras criaturas amedrontadoras que habitaram a infância de minha tia e, narradas para mim naquelas noites, passaram a habitar a minha também. São histórias que nos conectam com imagens poderosas da ancestralidade e das origens, como nos diz Gandhy Piorski. É uma triste perda deixarmos de nos conectar com essa mitologia que vem sendo cultivada no imaginário da humanidade há tempos. E o pior é que, em muitos casos, histórias dessa natureza sofrem de uma assepsia tamanha, tornam-se rasas e sem força, como se a criança não fosse forte o bastante para encarar o poder das encantarias do mundo.
No livro, está muito presente a cultura da oralidade, crianças que absorvem saberes de seus avós, por meio das histórias. Isso se perdeu no cotidiano da vida nas cidades?
O momento de contar histórias se perdeu em muitos lugares – e não só nas cidades grandes. Por onde eu ando procuro os narradores de histórias. Uma vez perguntei a uma senhora contadora de histórias sobre os Lobisomens que rondavam seu povoado. E ela disse: “Não apareceram mais depois que a luz chegou por aqui”. O imaginário vai sendo alimentado pelas histórias narradas na TV, num livro, no cinema e nos games. Mas acredito que é preciso insistir nesses momentos das histórias de boca, as narrativas da oralidade, cheias de afetos outros, com as crianças em casa, na escola, no bairro, na comunidade.
Samuel Macedo dedica o livro ao seu pai, Chico, por tê-lo deixado ser criança. O que é deixar ser criança?
Entendo que é permitir o exercício de crescer, sem agendas estressantes e com tempo para o ócio inventivo das crianças. Criança precisa de tempo e de espaço; o resto ela inventa.
Como foi o retorno ao Cariri com o livro pronto? Como os cabinhas reagiram quando viram suas histórias formatadas em um livro?
Foi muito especial o retorno ao Cariri depois de muitas andanças por lá. Eu e o fotógrafo Samuel Macedo percorremos muitas localidades procurando os cabinhas do livro para devolver-lhes as imagens e as histórias que nos ofertaram em momentos de afeto e diálogo. Muitos dos cabinhas já estavam crescidos, alguns já não eram mais crianças. Vi meninos e meninas acariciando as páginas do livro como que tentando captar um momento de infância que se dissipou no tempo. Também visitamos os terreiros dos mestres e dos contadores de histórias, que ficaram gratos com o reencontro. Situações intensas ocorreram. Ao batermos na casa do Tio Tonho, estávamos ávidos em entregar o livro para aquele avô cheio de histórias. Um cabinha que nos recebeu contou que ele tinha morrido há alguns meses. Chegamos atrasados praquele encontro. Deu um aperto no peito e a constatação (óbvia, aliás) de que, se os livros cristalizam uma história ou um momento em palavras e imagens, a vida segue seu curso.
Além do retorno para apresentar o livro, o projeto prevê algum tipo de continuidade junto às crianças dos lugares por onde passou?
O “Infâncias”, idealizado por mim com a jornalista Marlene Peret e com a parceria de vários amigos queridos – Michelle Antunes, Vanessa Fort e Gabriella Mancini, além de Samuel Macedo –, é um projeto que prevê alguns desdobramentos em forma de livro, filmes e exposições a partir de pesquisas feitas com as crianças. Para o Cariri, finalizamos também um curta-metragem documental, Meninos e Reis, que traz o fascínio dos cabinhas pelo reisado, um folguedo bem popular na região. O filme está rodando festivais – e ganhou o prêmio de melhor documentário na tradicional Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis. Queremos muito seguir no diálogo com as crianças do Cariri e há ideias de outros projetos. Mas vamos neste semestre nos dedicar a espalhar as notícias dos cabinhas para conectar realidades e criar a ponte entre infâncias que estão tão longe e tão perto de todos nós.
O que está por vir? Que projetos está desenvolvendo no momento?
Temos mais dois livros para publicar e estamos trabalhando no desenvolvimento de uma série de TV com narrativas de crianças de todo o Brasil em parceria com outras duas produtoras – e espero logo poder dar mais detalhes sobre esse projeto! No mais, gostaria de voltar à estrada no ano que vem, fazer outras incursões e seguir no diálogo com as infâncias brasileiras.
]]>
A cultura tradicional do Baixo Amazonas: de crianças para crianças]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/08/10/Em-novo-livro-do-Tecendo-Saberes-a-cultura-tradicional-do-Baixo-Amazonas-de-crian%C3%A7as-para-crian%C3%A7ashttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/08/10/Em-novo-livro-do-Tecendo-Saberes-a-cultura-tradicional-do-Baixo-Amazonas-de-crian%C3%A7as-para-crian%C3%A7asWed, 10 Aug 2016 13:50:33 +0000
Marie-Ange Bordas é um ser em constante movimento. Com formação em Jornalismo, seu campo de ação se estende para a fotografia, escrita, antropologia, ciência social, artes plásticas. Mas o que talvez defina muito melhor o que ela faz está num verbo simples: escutar. Escutar e ser “artista-ponte”, como ela diz.
Por isso é que seu mais novo lançamento, o livro infantil “Manual das crianças do Baixo Amazonas”, faz barulho na urgência atual de falar sobre a criança que cresce longe do que conhecemos como civilização moderna. Que saberes elas têm? Afinal, há um componente universal em toda infância que faz a criança ser criança onde quer que ela esteja? Que tipos de conhecimentos é possível transpor para a cidade?
O livro faz parte do “Tecendo Saberes”, projeto com três anos de atuação em diversos cantos do Brasil. Em 2014, ele visitou as crianças de comunidades quilombolas do Baixo Amazonas (Pará) e do povo indígena Huni Kui do Rio Humaitá (Acre). O produto desses encontros são livros e DVDs que defendem a preservação e conhecimento dos saberes da cultura tradicional brasileira.
O mais recente, “Manual das crianças do Baixo Amazonas”, acaba de ser lançado em São Paulo, durante uma oficina no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, e foi feito no Pará, por mais de 100 crianças e jovens de cinco comunidades extrativistas remanescentes de quilombos: Mondongo, Cachoeira Porteira, São José , Cuecé e Silêncio. O livro ganhou uma tiragem de 1.200 exemplares, e por ora não será comercializado, mas qualquer pessoa pode fazer download no site do projeto (clique aqui para acessar), e chegará às mãos das crianças dos locais visitados. Uma das premissas fundamentais do projeto, segundo Marie, é o retorno às comunidades, que se deu em parceria com as Secretarias Municipais da Educação das cidades de Obidos e Oriximina. Além do lançamento e distribuição por lá, houve formação para professores locais para utilização dos livros em sala de aula.
Os pequenos leitores que acessarem este livro vão saber da boca de outras crianças que foram os escravos africanos, trazidos para a Amazônia para trabalhar nas fazendas de cacau, algodão e cana-de-açúcar, que fizeram esse chão por onde muitas delas podem passar nas férias. Vão saber que, se nossos antepassados índios não tivessem compartilhado o que sabiam sobre a mata, não teríamos chegado onde chegamos. Vão aprender sobre ancestralidade, memória, oralidade, e absorver a valorização do tradicional por meio da empatia e identificação.
Afinal, todo o conteúdo que está no livro não veio só do significado histórico, mas da importância que as crianças dão àqueles conhecimentos tão cotidianos. Quando uma criança da cidade aprende ou que, no Baixo Amazonas, barco é carro e água é estrada, ou que quando uma criança de Mondongo (comunidade tradicional da região) diz que o rio “tá de carneirinho”, está se referindo à maresia, ela automaticamente reconhece aspectos importantes para o entendimento da cultura.
Quando perguntam sobre suas estratégias de aproximação com essas comunidades, Marie conta que um dos seus métodos de escuta com as crianças é justamente não ter método nenhum. A proposta do projeto é chegar até as crianças nunca com algo pré-definido, mas sim escutando as suas necessidades e anseios, querendo saber o que ela quer contar, e a partir daí, criar uma narrativa com os seus saberes mais intrínsecos. “O ideal pra mim não é que as crianças façam o livro, mas que elas pensem no livro, em como ele pode ser", conta a idealizadora do projeto.
Nesse sentido, Marie defende a desescolarização do conhecimento sobre povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, entre outros, libertando a palavra “tradicional” do ranço de preconceito e endurecimento que normalmente recai sobre ela. “Tradição é uma coisa em movimento, e as crianças estão construindo tradição”, explica.
Outra preocupação do projeto é, durante as oficinas, sempre partir do não conhecimento, deixar de lado as ideias pré-moldadas sobre um povo ou uma cultura. “O índio sempre aparece na sala de aula como índio, não como criança. É apresentado não como um indivíduo, mas como uma matéria a ser estudada”, destaca a artista, ressaltando que conceitos muito básicos como “o que é casa?” variam muito de um lugar para outro, e, para contar uma história, é fundamental considerar o que cada criança pensa sobre ela. “A identidade cultural é um fator de resiliência, e para entender isso é preciso compreender os conceitos de cultura, família e lar a partir do ponto de vista de quem vive aquela realidade”.
Quem folheia o livro, tão rico em detalhes e visivelmente criado por muitas mãos, pode pensar: mas como fazer isso? Um dos segredos é olhar para o outro não a partir do que nós somos, mas a partir do que ele é. “O importante é ressignificar o entorno das pessoas a partir da sensibilização de diversos sentidos – olhar, olfato, audição. Respeitar a subjetividade e os valores da cada um, decifrar criticamente as representações de fora e descontruir discursos adquiridos”, pondera Marie.
A arte como espaço de liberdade e de fazer política
De família metade francesa e metade gaúcha, Marie-Ange incorporou cedo o título de cidadã do mundo, e saiu de casa com 15 anos. Morou na Austrália, na Europa e em diversos países da África, quase sempre trabalhando com crianças e identidade cultural. “Eu sou nômade por opção. Por isso, quero entender a realidade daqueles que não tiveram escolha. Quero desenhar outras formas de estar no mundo”, diz.
Marie se refere não só a pessoas em situação de refúgio e guerra, mas também àqueles que são obrigados a deixar suas terras para viver em outro lugar, que se deslocam de seu chão seguro e perdem com isso a própria identidade, como acontece com tantas comunidades ribeirinhas das cinco regiões do Brasil, principalmente em áreas alagadas por construções.
Confrontar os pequenos com uma realidade que faz parte do Brasil a partir de relatos pessoais das próprias crianças que a vivenciam é um jeito de horizontalizar o conhecimento, transmitir o peso, as cores e o cheiro da experiência - experiência esta que talvez ela não tivesse de outa maneira. “Reportar não é suficiente, eu quero interferir na realidade. Por isso é que eu busquei a arte, que é um espaço de liberdade. Ser artista, pra mim, é agir como um ser político. Temos a obrigação de articular mundos”, explica Marie.
Seus projetos participativos de arte, alfabetização visual e mídia independente são a forma que ela encontrou para chamar o resto do mundo para uma conversa sobre o valor de aspectos tão afastados da infância urbana, como a preservação da memória dos que passaram por aqui antes de nós e a relação com o outro. O "Manual do Baixo Amazonas" não fica só na publicação, e, como continuidade do projeto, cita a diversidade de ações em torno do livro. "Criamos diversas atividades para que o conteúdo transcendesse o número de exemplares impressos e pudesse atingir crianças de todo o Brasil. Além do blog e da página Facebook, temos a "programação "Tecendo Saberes", disponível para ser apresentada em centros culturais, escolas, bibliotecas, feiras, e que consiste em espetáculo de contação de histórias, sessão de cinemia comentado, exposição, bate-papo com atividades de sensibilização à temática e oficina de mediação para educadores e bibliotecarios"
Outro aspecto de continuidade é o cuidado com todos os que participaram - direta ou indiretamente - dos livros norteia todas as ações do projeto: voltar para apresentar o resultado do trabalho. Os mais velhos da comunidade receberam com emoção o livro já pronto, e Vó Luzia, matriarca do Mondongo, decretou: “Agora a gente já pode morrer porque tudo nosso já esta guardadinho aqui neste livro”.
Devolver para a comunidade em forma de livro uma história que já é deles configura uma das premissas principais de um trabalho de preservação de memória, e simboliza a maneira como cada um que passa por um lugar também passa a fazer parte dele, das pessoas, da História.
Durante o lançamento do livro em São Paulo, Marie citou um pensamento de Hanna Arendt: É preciso “confiar na palavra e na ação como modo de vivermos juntos”.
Para saber mais, acesse o site do Tecendo Saberes.
Contato: Marie-Ange Bordas - marieangeb@gmail.com
]]>
Trocando em Miúdos: André Neves]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/08/02/Trocando-em-Mi%C3%BAdos-Andr%C3%A9-Neveshttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/08/02/Trocando-em-Mi%C3%BAdos-Andr%C3%A9-NevesTue, 02 Aug 2016 19:22:51 +0000
“Quando criança eu sempre quis escrever, mas não havia nada para contar. Me pus a desenhar, enquanto aguardava, portanto, viver. Hoje bem sei que havia tanto a contar, o que não precisava era escrever”
Faz um ano que André Neves escreveu essas palavras na parede do Sesc Ribeirão Preto. Foi em julho de 2015, e o cenário era a exposição interativa “Tirando de Letra”, que a cada edição escolhe um autor para homenagear em uma mostra sensorial que materializa personagens e dá à literatura o aspecto coletivo e comunitário de que ela é tantas vezes privada (vale dizer aqui que a homenageada da vez é Marina Colasanti, e a exposição “A moça tecelã” abriu para o público no último dia 27 de julho, ficando em cartaz até 16 de outubro).
Tudo isso para dizer que o entrevistado do Trocando em Miúdos de hoje, o escritor e ilustrador André Neves, não soube sempre por que faz o que faz. Ele começou desenhando para só depois começar a escrever as suas próprias histórias. São de sua autoria os premiados livros Tom (Projeto, 2012), Mel na Boca (Cortez, 2014), Malvina (DCL, 2013) e Obax (Brinque-Book, 2010) livros sobre pequenos protagonistas que sabem bem o seu tamanho, que desafiam a ideia do que é ser criança para ser muito mais, e quase sempre tocar em questões urgentes como autonomia infantil, feminismo, autismo, exclusão social.
André Neves é autor no sentido mais amplo que a palavra pode ter. Não só escreve e ilustra seus livros, mas desempenha um importante papel de mediador de leitura em escolas, universidades e centros culturais, além de colocar seus personagens em exposições que elevam a ideia de leitura para um outro grau de significação.
Publicado em diversos países da Europa, André já recebeu por aqui alguns dos mais importantes prêmios da literatura infantil e juvenil, como Jabuti, FNLJI, Monteiro Lobato.
Agora, ele está prestes a lançar o seu mais novo livro, Nuno e as coisas incríveis, que chega em outubro pela Jujuba Editora, além de trabalhar em Um Dia, Um Rio, livro que traduz para o universo infantil a tragédia do rompimento das barreiras da hidrelétrica de Fundão, em Mariana. Previsto para o segundo semestre de 2016, o livro será lançado pela Pulo do Gato, com ilustrações de André e texto de Léo Cunha.
Dono de uma imaginação que não tem tamanho, mas tem cor, cheiro e sotaque metade Pernambuco, metade gaúcho, André respondeu às perguntas do Garimpo como quem recorre a uma criança que nunca deixou de estar à frente do adulto que ele agora é. “Sou pura imagem. Risco e rabisco. Só sei ser assim. Como se alma ilustração fosse”.
1. Por que às vezes o desenho tem um tamanho e o texto tem outro?
Porque às vezes as ideias visuais precisam contar mais do que as palavras, e vice-versa.
2. Para que serve uma cor? E a imaginação?
As cores são importantes na vida cotidiana, através delas podemos ver e sentir pois cada uma afeta diretamente o corpo e a mente. Podemos com elas, por exemplo, ver o tempo, entender e imaginar atreves de sensações.
3. Você já trombou com uma história no meio da rua?
Com várias. Muitas não precisam ser contadas em livros. Fazem parte da vida.
4. Uma história nasce na barriga ou na cabeça?
No sonho.
5. Dos mundos que não existem, qual é o seu favorito?
Esse em que vivemos. É SURREAL.
6. Como consertar uma história que não funciona?
Todas as histórias funcionam, basta saber contá-las. Neste caso, um pouco de experiência, técnica e mais sensibilidade ajudam.
7. É mais fácil ganhar de um monstro ou de um medo?
Do monstro.
8. Qual a diferença entre as palavras fáceis e as difíceis?
Nenhuma. Basta conhecê-las.
9. Por que os adultos às vezes querem esconder algumas na estante mais alta?
Livros? Para deixar a imaginação mais perto das nuvens.
10. Se os livros tivessem perna, pra onde eles iriam?
Para casas tristes. Aquelas que não possuem livros.
Sobre o autor
Formado em Relações Públicas e Artes Plásticas e natural de Recife, André Neves vive atualmente em Porto Alegre. Escreve e ilustra livros infantis e trabalha como arte-educador e mediador de leitura nas inúmeras intervenções, oficinas e palestras que faz sobre suas obras. Tem mais de uma centena de livros no currículo, entre edições brasileiras, estrangeiras e participações em coletâneas internacionais. Para acompanhar sua obra em constante ativa, um bom caminho é acompanhar a página do autor no Facebook, onde ele faz questão de dividir o seu processo criativo com os seguidores.Todas as imagens que ilustram este texto são ilustrações em fase de desenvolvimento.
]]>
Por que falar sobre diversidade com as crianças?]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/07/28/Por-que-falar-sobre-diversidade-com-as-crian%C3%A7ashttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/07/28/Por-que-falar-sobre-diversidade-com-as-crian%C3%A7asThu, 28 Jul 2016 14:42:54 +0000
Como diria a poeta Wislawa Szymborska, “não há perguntas mais urgentes do que as perguntas ingênuas”. Afinal, a palavra “diversidade” carrega tanta importância que seja a ser ingênuo perguntar para que ela serve. Mas continuamos perguntando a mesma pergunta para chegar em respostas diferentes.
Quando a fiz à Ivana Jinkings, editora do selo infantil Boitatá, ela me respondeu como quem desenha no ar: “A criança olha para as coisas e acha que é isso, que o mundo está dado. Precisamos sair dos nossas bolhas protegidas. Outro dia, vi uma criança com uma boneca negra e pensei ‘é isso’”. Ivana fala sobre criação de referências, algo muito além da palavra diversidade, mas que se aplica quando o assunto é trabalhar o outro a partir da literatura, da arte, da experiência estética do mundo. Quer dizer, mesmo que aquela criança não tenha na sala nenhum colega negro, ela vai saber que o mundo não é branco. Vai entender que existe um outro que é diferente dela; que a diversidade tem cor, peso, sotaque.
É disso tudo que tratam os dois novos livros da Boitatá – braço infantil da editora Boitempo –, Monstro Rosa e Pássaro Amarelo, ambos da premiada escritora e ilustradora Olga de Dios, e que chegam neste mês de julho às livrarias depois do sucesso da coleção “Livros para o amanhã” (saiba mais aqui).
Um monstro rosa que não encontra o seu lugar em um mundo todo povoado de seres e coisas brancas. Um pássaro amarelo que não sabe voar. Quem nunca se sentiu como eles? Com uma peça a menos em um mundo que não perdoa a falta? Pela metade em uma sociedade feita só de pessoas inteiras?
Não é à toa que as duas obras chegam juntas ao mercado editorial. Como definiu a editora do selo, Thaisa Burani, “os dois livros terminam no mesmo lugar”. Os personagens se encontram em um lugar onde cada particularidade é usada a favor de quem a possui, como o bicho bolota, que podia chegar mais rápido porque rolava ao invés de andar, a rã de três olhos que podia olhar para todos os lados, e o monstro azul de braços compridos, que podia abraçar melhor todo mundo. Nesse sentido, Monstro Rosa e Pássaro Amarelo fazem lembrar o fantástico Os cinco esquisitos, da italiana Beatrice Alemagna, também leitura certeira para discutir diversidade.
Ao propor uma história sobre personagens desajustados e oprimidos em suas particularidades, os dois livros falam sobre como a construção do sujeito, hoje, está intimamente ligada à autoaceitação e ao desafio constante do padrão social de normalidade.
A literatura infantil, nesse contexto – se compreendida como linguagem artística e ferramenta de reaproximação com o real –, ajuda a criança a reconhecer o que é aparência e o que é valor; e, consequentemente, a construir referenciais próprios do que é bonito, bom, aceitável, normal. Afinal, por mais evidente que seja, é fácil esquecer: qualquer padrão é puramente construção social.
No livro Pink and Blue: Telling the Girls From the Boys in America (Rosa e Azul: diferenciando meninas de meninos nos EUA), a historiadora Jo B. Paoletti explica como e quando aconteceu a construção social da ideia de que rosa é cor de menina e azul de menino. “Somente durante a Primeira Guerra Mundial os tons pastéis começaram a ser usados para bebês – antes, optava-se simplesmente pelo branco. Além disso, naquela época, o rosa era a cor dos meninos, por ser ‘mais decidido e forte’, e que as meninas deviam vestir azul, ‘mais delicado e amável’”. Aqui, tem a reportagem completa sobre o assunto, no El País.
É desse tipo matéria que nos chega pronta, mas que temos a força de remodelar com as nossas próprias mãos, de que falam estes dois livros. Como define a própria editora, “Monstro Rosa é mais do que uma história sobre como as diferenças podem unir as pessoas, mas um verdadeiro grito de liberdade”. Liberdade para fora de um padrão que é da sociedade, e não do indivíduo. Liberdade para dentro de um padrão que é do outro, portanto, pode ou não ser diferente do quem estiver lendo. Se for, tanto melhor, pois desse contato nascem novas e mais possíveis formas de nos relacionarmos com o diferente.
Além disso, são livros que ensinam a olhar para um aparente empecilho como possibilidade para novas experiências. O Pássaro Amarelo, consciente de sua deficiência, investe em criar ele mesmo novas tecnologias de voo. Já o Monstro Rosa, que tão desengonçado não cabe em sua casa, resolve dormir abraçado com ela. Pequenas soluções que metaforizam a aceitação da diferença como parte natural do processo de aprendizagem de si mesmo.
Então, voltamos agora à pergunta ingênua – e por isso, urgente – do início deste texto: por que falar sobre diversidade com as crianças? Porque não há outra forma de experimentar o que é a própria realidade além do contato desmedido com os mais diferentes pontos de vista e jeitos de viver. Só há espírito crítico onde há conhecimento, e só há conhecimento onde há conhecimento.
]]>
7 livros para mostrar que uma menina pode ser o que ela quiser]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/07/16/7-livros-para-mostrar-que-uma-menina-pode-ser-o-que-ela-quiserhttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/07/16/7-livros-para-mostrar-que-uma-menina-pode-ser-o-que-ela-quiserSun, 17 Jul 2016 02:20:43 +0000
(ilustração: Violeta Lopiz)
Às vezes, é fácil cair em reduções fáceis do mundo, como quando dizemos folgadamente, na melhor das intenções, que “o mundo nunca foi tão diverso”. Frases que não dão conta da complexidade que é falar sobre diversidade. E quando o assunto é a diversidade daquilo que uma mulher pode ser e representar, fica ainda mais perigoso soltar afirmações como essa. A diversidade sempre existiu em abundância, a diferença é que agora é permitido vê-la. E a literatura é uma boa mediadora para exemplificar como essa permissão mudou de dimensão ao longo do tempo.
Se procurarmos na literatura adulta – apesar da grande quantidade de estereótipos rasos e equivocados –, encontramos com facilidade uma porção de protagonistas mulheres absolutamente seguras de seu papel; na literatura infantil, a situação é um pouco diferente: ainda que em menor número, as protagonistas estão ali, mas talvez ainda não nos tenham sido apresentadas, nem pela escola e nem pelo próprio interesse social, que, afinal, escolhe seus heróis e heroínas ao sabor do contexto histórico e social, não é mesmo? Daí a importância de dar luz a livros que se constroem plenamente em territórios pouco explorados, que duvidam desviam do universo quase sempre proibitivo dos adultos.
Por isso, o Garimpo separou alguns títulos para crianças, entre clássicos e contemporâneos recentes, que apresentam a figura da menina para além do universo previsivelmente cor-de-rosa. Obras que constroem suas personagens de uma forma realista, não adocicada, não docilizada e, principalmente, livre de categorizações. Livros para dizer a uma menina que ela pode ser o que ela quiser.
1. Reinações de Narizinho
Pinóquio, Peter Pan, Tom Sawyer: por que tantos clássicos infantis narram a vida de um personagem do sexo masculino? Quem seria o equivalente feminino? No Brasil, certamente, é Emília, de Monteiro Lobato, que aparece pela primeira vez em 1920, no livro “A menina do narizinho arrebitado”, e ganha corpo em 1931, quando foi publicado “Reinações de Narizinho”, continuação ampliada de seu precursor. Em uma época em que não eram bem-vindos nem os adultos questionadores (enquanto o Brasil era governado por Getúlio, o fascismo e nazismo ascendiam pelo mundo), dar voz a uma personagem criança, mulher e não humana, era triplamente transgressor. Monteiro Lobato faz com Emília mais do que inaugurar uma nova estética da literatura infantil, ele funda um novo jeito de ser menina.
A faladeira e atrevida boneca Emília eternizou referenciais fortíssimos de desobediência civil, liberdade e contravenção. Dizer isso já justificaria o tão sabido potencial de clássico revisitado dos livros em que aparece, mas já que aqui o assunto é o protagonismo feminino, nunca é demais revisitar também a personalidade inquieta de Emília, capaz de dizer coisas como “Verdade é uma espécie de mentira bem pregada, das que ninguém desconfia”; ou a consagrada definição da boneca do que é a vida: “Viver é isso. É um dorme e acorda (...) A vida da gente neste mundo, senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia.”
Engolir uma pílula falante do Doutor Caramujo já era fantasia demais para o ambiente moralizante, realístico e altamente escolarizado em que o livro infantil surgiu, mas a partir do momento em que a boneca Emília recebe mais visibilidade do que a própria Narizinho, que dá título do livro, algo se transforma para sempre no paradigma social de representação feminina. Afinal, a uma menina inventada que nem humana era, foi possível perguntar e perguntar de novo, se a resposta não fosse suficiente.
É curioso perceber que apensar de o Sítio do Picapau Amarelo ser minado dos personagens mais diversos, é Emília que Monteiro Lobato escolhe para dizer o que pensa. É com a voz dela que ele faz as suas reclamações sobre a sociedade. Para a crítica Laura Sandroni, no livro “De Lobato a Bojunga”, Emília é o alter-ego de Lobato. No artigo “Independência ou morte em Emília”, publicado na Revista Emília (não por acaso, batizada em sua homenagem), a jornalista Gabriela Romeu eleva a personalidade curiosa de Emília ao grau de reinvenção da realidade. “Desiludido do mundo dos adultos – “bichos sem graça” –, Lobato sonhava há algum tempo em fazer um livro onde as crianças pudessem morar. Criou o Sítio do Picapau Amarelo, um universo que mistura o real e o maravilhoso em uma só realidade literária. Para as crianças, acreditava o escritor, ‘um livro é todo um mundo’. No mundo de Lobato, a fantasia iluminou a realidade”.
2. Píppi Meialonga
A protagonista deste livro é uma espécie de Emília brasileira, mas é, na verdade, anterior a ela. A sueca Astrid Lindgren escreveu Píppi Långstrump (no Brasil, traduzido como Píppi Meialonga) em 1945, para presentear a filha de dez anos que estava doente.
Nada usual para a época em que foi criada a personagem, Píppi é uma garotinha de nove anos que não tem pai e nem mãe e que fala de si mesma sempre em tom altivo e seguro. “Sou uma achadeira. O mundo é cheio de coisas que estão esperando para serem encontrados”, ela diz.
Píppi vive somente na companhia de um cavalo e um macaquinho; cozinha sua própria comida, faz suas próprias roupas, bota policiais para correr, enfrenta meninos mais velhos e valentões, não dá ouvidos a nenhum conselho de adulto e fala o que dá na cabeça. Ousadia pura, mas não esvaziada de sentido, se pensarmos que o livro nasceu no período pós-guerra e contesta um histórico de tradição paternalista em um momento de fragilidade social e reconstrução de paradigmas. Segundo Emy Beseghi, Professora de Literatura Infantil da Faculdade de Ciências da Formação, da Universitá degli Studi di Bologna, “A escandalosa Píppi, a irredutível moleca, a irreverente, irônica e contestadora Píppi, é sempre atual. Um clássico ao qual se retorna continuamente”. Para ela, é um livro que “não conhece o desgaste do tempo”.
Sucesso editorial que foi, a historia de Píppi se tornou uma série de livros amplamente traduzidos, longa-metragem e animação. No Brasil, chegou pela Companhia das Letras em 2001, e já outras duas edições nos dois anos seguintes. Píppi representa a gênese de uma infância que considera meninas e meninos igualmente capazes, e foi um decisivo divisor de águas na história da representação da criança, oferecendo novíssimos e libertários referenciais do que é ser menina.
3. Luna Clara & Apollo 11
O nome de Adriana Falcão no território dos livros para crianças está quase que automaticamente ligado a Mania de Explicação, mas este Luna Clara & Apollo 11 é, pra mim, o seu grande feito. Tudo o que outro tem de lirismo e poesia, esse tem de ficção pura. É literatura das maiores: tem narrativa saborosa, personagens cativantes, um cenário onírico e diálogos deliciosos. Um texto que se sustenta sozinho, pega o leitor pela mão e não deixa que ele fuja do livro. E quem faz da história tudo isso é Luna Clara. “Os acontecimentos começaram a acontecer feito loucos na vida de Luna Clara, justo na vida dela, uma menina que tinha uma vida meio besta”.
Incluir uma história de ficção tão recente numa lista em que figuram exemplos do começo do século XX pode parecer algo fora de lugar. No entanto, para se convencer de que Luna Clara é uma heroína das maiores basta se deixar seduzir pelo texto que vai na orelha do livro, assinado por Ziraldo: “Adriana aqui reinventa não só a narrativa como a linguagem. Ela reinventa a maneira de contar uma história. E faz isso com mão de mestre.
Luna Clara tem 12 anos e é uma menina incomum cercada de pessoas e coisas incomuns. Seus parentes têm nomes como Aventura, Equinócio, Erudito, Odisseia da Paixão e Divina Comédia. Ela tem um avô que perdeu as histórias que colecionou a vida toda e um pai que carrega a chuva em cima da cabeça. No meio do caminho, ela descobre que o amor pode estar em alguém cuja maior vontade na vida é querer alguma coisa (sem spoilers!). Onde ela mora, os lugares têm nomes como Desatino do Sul e Desatino do Norte, e nenhuma lei ou regra do mundo de cá faz sentido lá, onde as festas podem durar para sempre.
E é nesse cenário de sonho e fantasia que acontece a desconstrução da imagem da menina indefesa e frágil – Luna Clara é forte, atinada e decidida. O mote do enredo é a busca da menina pelo pai, Doravante, que se perdeu de sua mãe por conta de um infortúnio do destino. “Luna Clara vive seus dias com um pai contado em vez de tido”. Mas, longe de resvalar em qualquer sentimentalismo ou retratar a fragilidade de uma criança sem pai, a narrativa se constrói ao sabor de grandes clássicos, como Pinóquio e Peter Pan, em que a criança amadurece, ganha corpo e sabedoria ao longo das aventuras do caminho – mas dessa vez, com uma menina no centro da história. E isso muda tudo. Um livro que prova que 327 páginas é, sim, tamanho de livro pra criança.
4. Matilda
Empoderamento infantil. É com este livro que o aclamado Road Dahl consegue elevar ao grau máximo o desejo de retratar a criança como um ser autônomo, completo e capaz. O livro recebeu inúmeras edições no Brasil e foi adaptado para o cinema em 1996: um clássico do imaginário infantil dos anos 90, repetido à exaustão nas sessões de cinema em casa. Mas, se à época, ninguém parava para pensar no inusitado de uma criança renegada pelos pais ter tanta autoconfiança, hoje, pensamos em Matilda quando queremos dizer a uma menina que vencer na contramão é possíve
A personagem é filha de pai e mãe que só valorizam o filho homem e não dão atenção para nada relacionado a ela. Proibida de ler e escrever, Matilda passa a frequentar a biblioteca para buscar o que lhe era negado. É lá que ela conhece C.S. Lewis, Tolkien, Burnett, e com eles descobre novas fechaduras por onde observar o mundo.
Como é comum nos livros de Road Dalh, em Matilda, os adultos são representados do modo como as crianças o vêem – quase sempre impacientes, sem trato com os pequenos e um tanto cegos e tolos. Nesse cenário, uma personagem como Matilda revoluciona a imagem da criança como um ser dependente do adulto: ela é astuta e superdotada em um mundo onde ninguém repara em suas habilidades. Símbolo da autossuficiência infantil, Matilda rejeita os planos que fazem para o seu futuro, e cria ela mesma seus próprios modos de estar no mundo.
5. Alice no país das maravilhas/Alice Através do Espelho
Falar de Alice para aficionados por literatura é quase redundância. Falar de Alice para quem gosta ou estuda literatura infantil, então, aí já é pleonasmo vicioso. Brincadeiras à parte, a questão é que a menina curiosa que segue um coelho branco para descobrir a fatia maravilhosa do mundo, hoje, funciona como metáfora para o desejo de transcender a realidade – afinal, já sabemos, ela não basta. Com Alice, aprendemos que podemos ir além do espelho e da realidade conhecida; podemos vasculhar o inconsciente, escolher os nossos próprios buracos onde vale a pena mergulhar, desafiar as nossas próprias rainhas vermelhas, desviar da normalidade com nossos próprios Chapeleiros Malucos.
Impressiona que um livro de 1865 (Alice Através do Espelho foi escrito seis anos antes do primeiro livro, Alice no País das Maravilhas). Mas não é por acaso que Alice é heroína. Quando a Rainha de Copas ordena que “Cortem-lhe a cabeça!” (quem não se lembra?), ela não recua, não precisa de ninguém para protegê-la, sua proteção é sua própria esperteza e habilidade de argumentação. É uma personagem que sabe escolher, tomar decisões: “Deveria saber em que direção está indo mesmo que não saiba o próprio nome!”, ela diz, em Alice Através do Espelho.
Um livro como esse nas mãos de uma criança é uma porta para as possibilidades. E aí, claro, não se pode escolher quais, o pacote vem inteiro, com os ônus e os bônus do confronto com a realidade. Como Alice, a criança talvez triplique de tamanho, nem que seja pelo caminho do contato com o âmago da condição humana.
6. Procurando firme – Ruth Rocha
Publicado pela primeira vez em 1984 (Nova Fronteira), Procurando Firme já foi editado outras duas vezes, em 1997 (Ática) e 2009 (Salamandra). Ruth Rocha conta, aqui, a história de uma princesa diferente das outras por um único motivo: ela não quer ser princesa. No lugar de ficar no castelo e esperar pelo príncipe, ela quer sair para conhecer o mundo.
Até mesmo seu nome, “Linda Flor”, faz parte da intenção da autora de ironizar a imagem da mulher delicada e dócil, ao mesmo tempo em que apresenta para o pequeno leitor um recorte do pensamento feminista. Todo composto na forma de um grande diálogo com quem está lendo e cheio de metalinguagem, o livro retoma a tradição oral dos contos de fada para questionar padrões diversos – da mulher, da família, do próprio conceito de cultura e intelectualidade. Um dos diálogos chama a atenção pela metalinguagem sutil e precisa com que Ruth Rocha caracteriza a maneira de se autodefinir de Linda Flor:
- Maviosa?
- É, maviosa, melodiosa. Eu sei que essa palavra não se usa mais, mas se eu não usar umas palavras bonitas, meio difíceis, vão ficar dizendo que eu não incentivo a cultura dos leitores.
Linda Flor é uma antiprincesa, questiona não só os porquês de corresponder à imagem que a sociedade faz de uma menina, mas também as referências européias normalmente associadas às princesas dos livros infantis. Em certo momento do livro, ela resolve adotar o visual africano, depois de conhecer a Africolândia.
7. Malala, a menina que queria ir para a escola
A protagonista deste livro é real, quase foi morta por querer ir à escola, mas por um misto de desobediência civil e resistência e uma porção considerável de sorte (em 2012, um atentado em seu ônibus escolar por pouco não tirou a sua vida), ela tem hoje 19 anos e continua na luta pela educação de meninas em seu país.
O livro, editado pela Companhia das Letrinhas em 2015 e escrito pela jornalista Adriana Carranca, é a versão infantil de Eu sou Malala, publicado um antes pela Companhia das Letras, e faz de função não didatizante de contar a história de uma pequena menina paquistanesa em um livro-reportagem documental. Parece ficção, mas é realidade latente, boa de se mostrar desde cedo para as crianças, afinal, trata-se de um livro não só sobre criança, para para a criança.
Malala nasceu no vale do Swat, no Paquistão, um lugar dominado pelo grupo extremista Talibã. Um lugar onde música e literatura são proibidos, onde o nascimento de um filho homem é festejado enquanto o de uma menina não é sequer anunciado, onde as mulheres não podem andar nas ruas e somente meninos podem frequentar a escola. Então, armada somente com seu discurso incisivo sobre a democratização do ensino, Malala resolveu encampar uma luta incansável pelo direito a uma educação de que seu país a privava.
Longe de questionar uma cultura onde somos nós o estrangeiro, o livro coloca a História (essa mesma, com letra maiúscula) em perspectiva para mostrar as possibilidades de transformação que o acesso à palavra ofereceu a uma menina. As ilustrações de Bruna Assis Brasil são parte fundamental dessa proposta, pois representam uma realidade da qual conhecemos muito pouco ou quase nada, acompanhadas de notas de rodapé que explicam para os pequenos leitores termos como “dupatta”, “shawl”, “burca” e “niqab”, diferentes nomes para a vestimenta que as mulheres de lá são obrigadas a usar.
Um livro para discutir não só a representatividade feminina, mas também para dimensionar a cultura, o livro, a palavra por si só. Em 2014, Malala foi a mais jovem ganhadora do Prêmio Nobel da Paz.
Quem gostou do tema e quer continuar buscando referências, aqui vão outras listas que também abordam a representatividade de meninas na literatura infantil e juvenil:
Portal Geledés
IstoÉ
Não Aguento Quando
Não Pule da Janela
]]>
Odilon Moraes e Maurício Meirelles: ao invés de afastar as crianças da realidade, podemos transformá-la em uma experiência artística]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/07/07/Odilon-Moraes-e-Mauricio-Meireles-ao-inv%C3%A9s-de-afastar-as-crian%C3%A7as-da-realidade-podemos-transform%C3%A1la-em-uma-experi%C3%AAncia-art%C3%ADsticahttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/07/07/Odilon-Moraes-e-Mauricio-Meireles-ao-inv%C3%A9s-de-afastar-as-crian%C3%A7as-da-realidade-podemos-transform%C3%A1la-em-uma-experi%C3%AAncia-art%C3%ADsticaThu, 07 Jul 2016 12:59:07 +0000
Uma festa de cultura não pode estar descolada da realidade. Este parecia ser o lema da conversa entre os autores Odilon Moraes e Maurício Meirelles durante a Flipinha no último sábado (2), em Paraty. Reunidos na Flip para falar de seu livro juntos, Birigui (lançado agora em junho pela editora mineira Miguilim), os dois foram direto para a matéria-prima de que foi feita a história: o confronto com a realidade. Afinal, quanto de realidade podemos mostrar em um livro infantil? Por que existir um fator limitante à arte de representar o real?
Birigui, escrito por Maurício e ilustrado por Odilon, fala sobre um menino que sai com o pai para uma caçada pela primeira vez. Minado de metáforas sutis, o livro ajuda a entender a crueldade a partir do ponto de vista de uma criança. Seria classificado por muitos como um livro “difícil”, por falar de morte, violência, enfrentamento. Mas a razão de ser do encontro entre os autores foi justamente discutir por que consideramos uma história mais fácil do que a outra quando vamos apresentá-la a uma criança. Que critérios escolhemos - consciente ou inconscientemente - escolhemos para classificar o grau de periculosidade de uma história?Birigui é, na verdade, uma tentativa de, como explicou Mauricio, “devolver a violência do mundo”. Para ele, os livros são como “uma ferramenta de reaproximação com o real”, que vivemos tentando ignorar.
Questionar qual é (e se há) uma função para o livro infantil, tanto dentro da escola quanto no ambiente familiar e de lazer, é falar justamente do poder de representação que é próprio da ficção, e que interessa não só a professores, escritores e mediadores de leitura, mas ao ser humano.
Exemplo disso é que um dos momentos mais emocionantes da conversa foi quando Odilon exemplificou o que estava dizendo com uma experiência de leitura do seu filho, João. Ele conta que, quando o menino puxou o livro O Matador (de Wander Piroli e Odilon Moraes, editora Cosac Naify) da estante para ler pela primeira vez, correu para ele e perguntou:
- Pai, foi você que desenhou essa história?
- Foi.
- Não acredito que você fez isso.
E correu para o quarto, chorando.
A fábula quase suspense do passarinho morto a tiros feriu a emoção de João, e pode ferir também a das outras crianças que lerão o livro. Mas vem daí uma reflexão maior, que Odilon aprofundou durante a conversa. “Devemos proteger as crianças de uma realidade que elas vão encontrar mais cedo ou mais tarde? Fico pensando que é mais importante nós, escritores, equacionarmos essa realidade do que fingir que ela não existe. A escrita é uma coisa inventada para a gente dizer tudo”.
Depois, para apaziguar a plateia, ele conta que bastou um diálogo franco entre pai e filho sobre o livro para o pequeno entender os porquês de aquela história existir. “Perguntei a ele: ‘você percebeu que o menino só atirou para provar que tinha pontaria? Ele queria ser aceito. Depois desse dia, ele nunca mais falou sobre o livro, mas tenho certeza que é uma história que ele nunca mais esquecer’”, conta.
Ou seja, a narrativa ganhou com essa experiência novas dobras de interpretação, estendendo o imaginário da criança para questões como aceitação, pressão social, padrões de conduta, contexto socioeducativo do personagem, etc; universos muito ricos para desenvolver um conceito completo de realidade.
Ao tocar nesse ponto, Odilon defende uma espécie de “curadoria da violência”, que pode ser passada para a criança por meio dos livros, de uma peça de teatro, de uma música. Para ele, a arte é que possibilita experenciar a realidade do mundo de uma forma mais lírica. “A literatura antecipa experiências, ou pelo menos propõe um senso estético do que é real. É como aquela frase que diz que ‘o homem suporta apenas pequenas doses de realidade’. Os livros oferecem essas pequenas doses.", explica o autor.
Para Maurício, os livros considerados tabus assustam mais do que deveriam. “A gente se preocupa tanto se o livro vai ser violento, mas a violência chega para a criança de tantas formas. A televisão, por exemplo, é cheia dela”, pontua o autor. Além disso, ele diz que uma obra literária e seus personagens podem transmitir para a criança noções de empatia e compaixão que só o contato com o outro pode proporcionar. “Eu não escrevi o livro (Birigui) pensando que seria uma história infantojuvenil. Mas, lá pela terceira página, por estar escrevendo em primeira pessoa a partir da experiência de um menino, eu percebi que poderia funcionar. Mais do que isso, que só assim poderia funcionar. A coisa toda da empatia com os animais e o ambiente só poderia ser construída a partir do ponto de vista de uma criança.”
Quando o vazio conta uma história
Os autores falaram também sobre como, em um livro infantil, o que não está dito (e muitas vezes, também não está nem desenhado) também ajuda a contar a história.
Por inusitado que pareça, os dois têm formação em Arquitetura, e compartilharam da mesma metáfora para comparar a arquitetura das coisas e a do livro. “Arquitetura não está na construção de duas paredes, mas no espaço entre elas. Em um livro, é a mesma coisa: as paredes são as páginas, e a história está no espaço entre elas. Ou seja, o autor constrói onde ele não intervém”, explica Odilon, como se erguesse um manifesto pela ideia de que o livro é de quem lê.
Quando o assunto é livro ilustrado, é preciso considerar também a materialidade da imagem na narrativa. Quando o texto deixa de dizer alguma coisa, muitas vezes passa essa função para o desenho, mas nem sempre. Às vezes, os dois se constroem pelo silêncio, pelo não dito. “A gente está acostumado a achar que o vazio não é nada, mas ele sempre é alguma coisa. Num livro ilustrado, existe uma construção do espaço entre uma página e outra, e ela é feita por dois vazios diferentes: um é constitutivo da imagem, e o outro é constitutivo da própria história”.
A conversa culminou, se não numa conclusão, ao menos na defesa de uma literatura infantil menos minada por inseguranças e mais por intenções de reaproximação com a verdadeira essência do mundo e das coisas. Afinal, para repetir o próprio Odilon, “A escrita é uma coisa inventada pra gente poder dizer tudo. Às vezes, tanto as palavras quanto as imagens servem também pra gente esconder coisas; e com o que você esconde, você mostra”.
]]>
Patricia Auerbach e Aline Abreu: manifesto pelos espaços em branco na vida e na literatura infantil]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/07/06/Patricia-Auerbach-e-Aline-Abreu-manifesto-pelos-espa%C3%A7os-em-branco-na-vida-e-na-literatura-infantilhttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/07/06/Patricia-Auerbach-e-Aline-Abreu-manifesto-pelos-espa%C3%A7os-em-branco-na-vida-e-na-literatura-infantilWed, 06 Jul 2016 14:28:43 +0000
O nome da mesa era “Diálogos: texto e imagem”. Tanta coisa cabe nesse diálogo, não é? Às vezes, um fala mais do que outro; assim, quem está do lado de cá – o leitor – pode ouvir mais. E o livro acontece. Porque literatura é acontecimento, se não é outra coisa.
As autoras Patricia Auerbach e Aline Abreu conversaram com os pequenos e grandinhos da plateia da Flipinha na última sexta sexta (01) sobre o que pode acontecer durante esse tal diálogo. Acabaram tocando em questões urgentes não só do livro, mas da sociedade: a importância do silêncio, o excesso de informações a que submetemos as crianças, o valor do tempo ocioso, entre outras. Sorte de quem estava lá para ouvir. Aqui, tento puxar pela memória o que de mais potente foi dito por lá.
Em busca dos pontos comuns entre as obras das duas autoras, a mediadora e também escritora Anna Claudia Ramos – curadora da Flipinha 2016 –, foi procurar na infância delas a possível explicação para fazerem o que fazem. “Quando eu era criança, brincava com tatu bola, mexia na trilha das formigas, e, quando eu tô escrevendo, isso volta com muita força. Lembro que, enquanto meus primos ficavam correndo lá fora, eu preferia ficar dentro de casa, do lado da minha bisavó, ouvindo as histórias dela. Pensando agora (porque quando alguém pergunta a gente é obrigado a pensar), acho que vem daí meu gosto pelas histórias”, contou a ilustradora e escritora Aline Abreu. E então, como quem diz algo muito simples, sem mirar na poesia mas acertando em cheio, ela continua: “Eu gosto das coisas que não existem mais”.
Aí está uma definição muito possível se alguém nos pergunta o que é literatura, afinal, o que é a ficção senão as coisas que não existem mais, ou que não poderiam existir nunca, não fossem as histórias?
Autora de mais de dezenas de livros, Aline escreveu e ilustrou o delicado Menina amarrotada (editora Jujuba, 2014), que inventa um novo adjetivo para definir o sentimento de uma menina que é obrigada a lidar com a perda.
Na mesma toada, Patricia Auerbach contou sobre o nascimento do belíssimo Coisas de gente grande (Cosac Naify, 2015) com um lirismo incalculado. “Este livro é minha tentativa de dizer o que é a infância" - conta, lembrando que a ideia para escrevê-lo surgiu durante uma aula do curso de Pedagogia, quando uma professora perguntou “O que é casa?”, e a autora se viu obrigada a refletir sobre como elaboramos as definições de cada coisa. Para quem não conhece, o livro é construído por páginas duplas, em que cada palavra é colocada em contraponto com a sua representação no imaginário da criança; “a palavra conta o universo do adulto, e o desenho o que passa na cabeça da criança”, simplifica a autora. Aqui, alguns exemplos.
O manifesto pelos espaços em branco – tanto no livro quanto na vida – foi uma constante durante a conversa. "Quando chego em escolas, sempre escuto duas coisas dos professores; ou dizem que adoram meus livros porque não tem texto e tão fácil de entender, ou que adoram meus livros mas que são difíceis de ler para os alunos porque só tem imagem. Quer dizer, a ausência da palavra é mais uma falta com a qual não sabemos lidar”, contou Patricia, sobre o retorno dos educadores em relação à mediação dos seus livros.
Outra questão fundamental a se pensar nesse sentido é o excesso de informações a que estamos submetidos na sociedade pós-moderna, o que faz com que não sobre espaço para o entendimento, as sensações, o encantamento. “A vida já está tão preenchida, as coisas já chegam muito prontas pra gente. Mas precisamos ensinar as crianças que o vazio é possível, sabe? É dele que surgem as coisas. Além disso, se a gente só alfabetizar para a palavra, a criança não vai dar conta de decodificar o mundo, que é muito visual”, defendeu Patricia.
Já para Aline, os vazios que aparecem na literatura infantil são uma espécie de devir. "O espaço em branco é como uma tela onde podemos projetar as coisas”, explica. A autora falou também sobre o papel do artista nesse contexto todo. “A Clarisse Abujamra diz que ‘ser artista no Brasil não é escolha, é diagnóstico’. E é muito isso, porque se a gente não faz, enlouquece. A imagem dentro desses livros é literatura, e deve ser lida como literatura. A gente fica sonhando que isso que a gente faz vai melhorar o mundo de alguma forma". Créditos das fotos: Mariana Vergara
]]>
Angela-Lago e Lázaro Ramos: por uma literatura sem funções didatizantes #flipinha2016]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/07/05/AngelaLago-e-L%C3%A1zaro-Ramos-por-uma-literatura-sem-fun%C3%A7%C3%B5es-didatizantes-flipinha2016https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/07/05/AngelaLago-e-L%C3%A1zaro-Ramos-por-uma-literatura-sem-fun%C3%A7%C3%B5es-didatizantes-flipinha2016Tue, 05 Jul 2016 13:55:38 +0000
“Como a menina Angela olhava o mundo?”, essa foi uma das primeiras perguntas que a mediadora da mesa “Caderno de segredos”, Verônica Lessa, fez para a Angela-Lago na última quinta-feira, na Flipinha. E a resposta foi maior (literal e poeticamente) do que todos poderiam esperar:
“Não era permitido ficar à toa lá em casa. Então, eu me deitava na rede, abria um livro, e ficava horas lá com ele, fingindo que estava fazendo alguma coisa. Até que em algum momento eu cansei de ficar vagando e comecei a ler uma palavra, depois outra, e outra... foi assim que começou. O livro era o lugar onde valia a pena entrar.”
E aquela frase ressoou: “O livro era o lugar onde valia a pena entrar”. A plateia aplaudiu como quem descobre um segredo com ares de verdade universal e, se a mesa terminasse ali, já teria sua razão de existir. Mas ainda havia muito para acontecer ali.
Lázaro Ramos era o convidado ao seu lado, e contou sobre seus livros coisas que quase ninguém imagina quando pensamos em sua trajetória como ator. “Eu acho que comecei a escrever porque tinha uma casa com quintal. Foi ali que eu comecei a observar o mundo. Hoje, as histórias que eu escrevo sempre surgem de um tema muito bem definido sobre o qual eu preciso falar naquele momento, quase sempre são causas sociais”, contou. Seu primeiro livro, “A velha sentada” (editora Uirapuru, 2010), discute indiretamente a relação da criança com a tecnologia, a partir da história da menina Edith, que não faz nada o dia inteiro e só tem olhos para o computador. “Uma criança é uma pessoa que tem um quintal na cabeça”, complementa o a(u)tor, defendendo o valor da imaginação e de reparar nas coisas miúdas.
Quando perguntaram à Angela sobre o tão falado “papel” do livro para a infância, se a literatura infantil deve ter uma função didatizante e educativa, ela respondeu como quem faz um manifesto pela cidadania. "Antes de falar nisso, gosto de pensar que somos cidadãos, e que todo cidadão ensina. Todo livro abre portas, mesmo que seja só a do encantamento estético. E esse encantamento é uma janelona para o mundo. Saio de um livro, se não maior, ao menos mais maravilhada”, e complementa ressaltando a ação de um livro no sentido de incentivar a empatia e a representatividade de si mesmo e do outro. “O livro é o que me possibilita encontrar com o outro tão diferente de mim, e me relacionar profundamente com ele. O livro é o outro que eu não sou".
“O livro é o outro que eu não sou”. É preciso repetir para internalizar tudo o que pode ser essa afirmação. Mais uma frase de Angela-Lago que ressoa pelo auditório, lotado de crianças (em sua maioria do ensino público de Paraty) e professores de todos os cantos do país. Muitos aplausos, assovios entusiasmados. Uma mulher levanta a mão, quer fazer um comentário. “Eu vim de Salvador, viajei dois dias para chegar aqui, e agora posso dizer a vocês que valeu cada quilômetro”. Dessa vez, o tempo do encontro tinha mesmo acabado. Já os valores de vida segredados ali, esses continuam. Por tempo infinitivo. Crédito das fotos: André Conti
]]>
Precisamos falar sobre a arrogância no mundo dos livros: o perigo do “fundamentalismo leitor”]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/06/29/Precisamos-falar-sobre-a-arrog%C3%A2ncia-no-mundo-dos-livros-o-perigo-do-%E2%80%9Cfundamentalismo-leitor%E2%80%9Dhttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/06/29/Precisamos-falar-sobre-a-arrog%C3%A2ncia-no-mundo-dos-livros-o-perigo-do-%E2%80%9Cfundamentalismo-leitor%E2%80%9DWed, 29 Jun 2016 16:52:25 +0000
Das muitas publicações que colocam a literatura e o ato de ler em perspectiva, tomei contato recentemente com um que me chamou muito a atenção. O ensaísta espanhol Victor Moreno, no livro La manía de leer (editora Caballo de Troya, 2009), fala sobre o perigo do “fundamentalismo leitor”. Mas o que é isso? Como qualquer idealismo conservador, ele parte de um extremismo e de uma falsa ideia de dominação dos leitores sobre os não leitores. O “fundamentalismo leitor”, para ele, é toda ação que caricaturiza e deslegitima aquele que não lê, ao mesmo tempo em que veste o leitor com a mais perigosa das máscaras sociais: a da superioridade. Como se ler fosse movimento obrigatório, esvazia a leitura de sua principal característica: o prazer puro, individual, particular. Considerando a importância de incentivar nas crianças os reais valores em torno do que é um livro, e para que(m) ele serve, este é um assunto de urgência para educadores, professores, escritores e mediadores de leitura.
A teoria de Victor me interessou porque considero uma questão importante de se pensar, principalmente quando percebemos que grande parte das ações de incentivo à leitura está imbuída (ainda que inocentemente) de algumas dessas noções equivocadas do que é a leitura. Dizer que ler torna uma pessoa melhor é elitismo dos mais perversos, e, no entanto, fazemos isso a todo momento sem nem darmos conta.
“Acesso” é a palavra-chave desse engano, afinal, a verdadeira causa a ser defendida é o direito de contato com o livro, a partir do qual a pessoa pode decidir se o exerce ou não. Como diria o pesquisador Luiz Percival de Britto no livro O Revés do Avesso (editora Pulo do Gato, 2015), “poder ler é um direito. Ler é exercê-lo”. Ou seja, a única e verdadeira arbitrariedade é a exclusão, que priva possíveis leitores de sequer poder experimentar um livro.
Em lugares de não acesso, livro é privilégio, daí a arrogância desmedida que é qualificar alguém por sua relação ou não-relação com a leitura. Além do mais, é só pensar na quantidade de pessoas medíocres que conhecemos que têm uma vasta biblioteca em casa. Ou pensar em pessoas de saberes impressionantes que nem sequer sabem ler. Ler e ser não têm relação entre si, ainda que nos façam acreditar nisso na escola, na aula de língua portuguesa, no ambiente escolarizante em que tomamos contato com a palavra escrita.
Por isso é que nós mesmos acreditamos na falsa superioridade do letramento, e com naturalidade assombrosa. A armadilha é fácil, quase sempre colorida, então caímos e caímos de novo. No entanto, devíamos saber que a leitura é só mais um dos tantos buracos de fechadura que encontramos ao longo da vida: nos oferecem olhar o mundo de outro jeito, e podemos aceitar ou não, sem que na segunda opção esteja implícito nenhum tipo de escolha por uma vida menor. Afinal, um livro não pode com uma pessoa mais do que um abraço: ou toca, ou não toca. Leitura é acontecimento.
Victor diz em seu livro que a leitura nada mais é do que uma espécie de caixa de ferramentas, “que podem e devem contribuir para melhorar o ambiente em que os indivíduos e a sociedade tecem suas tarefas”. A promessa da leitura não é fazer alguém melhor, mas sim exercitar o poder da escolha, a possibilidade de multiplicar o olhar, o vislumbre de uma capacidade a mais, entre tantas. Ou não. Afinal, o mundo dos livros é tão orgânico e maravilhosamente mutante como qualquer outro mundo.
]]>
Trocando em miúdos: Catarina Sobral]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/06/24/Trocando-em-mi%C3%BAdos-Catarina-Sobralhttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/06/24/Trocando-em-mi%C3%BAdos-Catarina-SobralFri, 24 Jun 2016 13:54:14 +0000
“Dá para imaginar um mundo sem ponto final nem de interrogação, sem relógio de ponto nem ponto de encontro, sem ponto de costura, sem ponto de vista, sem ponto de referência?” Pois esse mundo existe e saíram da cabeça de uma das artistas do livro para crianças mais interessantes da atualidade, Catarina Sobral. Se você estiver andando por uma livraria e esbarrar no nome dela, repare bem: são mundos inventados para mãozinhas miúdas de imaginação sem tamanho. Suas palavras e desenhos têm sempre um caminho delicado de chegar num lugar mais interessante de observar o mundo. Desconstruir, mais do explicar.
Dizer que ela foi considerada “A maior ilustradora de livros infantis com menos de 35 anos” é dizer pouco. Mas não dizer é ignorar a importância de sua obra no cenário do livro para a infância no contexto das publicações europeias. Desde 2012, quando ganhou Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração de 2011 na Feira do Livro Infantil de Bolonha, ela é considerada um dos grandes talentos da sua geração, com requintes de dizer tanto pela palavra quando pelo desenho. Sobre o seu livro O meu avô, Roger Mello, Sophie van ver Linden e Pablo Nuñez, júri da Feira em 2014, disseram existir ali “um domínio claro da composição, uma grande maturidade e uma forte identidade”.
Catarina é ilustradora e designer de comunicação, o que são duas formas diferentes de dizer que ela decifra o mundo com a arte – ora do texto, ora da imagem. Natural de Coimbra, atualmente, ela vive e trabalha em Lisboa.
No Brasil, ela publicou o belíssimo livro ilustrado Greve - o primeiro escrito e ilustrado por ela - e Achimpa, ambos editados pela WMF Martins Fontes em 2013 e 2014, respectivamente. Greve conta a história de sinais de pontuação e linhas que resolvem bolar um plano para mostrar ao mundo o seu valor. A autora propõe assim uma série de jogos em torno da palavra "ponto" e das expressões que derivam dela, e constrói um mundo sem pontos de vista, nem pontos de referência, tampouco pontos de fuga.
Já Achimpa fala sobre uma palavra que salta do dicionário sem ninguém a conhecer, e de boca em boca vai ganhando novo significado. Como a própria Catarina disse em entrevista à Revista Emília, “a palavra 'achimpa' é como um objeto que vai mudando de dono”. O que vem daí é toda uma conversa indireta sobre como percebemos a palavra, tantas incorporando-a em nosso dia a dia sem parar para pensar no que ela realmente diz. E entendemos a partir disso como às vezes as pessoas fingem perceber a palavra, fingem saber de que se trata.
Juntos, os dois livros compõem o ainda pequeno (mas já imenso) catálogo de obras que propõem sempre um olhar inviesado e muitas vezes irônico para a realidade, um jeito de interpretar o modo de viver de seu país, os anacronismos e incoerências que podem passar despercebidos por simples assimilação cultural.
São intenções que não perdem o sentido quando mudam de endereço, pois os livros de Catarina são todos feitos de pesquisas visuais notáveis e de uma vontade de retratar os traços atemporais da humanidade. O pesquisador português "António Franco Alexandre diz que essas suas obras "colocam a palavra centro do seu desabrochamento conceitual", e isso é tão preciso que eu não ousaria dizer nada além.
Nesta entrevista-brincadeira, Catarina revela um pouco do modo de pensar de sua criança interior.
1. Por que às vezes o desenho tem um tamanho e o texto tem outro?
Porque contam coisas diferentes. Às vezes a história precisa de texto visual, outras vezes precisa de palavras, outras vezes precisa de silêncio.
2. Pra que serve uma cor? E a imaginação?
Para dar a luz certa a uma ideia.
Para nos salvar da realidade.
3. Você já trombou com uma história no meio da rua?
Várias! A rua está cheia delas, a maioria passeia-se por aí disfarçada de pessoas.
4. Uma história nasce na barriga ou na cabeça?
As minhas nascem na ponta dos lápis.
5. Dos mundos que não existem, qual é o seu favorito?
Gosto de tantos que vou escolher um dos mundos que eu inventei: aquele em que os pontos e as linhas decidem delinear uma estratégia política e por um ponto final aos problemas de classe. Que é como o nome diz, decidem fazer Greve.
6. Como consertar uma história que não funciona?
As histórias não funcionam por três motivos: ou há um problema no motor da história, ou no andamento, ou na travagem.
7. É mais fácil ganhar de um monstro ou de um medo?
Se o monstro for real é um medo.
8. Qual a diferença entre as palavras fáceis e as difíceis?
As fáceis vemos todos os dias. As difíceis só aparecem nalguns jantares (com convite).
9. Por que os adultos às vezes querem esconder algumas na estante mais alta?
Porque são palavras sem vergonha nenhuma e gostam de passear nuas pelas estantes.
10. Se os livros tivessem perna, pra onde eles iriam?
Para as nossas mesas de cabeceira, para as nossas mochilas, para o jardim ou para a praia onde estamos. Seguir-nos-iam para onde quer que fôssemos.
Para conhecer melhor o trabalho da Catarina, visite o site da ilustradora - vai ser um passeio para os olhos!www.catarinasobral.com
]]>
Um ano inteiro: um livro para falar sobre empatia, atenção e cuidado]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/06/09/Um-ano-inteiro-um-livro-para-estimular-as-crian%C3%A7as-a-reparar-na-naturezahttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/06/09/Um-ano-inteiro-um-livro-para-estimular-as-crian%C3%A7as-a-reparar-na-naturezaWed, 15 Jun 2016 13:24:07 +0000
Se você é uma criança que quer investigar qual o melhor mês para observar os rouxinóis, este livro é pra você. Se você é um adulto que gostaria de lembrar de olhar para o céu, este livro é pra você. Se você não pratica nenhum desses exercícios de estar no mundo, aí sim: este livro é pra você!
Um ano inteiro, lançamento da editora portuguesa especializada em livros infantis Planeta Tangerina, se propõe a ser uma agenda semanal para explorar a natureza. Mas, mais do que isso, oferece a oportunidade de refletir sobre o tempo que dedicamos a conhecer a realidade que nos rodeia. E, sabemos, ele é cada vez menor.
Prova disso é que, se nos perguntam aleatoriamente qual é a cor do chão da nossa sala, escritório ou sala de aula, provavelmente a resposta não viria tão fácil. Com frequência, só reparamos no chão onde pisamos se ele estiver molhado ou sujo. E quantas vezes deixamos passar os detalhes mais bonitos de um dia?
As crianças de hoje nascem em um ambiente com cada vez mais estímulos e informações, recursos que ajudam a chegar a algum lugar, mas esquecem de ensinar a aproveitar o caminho.
Quanto aos adultos, muitos só reparam na sopa se o prato estiver quebrado. Este livro propõe uma interrupção dessa lógica, tira o ser humano do centro das importâncias e concentra o olhar onde tudo está em constante transformação: o mundo natural.
O livro divide os meses do ano em cores e reúne sobre cada um as curiosidades mais inusitadas e sugestões de passeios, expedições e observações para fazer com as crianças. Com ele, ficamos sabendo o que é solstício, quando é que as andorinhas dormem, onde nascem os rios, como observar borboletas.
O texto de abertura se disfarça de prefácio para ser um verdadeiro tratado sobre a atenção:
“Pouco interessa se falamos de aves, peixes, borboletas, anfíbios, flores ou pessoas. A mudança faz parte da nossa natureza. (...) E nós? Refugiados em nossas tocas, nem sempre nos apercebemos do que está a acontecer. Os dias de chuva incomodam-nos, o frio estraga-nos os planos, os dias curtos não chegam para tudo o que queremos viver. Acontece com frequência de nós nos lembrarmos da natureza – e só sentirmos necessidade de nos aproximarmos dela – quando as temperaturas sobem e celebramos a chegada da primavera.”
Ao dizer que estamos acostumados a festejar só os dias abertos, floridos e ensolarados, o livro faz uma metáfora potente sobre a urgência de inaugurar um novo olhar sobre o mundo. Afinal, para chegar ao sentido profundo das coisas, é preciso antes conhecer a superfície. E nada melhor do que ensinar as crianças desde cedo a ter curiosidade sobre como cada coisa chegou até ali. Como quando sugere “apanha conchas e aprende seus nomes”.
O ano inteiro ainda não tem previsão de chegada no Brasil, mas no site da Planeta Tangerina é possível conhecer e baixar o conteúdo do livro. E, principalmente, ter ideias de como espalhar essas atividades com as crianças. No livro, depois de cada mês, há uma página em branco para a criança preencher com suas próprias descobertas e percepções.
Por ser um livro português, a brincadeira segue a lógica das estações europeias, mas ainda assim funciona por aqui em sua intenção de estimular o espírito garimpeiro de quem não se contenta em passar pelas coisas e não reparar nos seus detalhes.
E se engana quem pensar que preocupações assim são de natureza menor ou assuntos da autoajuda. A negligência do ser humano com as realidades mais próximas é um pensamento complexo que fez parte da literatura de muitos autores enormes, como Julio Cortazar, Eduardo Galeano, Ítalo Calvino, David Foster Wallace. O poeta alemão Ludwig Tieck, por exemplo, dizia que “deveríamos fazer do comum algo extraordinário e então nos surpreenderíamos descobrindo que está muitas vezes perto de nós a fonte de prazer que buscamos em algum lugar distante e difícil”. Quem já leu Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo, do David Foster Wallace, pode se lembrar também daquele ensaio que se tornou um clássico do autor, “Isto é água?”, em que ele conta a história de um peixe que não sabe o que é água. Mas aí já é assunto para outros garimpos.
Por fim, o crítico Miguel Esteves Cardoso disse sobre esse livro algo que, se não define tudo o que ele é (porque é impossível!), ao menos dá uma boa pista: “Acontece muito raramente, mas há livros para crianças que é preciso comprar duas vezes”. Um livro que dá vontade de ter e depois ter de novo só para poder dar a alguém.
]]>
Trocando em miúdos: Isadora Ferraz]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/06/09/Trocando-em-mi%C3%BAdos-Isadora-Ferrazhttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/06/09/Trocando-em-mi%C3%BAdos-Isadora-FerrazThu, 09 Jun 2016 15:26:58 +0000
– Você é menino ou menina?
– O que vocês acham que eu sou?
– Menino!
– Por quê?
– Por causa da roupa e do cabelo curto.
– Será?
– Não! É menina, por causa do tênis...
– Mas meninos não usam tênis também?
– É menina, por causa da blusinha com flores.
– É menino, por causa da blusa em v.
– Será que faz muita diferença se sou menino ou menina? A cena aí de cima aconteceu com uma artista visual e um grupo de pequenos. Importa pouco aqui saber quem era criança e quem não era. O que interessa é que os rótulos deixam de ter um papel quando a ideia é ficar sendo enquanto se descobre. Menino, menina, livro, arte, artesão, artista: tudo é processo. Tudo habita o mesmo lugar de criação e tem a única função de existir como é. Com o desejo de misturar todo esse pensamento num lugar só, Isadora faz minilivros que são universos inteiros, enormes. Livros que são também objetos de arte, de brincar. Livros tão pequenos que talvez você tenha que procurá-los com lupa.
Quando você encontrar, talvez tudo cresça - a palavra, o desenho, a criança. Cabe muita coisa encolhida dentro desses pequenos objetos. Sorte de quem for do tamanho de tudo isso.
Sem se importar se o que faz é para a criança que mora no adulto ou a criança que mora na imaginação, ela faz projetos que colocam o fazer do livro no meio do caminho entre o trabalho do artesão e do artista. São projetos feitos totalmente à mão, e trabalham com a materialidade do objeto como possibilidade de estender a narrativa. Em outras palavras, livros que abrem para cima, para o lado, em formato sanfonado, com dobras e amarrações que dizem muito.
Sua primeira criação, intitulada Micro Projeto de Afetos, nasceu dentro de uma caixinha de fósforos.
No último mês de maio, ela lançou em seu Atelier Feito em Casa, a página que administra no Facebook, o seu primeiro livro infantil, Outono/maio - mão de nuvem.
E enquanto você lê esse texto, ela prepara para breve o próximo livro, Dicionário para dias chuvosos, inspirado em Julio Cortazar.
Enquanto isso, uma espiadinha para ver de onde nascem caraminholas tão pequenas, mas tão grandes. O "Trocando em miúdos" de hoje bate um papo com o eu lírico miúdo da ilustradora e escritora paulistana Isadora Ferraz.
Por que às vezes o desenho tem um tamanho e o texto tem outro?
O texto e o desenho gostam de conversar. Às vezes o desenho tem mais o que dizer e o texto menos, mas um complementa o outro, deve ser por isso.
Pra que serve uma cor? E a imaginação?
A cor é que nem coração pulsando.
A imaginação faz levar longe e às vezes “longe” pode ser bem pertinho.
Você já trombou com uma história no meio da rua?
Já. Outro dia vi a Nossa Senhora sendo carregada em um carro de bombeiro, poderia virar uma história, mas algumas não viram.
Uma história nasce na barriga ou na cabeça?
Nasce pelo corpo inteiro, sem dúvida alguma!
Dos mundos que não existem, qual é o seu favorito?
Aqueles que nascem das minhas gavetas, particularmente aqueles que ficam guardados na minha caixa de costura, lá é um mundo de surpresas!
Como consertar uma história que não funciona?
É só olhar ela por outro ângulo.
É mais fácil ganhar de um monstro ou de um medo?
Os dois são a mesma coisa. O monstro é a forma que você dá para o medo.
Qual a diferença entre as palavras fáceis e as difíceis?
A diferença está na forma como usamos elas.
Por que os adultos às vezes querem esconder algumas na estante mais alta?
Para esquecer um pouquinho...
Se os livros tivessem perna, pra onde eles iriam?
Iriam pra pertinho da gente, livro não gosta de ficar sozinho, não, é carente!
Isadora Ferraz (1987) é artista visual e arte educadora, graduada em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Participou da exposição coletiva VERSO, curadoria de Edith Derdyk (SESC Pinheiros, 2013) e realizou sua primeira exposição individual, intitulada Desobjeto, dentro do projeto "espaço arte mídia" (SESC Campinas, 2012). Participou de cursos e frequentou ateliês de artistas, dentre eles Antonio Albuquerque, Alex Cerveny, Dudi Maia Rosa, Edith Derdyk, Fernando Vilela, Janaina Tokitaka, Helena Freddi, Paulo Penna, Odillon Moraes e Ulysses de Paula. Frequentadora do espaço independente Atelier Piratininga como residente artística e criadora do Atelier Feito em Casa, entende que o artista visual dialoga com as tantas linguagens que circundam o fazer, e com isto segue criando trabalhos que mesclam o trabalho do artesão e o do artista visual, e que possibilitam ali uma conversa com a educação e com a ideia de autogestão.
]]>
A infância segundo Guimarães Rosa, Machado de Assis, Mário de Andrade]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/06/06/Sem-t%C3%ADtulohttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/06/06/Sem-t%C3%ADtuloMon, 06 Jun 2016 15:18:04 +0000
O nome deste espaço tem a palavra garimpo no meio. E é disso que se trata: escavar, escavar, até encontrar muitas vezes o que sempre esteve ali, na superfície. Na literatura infantojuvenil, é frequente nos deixarmos limitar pelos grandes cânones, os tais clássicos irrefutáveis, insuperáveis, inquestionáveis e outros tantos adjetivos pomposos.
Mas os grandes livrões da infância são muitas vezes tão indiscutivelmente bons que podemos julgar conhecê-los por completo sem nunca ter verdadeiramente bebido na fonte ou visitado as obras nos pedestais onde eles foram colocados, essa espécie de "cume olímpico", como define a crítica literária argentina Cecilia Bajour no livro "Ouvir nas entrelinhas - O valor da escuta nas práticas de leitura" (livro delicioso publicado pela Pulo do Gato!). Estamos cercados de livros assim, "títulos dos quais muitas vezes só conhecemos a casca, sem nunca termos fincado os dentes em sua polpa". E o mesmo acontece com os autores, os grandes, os de sempre.
Eu andava com caraminholas dessa natureza na cabeça quando conheci, em um sebo discreto no meio do centro de São Paulo, um livro que jogou uma nova luz sobre essa questão: a importância de conhecer o conhecido.
O nome do volume que saltou na minha frente - amarelo, pequenino e singelo como sua proposta - é "A palavra é...criança", da editora Scipione, publicado em 1988. Dentro dele, uma reunião de contos de Machado de Assis, Lima Barreto, Mário de Andrade, Guimarães Rosa. Nada de muito extraordinário até aí, só mais uma entre tantas antologias temáticas (fazem parte desta série títulos sobre a palavra mistério, festa, amor). Mas só um conjunto sobre a criança me chamaria tanto a atenção. Afinal, por baixo do verniz das trajetórias consolidadas desses escritores, está o pensamento crítico de cada um em relação à infância, a "polpa" a que a Cecilia se referia.
O que pensavam sobre ser criança? Escritores que conhecemos aparentemente tão bem de seus territórios seguro, de lá dos livros adultos, teriam tanto assim a revelar? As narrativas reunidas são, de certa maneira, cíclicas: o sofrimento vivido pelas pequenas ocasiões da infância, como cortar os cachos castanhos ou vivenciar a morte, retornam mais tarde na vida adulta com outras formas de ser. É o homem que vai se formando a partir de perdas sucessivas, “no infinito dos sofrimentos humanos”.
A escolha dos textos foi feita por Ricardo Ramos, neto de Graciliano Ramos. O resultado é uma cartografia da infância alinhavada por palavras certeiras, que sempre dizem mais do que parecem estar dizendo. Tem Machado de Assis narrando o primeiro contato de um menino com a morte; Domingos Pellegrini refletindo sobre o que sobram das lembranças de nossos primeiros anos; Mário de Andrade alongando os horizontes de seus próprios minisofrimentos de garoto para narrar o trauma do menino que é obrigado a cortar seus cachos com o estímulo de que iria se tornar um homem. Mas afinal, uma criança de três anos não quer ser um homem, quer ser menino.
Todos os textos têm em comum o fato de contarem a infância de outros tempos, crianças que tinham medo dos pais, dos castigos, de abrir a boca para perguntar ou a cabeça para imaginar. Narrativas que foram diluídas no tempo e na bibliografia dos seus autores.
Contar mais do que isso é estragar a descoberta, mas o que dá para dizer é o óbvio: não foram estes os textos que tornaram famosos os escritores aqui reunidos. Talvez fosse literatura pequena demais, ou talvez o nosso olhar de leitor é que esteve treinado para apreciar os assuntos maiores, mais importantes. Aqui embaixo, alguns achados deste pequeno achado.
Machado de Assis - Umas férias
"Tão longe estava eu daquilo que, apesar de tudo, não entendera nada a princípio; a tristeza e o silêncio das pessoas que rodeavam a cama ajudaram a explicar que meu pai morrera deveras. Não se tratava de um dia santo, com sua folga e recreio; não era festa, não eram as horas breves ou longas, para a gente desfiar em casa, arredada dos castigos da escola. Que essa queda de um sonho tão bonito fizesse crescer a minha dor de filho não é coisa que possa afirmar ou negar; melhor é calar. (...) Nem por isso, os meninos do colégio deixavam de vir espiar para dentro da minha memória."
Guimarães Rosa - As margens da alegria
"Assim um crescer e desconter-se - certo como o ato de respirar - o de fugir para o espaço em branco. O Menino. (...)
"Todas as coisas, surgidas do opaco. Sustentava-se delas sua incessante alegria, sob espécie sonhosa, bebida, em novos aumentos de amor. E em sua memória ficavam, no perfeito puro, castelos já armados. Tudo, para a seu tempo ser dadamente descoberto, fizera-se primeiro estranho e desconhecido."
Domingos Pellegrini Jr. - Domingo
"O pai estava olhando e ele nadou, nadou e parou pra descansar, os pés desceram na água fria e se debateu, perdeu fôlego e logo estava afundando e debatendo, os pés já na água gelada - mas bracejou pra cima, saiu, viu o pai distraído olhando pra outro lado. Então estava sozinho! Bracejou mais, enfiando a cabeça na água até o corpo nivelar, e voltou nadando, nem acreditou quando trombou com o pai. Era a primeira vez que afogava, e a primeira vez que se salvava, sozinho. Mas o pai nem tinha percebido."
"O pai garante que toda coisa gostosa é assim mesmo: a gente sempre quer que a primeira vez seja a última, até a próxima vez."
Mário de Andrade - Tempo da camisolinha
"Guardo esta fotografia porque se ela não me perdoa do que tenho sido, ao menos me explica. Dou a impressão de uma monstruosidade insubordinada. Meu irmão, com seus oito anos, é uma criança integral, olhar vazio de experiência, rosto rechonchudo e lisinho, sem caráter fixo, sem malícia, a própria imagem da infância."
"Eu brincava por ali tudo, mas a solidão do homem me preocupava, quase me doía, e eu rabeava umas olhadelas para a banda dele, desejoso de consolar. Fui chegando com ar de quem não quer e perguntei o que ele tinha. O operário primeiro deu de ombros, português, bruto, bárbaro, longe de consentir na carícia da minha pergunta infantil. Mas estava com uns olhos tão tristes, o bigode caía tanto, desolado, que insisti no meu carinho e perguntei mais outra vez o que ele tinha:
- Má sorte - ele resmungou, mais a si mesmo que a mim."
“A feiúra dos cabelos cortados me fez mal. Não sei que noção prematura de sordidez dos nossos atos, ou exatamente, da vida, me veio nessa experiência da minha primeira infância. O que não pude esquecer, e é minha recordação mais antiga, foi, dentre as brincadeiras que faziam comigo para me desemburrar da tristeza em que ficara por me terem cortado os cabelos, alguém, não sei mais quem, uma voz masculina falando: “Você ficou um homem, assim!” Ora eu tinha três anos, fui tomado de pavor. Veio um medo lancinante de já ter ficado homem naquele tamanhinho, um medo medonho.”
]]>
Trocando em miúdos: José Carlos Lollo]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/05/31/Trocando-em-mi%C3%BAdos-Jos%C3%A9-Carlos-Lollo-1https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/05/31/Trocando-em-mi%C3%BAdos-Jos%C3%A9-Carlos-Lollo-1Tue, 31 May 2016 17:20:03 +0000
Ele já lançou mais de 30 livros. É ilustrador premiado internacionalmente e publicado por algumas das editoras mais interessantes do Brasil. Em julho, ele será um dos convidados da Festa Literária Internacional de Paraty, para a Flipinha. Já desenhou as palavras de escritores como Ana Maria Machado e Manoel de Barros. Mas nada disso é mais importante do que conhecer a criança que mora dentro da sua cabeça e se disfarça de adulto para conseguir fazer tudo isso.
Depois da mini entrevista de inauguração com a Janaina Tokitaka (clique aquipara ler), o Trocando em Miúdos de hoje foi garimpar nas caraminholas coloridas do ilustrador José Carlos Lollo, autor de Isto é Meu, A Raiva, O Coiso Estranho, entre tantos outros.
A brincadeira fez cócegas nas mãos e daí nasceram alguns desenhos inéditos que ele compartilha com o Garimpo. É ou não é para voltar a ser criança?
Passeie alguns minutos pelas palavras e traços do Lollo e leve a imaginação para dar umas voltas por aí.
Garimpo Miúdo - Por que às vezes o desenho tem um tamanho e o texto tem outro?
José Carlos Lollo - Paralelepípedo é sempre maior escrito que desenhado. Mas não dá pra desenhar uma mata com quatro sinais que nem a palavra. Eu gosto de desenhar insetos do tamanho de passarinhos com muitos risquinhos, mas planetas eu faço com pontos e bolinhas.
Pensei agora. O desenho é a ideia descabelada. A palavra é a presilha da ideia.
Pra que serve uma cor? E a imaginação?
A cor serve pra pintar um urubu de azul e a imaginação serve pra mesma coisa.
Você já trombou com uma história no meio da rua?
Eu trombo, tropeço, escorrego em história todos os dias.
Às vezes ela cai em mim. E nem pede desculpas.
Uma história nasce na barriga ou na cabeça?
Nasce na cabeça, vai pra mão e a mão coça a barriga.
Dos mundos que não existem, qual é o seu favorito?
Mundos com espada. Se tiver algum monstro pra derrotar também é bom, nada de monstro amiguinho da garotada, monstro bom é monstro monstro.
Como consertar uma história que não funciona?
Me ensina que eu tenho um monte de história na oficina.
É mais fácil ganhar de um monstro ou de um medo?
Pois é, ganhar do medo é mais fácil, mas ganhar do monstro é mais legal.
Qual a diferença entre as palavras fáceis e as difíceis?
Nego peremptoriamente que exista tal diferença.
Por que os adultos às vezes querem esconder algumas palavras na estante mais alta?
Às vezes é de propósito. Quando uma criança acha um livro de uma estante alta ela cresce um pouco. É meio triste, mas é bonito.
Se os livros tivessem perna, pra onde eles iriam?
Para o circo, lógico! VENHAM VER OS FANTÁSTICOS LIVROS COM PERNAS!
Para conhecer melhor o que vai dentro da cabeça desse artista cheio de ideias fantásticas, nada melhor do que visitar o Circo Blandollo. Olha só a descrição da trupe:
Blandina Franco escreve histórias para crianças e equilibra bordados em linhas coloridas.
José Carlos Lollo ilustra livros com canetas amestradas e doma animais de massinha.
Os dois acham tão divertido o trabalho deles que resolveram fundar juntos o Circo Blandollo, um maravilhoso circo que, por enquanto existe só para criar histórias para crianças, mas que no futuro irá criar outras coisas também, por que eles, assim como todo mundo que trabalha em circo, gostam de viver aventuras e de ficar inventando coisa e de comer macarrão e de coçar a barriga de cachorros.
Eles garantem que, futuramente, irão contratar um palhaço para os dias tristes e um engolidor de fogo para os dias frios.
Vai lá: www.circoblandollo.com.br
]]>
Ernesto: uma ode à empatia e à diferença]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/05/23/Ernesto-uma-ode-%C3%A0-empatia-e-%C3%A0-diferen%C3%A7a-1https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/05/23/Ernesto-uma-ode-%C3%A0-empatia-e-%C3%A0-diferen%C3%A7a-1Mon, 23 May 2016 22:31:34 +0000
Sabe aquele poema do Fernando Pessoa que diz “Nunca conheci quem tivesse levado porrada / Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”? Talvez você se lembre dele quando conhecer o Ernesto. Mas quem é Ernesto? Ele é você, sou eu, somos todos um pouco por dia. E é também o novo livro da amada dupla Blandina Franco e & José Carlos Lollo, ou Blandollo, como eles chamam. Nos últimos cinco anos, eles produziram juntos – ela escrevendo e ele desenhando – mais de 30 livros, como A Raiva, Este não é um livro de princesas, e O Coiso Estranho.
Ernesto acabou de sair pela Companhia das Letrinhas, e é impossível não querer falar dele.
Ernesto é livro de um personagem só. Nas primeiras e poucas palavras da história, o leitor fica sabendo que ele é feio, bobo, só usa roupas velhas, não sabe agradar ninguém. Ou melhor, fica sabendo que é isso o que as outras pessoas dizem que ele é. E isso muda tudo.
As descrições de como Ernesto se comporta, se veste e fala vão isolando o personagem até que a história toma um rumo horripilante (sem spoilers!). De repente, a história acaba. E o livro provoca: "ué, não gostou de como essa história termina? E segue com o trecho que melhor resume a sua razão de existir: “mas às vezes é assim que algumas histórias acabam". Depois, cutuca ainda mais fundo: “Tem gente que pensa que quando acabam assim, não é culpa de ninguém”.
Com muito bom humor e um tantinho refinado de ironia, o livro não didatiza o assunto do bullying, da diferença e da exclusão, mas sim materializa o preconceito em uma história de fácil identificação, que emociona e chacoalha nossas visões de mundo. Afinal, se não conhecemos tantos Ernestos assim, alguém nos esconde deles - a sociedade que nos cobra perfeição, a mídia que reverencia determinados tipos sociais, ou os próprios Ernestos, que não se sentem encorajados a exibir seus fracassos. Algo de muito errado existe se não conseguimos nomear a exclusão que sentimos quando algo não sai como o planejado em nossa forma de ser e agir, e este livro é sobre isso.
Uma história que não deixa ninguém de fora, afinal, se o leitor não for o próprio Ernesto, ao menos ele vai ser provocado a se colocar na pele do outro. Para a pesquisadora de literatura infantil Fanny Abramovich, "em uma história, pode-se descobrir outros lugares, outros tempos, outros jeitos de agir e de ser, outras regras, outra ética, outra ótica” (do livro Literatura infantil: gostosuras e bobices). É dessa “outra ótica” que Ernesto é feito.
As tais “outras pessoas” que o livro não mostra podem ser uma sala de aula, um grupo de amigos, um bairro inteiro, uma sociedade toda. Afinal, de quantos Ernestos somos feitos? O julgamento ao diferente habita as nossas relações mesmo que nos consideremos pessoas progressistas, bem resolvidas, esclarecidas. E as crianças também precisam receber ferramentas para pensar sobre isso desde sempre.
Ao tornar protagonista um personagem desajustado, o livro faz um olho no olho com as crianças sobre solidão, isolamento social e, principalmente, respeito. Esta é uma narrativa não convencional que faz pensar em quantas vezes adotamos padrões de comportamento social que reprimem ou excluem o diferente, e coloca o leitor na posição de assumir culpas necessárias de que vivemos tentando nos esquivar.
Talvez por faltarem em nossas trajetórias leitoras e de vida mais exemplos de Ernestos é que tantas vezes nos falte energia para subverter o estereótipo do que é ser bem-sucedido, bonito, agradável e aceito. Por isso, nada mais saudável do que ensinar uma criança a questionar referenciais impostos.
Lembrando mais uma vez do poema do Pessoa, chegamos mais perto do que sofrem os Ernestos apenas por serem quem são: “Toda a gente que eu conheço e que fala comigo nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho”.
O Garimpo foi conversar com a Blandina sobre esta e outras histórias, e acabou descobrindo a existência de uma gaveta de ideias transbordantes. Veja só!
Garimpo Miúdo - Uma vez, e estava em uma livraria e um pai, todo feliz, veio até mim sem nem me conhecer com um livro seu nas mãos. Era “Isso é meu!”. Ele disse “Você tem que conhecer esse aqui. Lá em casa foi a salvação, meu filho nunca se entendeu melhor com o irmão!”. Lembrei disso hoje e imaginei como deve ser para o escritor, essa responsabilidade de “servir para” alguma coisa, educar, explicar. O que você pensa sobre esse potencial didatizante da literatura infantil?
Blandina Franco - Acho uma delicia. É muito legal quando as crianças tiram alguma coisa das histórias para a vida delas e também quando os pais percebem isso acontecendo. Acho que é mais ou menos isso que queremos quando contamos uma história, que alguém, em algum lugar, divida essa história com a gente, mesmo a gente não estando lá pra ver isso acontecer. Uma história bem contada é uma boa maneira de passar alguns valores e ajudar a resolver problemas que as crianças nem sabem que têm, mas tenho que confessar que nunca escrevo pensando em passar essa ou aquela lição. Toda história tem várias mensagens dentro delas, algumas mais claras e outras que são só “divirta-se com a história”. Mas sempre, em todas elas, o que eu mais quero ver acontecer é a criança se divertir com aquilo e assim transformar o livro em uma brincadeira divertida que irá ajudar a criança a gostar de ler. Porque acredito que a leitura é muito importante na vida de todo mundo e se a criança aprender a gostar de ler em pequena, mesmo que seja apenas se divertindo, isso já é uma maravilha
A questão da mediação é algo que você considera na hora de compor uma história? Ou seja, se a criança vai conseguir chegar sozinha ao lugar que o livro propõe. O que você acha sobre o papel do mediador?
Acho o mediador quase tão importante quanto o autor na literatura infantil. Um bom mediador pode fazer a criança amar a história e um não muito preparado pode contar a história de maneira descompassada e a criança odiar. Então, sempre conto com o mediador quando penso na história, mas de uma maneira um tanto quanto maluca, imagino sempre que o mediador é alguém exatamente igual a mim e que a história será contada exatamente como estou imaginando. Acho que essa é a única maneira que posso imaginar isso. Sei que nas nossas histórias existem algumas coisas, principalmente palavras que as crianças não conhecem. Sei disso porque fico pesquisando sinônimos no dicionário para colorir os textos. Mas imagino que o mediador conheça a palavra ou, caso não conheça, que irá procurar no dicionário seu significado e gostar de fazer isso ou até mesmo de apresentar o dicionário para a criança, transformando a leitura em uma brincadeira.
O tema principal de “Ernesto” é a atenção para o diferente. Para compor o livro, você pesquisou outros títulos afins? Qual o significado pra você de falar sobre diversidade com os pequenos?
A história do Ernesto, como quase todas as histórias que contamos, nasceu quase que já pronta. Os livros do Circo Blandollo geralmente nascem de situações que presenciamos ou de como imaginamos que as crianças agem diante de certas situações.
A história do Ernesto nasceu da falta que a gente sentiu de encontrar livros que falassem sobre bullying com as crianças sem serem professorais. Comecei a imaginar o quanto dizer para uma criança o que o outro sente realmente afeta essa criança. Comecei a pensar se não seria mais eficiente fazer com que o leitor se colocasse no lugar da pessoa que está passando pela situação desagradável, queria procurar uma maneira de criar algum tipo de empatia entre o leitor e o protagonista da história, e deixando o Ernesto ter um final triste seria uma boa maneira de dizer que nem sempre o final é legal. Que às vezes as pessoas ficam tristes com o que falamos deles. A vida deles continua e pode continuar triste.
Ernesto tem um desfecho que surpreende quem está habituado a histórias felizes. A literatura infantil tem esse papel, de acostumar a criança a controlar expectativas?
A literatura infantil tem o papel de ajudar as crianças a lidarem com certas coisas que elas não entendem bem, entender coisas que elas sentem e não sabem muito bem o que são. Além de divertir, lógico. Acho complicado definir um papel para qualquer literatura. Ela serve para controlar expectativas, para abrir o leque de expectativas, para só divertir, para passar mensagens que a gente nem sabe que existe na história, para levar crianças presas a outros continente, abrir portas e criar estradas. A literatura é diversão, remédio, saída e, se o livro for chato, chateação.
Uma narrativa não tradicional como essa requer que tipos de cuidado de quem escreve?
Qualquer narrativa requer o mesmo tipo de cuidado: fazer sentido e ser verdadeira e honesta. Narrativas não tradicionais são um risco. Às vezes dão certo.
O que te atrai mais na hora de definir um assunto, a ausência dele na literatura ou o excesso mal trabalhado? Por exemplo, livros sobre diversidade parecem ser o assunto do momento, mas a qualidade não é a mesma em todos eles, alguns parecem se importar só em aproveitar o momento.
Eu não me preocupo muito em definir um assunto. Geralmente, as histórias pulam na nossa frente e quando isso acontece a gente tem que escrevê-la. Na maioria das vezes, o único cuidado que é preciso ter é pesquisar um pouco pra ver se essa ideia que você acabou de ter já foi contada por alguém antes de você.
Outras vezes, um assunto é tão repisado em algum momento que o cuidado é o de escrever uma anti-história para aquele assunto, como foi o caso do livro “Esse não é um livro de princesas” que a gente editou numa época em que víamos nas livrarias uma quantidade absurda de livros ensinando as meninas a serem princesas e isso me pareceu uma coisa muito boba. Se todas as meninas podiam ser princesa qual seria a graça de ser uma? E por que ser uma princesa? Será mesmo que ser uma princesa era melhor?
Quais obras você citaria como revolucionárias no sentido de colocar a criança em contato com um mundo contrário ao dela?
Eu acredito que se a criança não tem contato com aquele mundo da história, ela não vai dizer nada para ela. Para a história ser revolucionária, ela precisa ter algum ponto de contato com o mundo que a criança conhece. O que existe são temas difíceis, como depressão, que Shaun Tan tratou em um livro maravilhoso chamado “A árvore vermelha”, ou o alcoolismo no maravilhoso “ O coração e a Garrafa” de Oliver Jeffers e algumas questões sociais do lindo “Os invisíveis”, de Tino Freitas e Renato Moriconi.
Você descobriu que queria escrever livros para crianças quando tinha mais de 40 anos e, para nossa sorte, nunca mais parou. O que te levou a essa descoberta?
Fiz um curso de contação de histórias com minha irmã e nesse curso nós tínhamos que encapar um caderno com um tecido igual ao de algum pijama que usávamos quando éramos crianças. O meu caderno ficou lindo, encapado com uma flanela de florzinhas. Nesse caderno a gente tinha que escrever as histórias que mais gostávamos e eu ao invés de pesquisar histórias, comecei a escrever as minhas. Minha irmã leu (metida!), gostou e mandou pra um gramático que me aconselhou a editar. Então editei. E quando encontrei o Lollo para ser meu parceiro, não parei mais. Costumo dizer que roubo no jogo, já que escrevo as histórias que eu invento e as que ele inventa também.
A parceria Blandina & Lollo produziu nos últimos cinco anos mais de trinta livros. O que há ainda por explorar? Fico pensando se os autores têm uma gaveta de ideias “tabus”. Há algum assunto que você evite por não saber ainda a melhor forma de dizer?
A gente tem uma gaveta de ideias que ainda não deu tempo de finalizar, mas nenhuma delas é tabu, tem livro sobre a morte, sobre gente chata, sobre guerra. A gente só não teve tempo ainda de mastigar bem o texto e ilustrar. As ideias, infelizmente, costumam ser mais rápidas do que a minha capacidade de escrever e a do Lollo de desenhar. Então temos sim uma gaveta transbordando de ideias, mas elas não estão presas lá porque são algum tipo de tabu, mas sim por falta de tempo para se dedicar só aos livros. Se dependesse só dessa gaveta, poderíamos ter mais de 30 livros nos próximos 5 anos.
Quem quiser garimpar mais o trabalho de Blandina & Lollo, clique aquie conheça o Circo Blandollo.
]]>
Como falar sobre morte com criatividade, leveza e naturalidade?]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/05/16/Como-falar-sobre-morte-com-criatividade-leveza-e-naturalidadehttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/05/16/Como-falar-sobre-morte-com-criatividade-leveza-e-naturalidadeMon, 16 May 2016 20:53:07 +0000
Pode morrer uma ideia, uma certeza, uma pessoa. Nos começos e nos finais de tudo, tem morte. E cada recomeço está repleto dos vestígios daquilo que passou. A morte é ciclo. É ao mesmo tempo da vida, do susto, do mistério. Natural, inevitável, tabu, susto, vendaval. A morte é o que não conseguimos dizer. Que coisa estranha é esta. Está em tudo, e mesmo assim fugimos dela todos os dias. Nas conversas, nas histórias, na escolha de um assunto para escrever.
As crianças não entendem e os adultos ignoram, e nesse movimento amedrontado, crescemos traumatizados antes mesmo de vivenciar o trauma. Por isso é que livros que falam sobre isso são como clareiras no meio de uma floresta fechada. Livros infantis, ainda mais. Precisamos abrir essas clareiras para falar da vida.
A literatura pode ajudar não só como recurso terapêutico para elaborar uma perda, mas principalmente para educar os pequenos num momento anterior, antes de se tornarem adultos cheios de medo de pensar. Com a cautela de um garimpeiro só e considerando as mais diferentes abordagens e formatos, aqui vão algumas dicas de como falar sobre morte com as crianças, com os adultos, com todo mundo.
1. Para onde vamos quando desaparecemos?
Certeza, certeza absoluta, ninguém tem sobre a questão "para onde vamos quando desaparecemos?". Mas seja como for, se algum dia você ficar em dúvida se é possível falar de morte com poesia e brincadeira, a resposta é este livro. Desses que você quer ter, e depois ter de novo, só para poder dar a alguém.
Se desaparecemos sem ninguém dar conta,
não chegamos a desaparecer.
Porque, para alguma coisa desaparecer,
é preciso que alguém a tenha visto primeiro
e dado pela sua falta depois.
Para que alguma coisa desapareça
são precisos sempre dois.
(Um que fica e um que desaparece)
Escrito por Isabel Minhós com ilustrações de Bernardo P. Carvalho, o livro joga cor e luz sobre um tema tão castigado pela sombra do desconhecido. Publicado originalmente pela editora Planeta Tangerina, de Portugal, o livro chegou ao Brasil em 2015 pelas mãos da Tordesilhinhas (Editora Alaúde).
A ideia aqui é a de um narrador imaginário que faz perguntas sobre todas as coisas. Por exemplo, o porquê de nossas meias desaparecem tão misteriosamente, ou pra onde vai a areia da praia varrida pelo vento e o barulho quando tudo silencia. Afinal, quando já não estivermos aqui, quem vai cuidar das nossas coisas? Dúvidas muito possíveis do ponto de vista de quem ainda está elaborando a complexidade do mundo.
Quem conhece Isabel de seus outros livros (Enquanto meu cabelo crescia, Lá em casa somos, Coração de mãe e outros), vai reconhecê-la de pronto nesta história, cheias de tentativas bem-sucedidas de tirar o peso das coisas. Inclassificável do ponto de vista de classificação etária ou gênero, este livro parece saber perfeitamente na definição do crítico português Luís Almeida Eça: “Um livro que ajuda a crescer”.
2. O urso e o gato-montês
- Sabe passarinho – o urso disse -, você não acha curioso que todas as manhãs sejam “esta manhã”? Foi assim ontem e anteontem. E amanhã teremos outra manhã e novamente depois de amanhã... E todas elas certamente serão “esta manhã”. Estaremos sempre “nesta manhã”. Sempre juntos. Não é?
É com esse arroubo de lirismo que começa o livro O urso e o gato-montês (Brinque Book, 2012). Um urso que reflete sobre a aparente monotonia da vida e de repente: PUM! Perde o melhor amigo. Então, ele entende que algumas manhãs nascem diferentes antes mesmo de começar.
Dos japoneses Kazumi Yumoto e Komako Sakai, a história aqui é muito maior do que as palavras que a contam. A narrativa cheia de poesia é quase um ninar, e vai embalando o leitor num movimento de elaboração do luto: o urso não se contenta com as palavras de apoio que recebe dos outros, ele tem seu tempo de entender o acontecido e é só quando esse tempo chega que a história parece se justificar.
Um livro-presente para uma criança que perdeu alguém? Sim. Mas, muito mais do que isso, um livro para ensinar os pequenos desde sempre que cada manhã é sim diferente da outra, mas todas são iguais em uma coisa: são inevitáveis.
3. Quando abro os olhos (editora MOV Palavras)
A escritora lituana Agné Bruziene perdeu suas duas avós em menos de dois meses. Para reagir contra a dor, ela compôs essa história (Agné escreve e ilustra o livro). Por sua referência a um acontecimento real, ainda latente na vida pessoal de quem conta, Quando abro os olhos (MOV Palavras, 2015) valoriza a importância de transformar o livro infantil em um espaço de reconhecimento e identificação: um lugar onde a criança possa elaborar sentimentos que ainda não conseguiu entender, como o medo de abrir os olhos e encontrar à frente um dia carregado de sensações ruins.
"Foi um desses livros que me puxou para a estante, eu não podia mais ficar sem ele. Foi um dos primeiros livros que compramos. Gosto do modo como Agne enfrenta a depressão: olha fundo nos olhos dela e é transparente ao nos falar disso. Suas imagens são fortes e até duras. Você sente a dor dela e o esforço para entender o que se passava, com palavras afiadas, sempre no lugar certo”, conta a editora Dani Gutfreund, da MOV Palavras, que trouxe o livro para o Brasil no ano passado.
4. O pato, a tulipa e a morte
O autor Wolf Erlbruch faz neste livro uma espécie de fábula sobre a morte. Na história, o Pato é o escolhido para ser levado da vida. Em uma narrativa naturalista e singela, a Morte chega para buscá-lo e o encontra cheio de dúvidas e questões pessoais. O Pato não quer ir embora. Não demora para que dois se tornem amigos, e compartilham experiências que só alguém muito vivo pode conhecer.
“Vai ser assim quando eu estiver morto”, pensou o pato. “O lago, sozinho. Sem mim.” Às vezes, a morte podia ler pensamentos. - Quando você estiver morto, o lago também não vai estar mais lá – pelo menos não para você.
É dessa amizade incomum que O Pato, a morte e a tulipa (Cosac Naify, 2009)parte para sugerir ao leitor a mesma perguntas do livro da Isabel Minhós: afinal, para onde vamos?
O fluir das coisas leva a história para um lugar absurdo, que é o lugar da ficção. O autor rompe com os estereótipos esperados de cada personagem, e faz a Morte se distrair com a vida. Já o Pato ensina sua nova amiga a viver, mergulhar no lago, escalar as árvores. “Por pouco a morte não ficou triste. Mas assim era a vida”. Quem quiser, dá para saber muito sobre o livro por esta vídeo adaptação.
5. Íris – Uma despedida
Este talvez seja o título da lista que menos faz concessões em relação a como dizer o que diz. Em Íris (Pulo do Gato, 2013), da escritora alemã Gudrun Mebs, a morte chega com uma certa secura indispensável, como certos acontecimentos da vida que nos atingem com a força de um furacão. A morte, às vezes, é esse furacão. E é preciso pelo menos não ignorá-lo para sobreviver a ele.
Se as imagens do livro são puro lirismo e simbologia (as belas ilustrações abaixo são da espanhola Beatriz Martín Vidal), a linguagem aqui é mais incisiva.
Apesar de não se tratar propriamente de um livro ilustrado, as imagens aqui guardam a delicadeza de que o texto desvia: Íris está doente e quem vivencia a iminência da perda é sua irmã mais nova. A doença é metaforizada por flores de pétalas azuis que vão brotando do corpo da menina e pouco a pouco se apropriando dela. A morte, em Íris, é mais um movimento em torno da vida, e vai viravolteando através das percepções da menina: a cama vazia, o silêncio dos pais, a melancolia do avó. E só para o leitor não ficar sem consolo depois de tanta realidade, o livro presenteia quem vai até o fim com as palavras do grande Bartolomeu Campos de Queirós:
Ah!, o eterno é o sempre.
Não tem nós de nascimentos
ou embaraços de mortes.
E o pensamento, este
é terreno demais para
decifrar intenso mistério.
6. Meu amigo pintor
O encontro de um menino de 11 anos com um velho artista só poderia resultar em uma troca maravilhosa, cada um aprendendo com o outro o que a vida pode ser. Aprender a desenhar um coração entristecido, ou como as cores podem dar pistas sobre o que sentimos. Mas acontece que nem o menino e nem o artista (e às vezes fica difícil saber quem é quem) sabia que o desfecho seria o que foi. Do desencontro em diante, o menino aprende a lidar com os seus porquês. “Pra mim, morte também é coisa vermelha, coisa difícil de entender. Mas se ela vem feito ela vem pra tanta gente todo dia, aí fica mais fácil um pouco de sacar (...) Acho que é por isso que eu olho tanto pro vermelho que ele pintou aqui no álbum. Pra ver se eu entendo.”
Meu amigo pintor, escrito por Lygia Bojunga com inspiração em seu irmão Cláudio, é narrado em primeira pessoa, em forma de diário de criança, e não é a toa. Este é um livro para descobrir a cada virar de página, pegar na mão do menino Claudio, e desvendar junto com ele o desconhecido, ajudá-lo a atravessar o escuro. “De repente comecei a me sentir todo escuro por dentro. Tão escuro que não dava pra enxergar mais nada dentro de mim”. Como acontece sempre na vida, quem sabe no caminho o leitor encontra uma clareira?
7. No oco da avelã
Já pensou viver em um mundo onde seja possível agarrar a morte pela mão e impedi-la de fazer seu trabalho? O menino Paul cria esse mundo para impedir que a mãe vá embora, e prende a Morte dentro de uma casca de avelã. De repente todos param de morrer. Nem os pescadores conseguem peixes, nem as pessoas conseguem comida: as plantas não se desgrudam da terra e os ovos não podem mais ser quebrados. Na tentativa de parar a morte, o menino parou a vida!
É aí que Paul entende que as coisas são feitas de contrários. A dupla vida-morte é um desses pares: um não se movimenta sem o outro. Parece tão óbvio quando alguém conta, não é mesmo? Mas o leitor acompanha Paul em sua lenta descoberta dessa verdade até que as coisas ganham mais sentido. Escrito pela autora francesa Muriel Mingau, No oco da avelã (Edições SM) é cheio de poesia do texto às imagens. As ilustrações de Carmen Segovia Moreno (acima), parecem saltar das páginas.
8. Ismália
Se para muita gente escrever sobre a morte já é literatura das mais cabeludas, falar de suicídio poderia ser uma tarefa impossível. Não fosse por este livro, Ismália, de Odilon Moraes (Cosac Naify, 1ª edição 2ª edição 2014). A história começa, e o leitor sente que já sabe onde vai dar. E sabe mesmo. Odilon faz neste livro um reconto gráfico do famoso poema simbolista de Alphonsus de Guimaraens, com aquarelas cheias de lirismo. Um conteúdo que a criança pode até estudar na escola, na disciplina de Língua Portuguesa, mas que fica sempre no âmbito do movimento literário a que pertence, da métrica, da superfície do texto. Mas afinal, o poema fala de quê? Uma mulher louca que se lança ao mar. Como falar disso? Por que falar disso?
Como diria a Clarissa Pinkola, não falar de assuntos difíceis com as crianças é deixá-las desprotegidas. "Toda criança deve receber o mapa e o treinamento para penetrar as florestas claras e sombrias do mundo". A editora Isabel Coelho, quando escreve o texto do posfácio, resume tudo isso de um jeito bonito e certeiro. "Difícil explicar as razões que fazem desse poema ilustrado uma obra a um só tempo coesa e dividida, iluminada e misteriosa. Talvez a beleza dessa duplicidade seja fruto de uma lógica às avessas, própria da loucura, que o poeta, também mineiro, Carlos Drummond de Andrade, chamou de 'a lua dupla de Ismália enlouquecida'".
Mais do que compor um livro-objeto e uma dança entre palavra e imagem, Odilon trabalha no livro o conceito de “design de leitura”, em que os elementos gráficos são pensados como mediadores da leitura. Como se recebesse um convite para se colocar no lugar da personagem, o leitor é conduzido por uma leitura vertical, como se fizesse um mergulho. E o mergulho é fundo, intenso e particular. Como a vida.
9. Roupa de brincar
"A literatura é um pulmão, onde a gente consegue respirar melhor e compreender no terreno simbólico o que não é fácil de ser digerido". Em uma entrevista recente para o UOL Educação, a editora Márcia Leite, da Editora Pulo do Gato, definiu assim a sua missão de levar adiante os tais "livros difíceis", que desafiam o pudor de contar para as crianças o que é a vida. Roupa de brincar (Pulo do Gato, 2015), de Eliandro Rocha e Elma, é mais um dos muitos de seu catálogo que sabem como fazer isso.
Com a história da menina que um dia chega na casa da tia e vê tudo transformado em um desbotado desconhecido, o livro coloca no campo do simbólico a representação entre o real e o imaginário. Tia Lúcia está diferente do que costumava ser, e nada é mais importante do que entender por que ela de repente resolveu se vestir de preto. Para o leitor desavisado, é um convite para entrar, afinal, não tem nada de triste no título. Aqui, não importa tanto quem partiu, mas quem ficou, e o que fazer para amenizar o preto e branco em que o colorido da vida às vezes se transforma.
Como trazer a alegria de volta se o lugar onde ela morava também se transformou em outra coisa? Como familiarizar a criança com as novas cores que uma mudança pode trazer? Um livro ilustrado em que a imagem continua uma conversa iniciada pelo texto. Ao contrário do que se pode pensar quando lemos a sinopse dessa história, não é a criança quem precisa de ajuda para elaborar a partida, e sim o adulto. Em uma sacada tão genial quanto sutil, o livro sacode as nossas falsas certezas sobre a capacidade das crianças de se aproximarem com naturalidade daquilo que não conhecem.
10. Meu filho pato - E mais contos sobre aquilo de que ninguém quer falar
Você olha para o título Meu filho pato (Companhia das Letrinhas, 2011) na estante e pouca coisa parece vir à cabeça. Mas, se o título engana, o subtítulo entrega a que veio: Contos sobre aquilo de que ninguém quer falar. E a morte quase sempre parecer ser isso, aquilo que não conseguimos nomear. Organizado pelo escritor Illan Brenman em parceria com uma equipe de psicólogos especialistas no assunto do Instituto 4 Estações e ilustrado pelo espanhol Rafael Antón, o livro traz textos de gêneros tão diversos quanto podem ser as variações de morte que encontramos pela vida. Como se chamasse para uma roda de histórias, convida autores como Angela Lago, Roger Mello, Índigo, César Obeid. Tudo orquestrado para ficar difícil recusar o papo. Uma longa conversa que dá espaço para o humor, a melancolia, o non sense, o cordel, a poesia: tudo para falar com as crianças sobre esse elemento inevitável da vida.
Com os versos bem rimados Hoje trago muita sorte, Pois a rima de cordel Servirá como transporte Pra dar vida para a rima Para lhes contar da morte
(César Obeid)
]]>
O dicionário dos meninos de Abóboda]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/05/10/O-dicion%C3%A1rio-dos-meninos-de-Ab%C3%B3bodahttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/05/10/O-dicion%C3%A1rio-dos-meninos-de-Ab%C3%B3bodaTue, 10 May 2016 20:48:38 +0000
Qual é a definição da palavra definição? O que fica de fora quando encaixamos uma palavra inteira em uma explicação só? Foi talvez pensando nessas coisas que surgiu o assunto do texto de hoje.
Isso porque descobri há pouco o livro “O dicionário do menino Andersen”, do escritor metade luandense, metade português Gonçalo M. Tavares (Planeta Tangerina). Apoiado nas ilustrações quase icônicas e minimalistas de Madalena Matoso, o livro traz verbetes de A a Z com definições criadas por uma criança insatisfeita com as explicações que já existiam para cada coisa. "O menino Andersen era um grande inventor e não andava nada satisfeito com as definições de palavras que lia no dicionário. Por isso decidiu começar a escrever um dicionário novo, um dicionário que entusiasmasse os seus amigos", conta sinopse da Planeta Tangerina. Mas o que mais importa ela não conta: desconfiar de explicações que não incluam a alma das coisas. Porque a invenção vai a lugares que a verdade não alcança.
"Por exemplo, pensa nas cascas de uma laranja: elas são ou não os restos de prazer que tiveste ao comer?" "Quando transportares um lixo num saco e te perguntarem o que levas na mão, responde: são os restos das minhas alegrias de ontem"
O livro por si só já é um manual de humildade e um alerta de que não podemos querer saber tudo sobre as coisas. Mas não pára por aí. Na verdade, este é só o ponto onde a história começa.
As crianças da Escola Básica Padre Andrade, em Abóboda, distrito de Lisboa, leram essa história e resolveram criar suas próprias definições – talvez por acharem que mesmo as de um grande escritor não eram suficientes (e nunca são!). E de repente o pequeno dicionário criado pelas crianças me pareceu mais importante do que todo o resto.
Porque desse universo de definições inventadas, surgiram verdades maiores que as do Dicionário com letra maiúscula. Verdades como essas aqui:
Na literatura infantil, não faltam referências para essas obras – tanto a de Gonçalo quanto a dos pequenos poetas de Abóboda. No Brasil, “Mania de explicação”, da Adriana Falcão, talvez seja o primeiro a ser lembrado. “Casa das Estrelas”, de Javier Naranjo, e até mesmo “O Paraíso São os Outros”, de Valter Hugo Mãe, com suas definições de família e diversidade. Diante de todos eles, não posso deixar de pensar o seguinte: as crianças são esses seres de genialidade discreta o suficiente para nos fazerem duvidar das explicações ao mesmo tempo em que aceitamos novas explicações. E descobrir que há um mundo inteiro fora dela.
Este é mais um livro para nos fazer mudar de lugar quando ousarmos pensar que a criança não sabe como nomear o que não entende, que precisa de um adulto para apontar o que é e o que não é. Sorte a nossa. Por isso é que Jorge Luis Borges tinha tanta razão quando explicou por que não acredita em nenhuma definição da palavra “Poesia”:
“O dicionário tem uma definição para cada coisa; quando são coisas muito concretas, a definição é talvez aceitável, porém muitas vezes o que tomamos por definição eu chamaria de aproximação. A inteligência opera por aproximações e estabelece relações, e tudo funciona muito bem, mas diante de certas coisas a definição se torna verdadeiramente muito difícil. É o caso muito conhecido da poesia. Quem conseguiu definir a poesia até hoje? Ninguém. Há duas mil definições que vêm desde os gregos, que já se preocupavam com o problema, e Aristóteles tem nada menos que uma Poética para isso, mas não há uma definição da poesia que me convença e que sobretudo convença a um poeta. No fundo, a poesia é isso que fica de fora quando terminamos de definir a poesia: escapa e não permite definição.”
]]>
Trocando em miúdos: Janaina Tokitaka]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/05/04/Trocando-em-mi%C3%BAdos-Janaina-Tokitakahttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/05/04/Trocando-em-mi%C3%BAdos-Janaina-TokitakaWed, 04 May 2016 19:49:18 +0000
Artista está sempre em gestação. Às vezes, nasce uma ideia, um parágrafo pela metade, um futuro por inteiro. Com sorte, nasce uma história! A ilustradora e escritora Janaina Tokitaka está em gestação dupla: enquanto escreve e ilustra um quadrinho de duzentas páginas, ela espera a chegada de sua bebê, a Rosa.
São muitas gestações em uma. Por isso, ninguém melhor para inaugurar a série de mini-entrevistas TROCANDO EM MIÚDOS. Vamos trocar de lugar com a criança que mora dentro de nós? Que perguntas os pequenos fariam se a gente deixasse elas perguntarem? Interrogações pequenas ou grandes? Essa é a ideia, passar um tempo na pele de um eu lírico imaginário e sair por aí indagando, como se o Garimpo tivesse engolido uma criança perguntadeira. Sempre as mesmas perguntas. Sempre respostas diferentes.
Vamos lá?
Trocando em miúdos: Por que às vezes o desenho tem um tamanho e o texto tem outro?
Janaina Tokitaka: Porque tem história que precisa de imagem pequena e história que precisa de imagem grande, mas, como a gente que trabalha com criança sabe bem, tamanho não é documento.
Para que serve uma cor? E imaginação?
Cor e imaginação são coisas muito importantes para servirem para alguma coisa.
Você já trombou com uma história no meio da rua?
Já. Eu saio guardando todas as que acho na bolsa, dentro do meu caderno. Depois chego em casa e descubro que metade é lixo, mas muitas vezes dá pra aproveitar uma coisa ou outra.
Uma história nasce na barriga ou na cabeça?
Eu acho que história nasce das mãos.
Dos mundos que não existem, qual é o seu favorito?
"A floresta", dos irmãos Grimm.
Como consertar uma história que não funciona?
Geralmente, é só ver se você não colocou alguma coisa inútil que está prendendo alguma peça importante.
É mais fácil ganhar de um monstro ou de um medo?
Os dois são a mesma coisa, mas acho mais fácil ganhar do medo quando ele está na forma de monstro.
Qual a diferença entre as palavras fáceis e as difíceis?
Nenhuma. Uma palavra difícil é só uma palavra fácil usando disfarce.
Se os livros tivessem perna, aonde eles iriam?
Para a casa de quem mais precisa deles.
Para quem ficou curioso, o livro de quadrinhos que a Janaina está fazendo vai se chamar “Viagem à Ganímedes” (título provisório!) e vai sair pela Companhia das Letras. Escrito em parceria com o escritor Antonio Xerxenesky, o livro fala sobre uma viagem ao espaço, e está previsto para o fim deste ano ou início de 2017. “É certamente o trabalho mais legal e mais difícil que eu já fiz na carreira”, antecipa.
Últimos livros dela:
“Nanquim”: Um conto visual sobre o encontro inesperado entre um monge e uma garça. Editora Cortez, 2015. E “O Mercado dos Goblins” (que ilustra este texto), com texto de Christina Rosseti e publicado pela Companhia das Letrinhas em 2014.
]]>
Coleção "AMAR": diversidade é assunto de criança]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/04/27/Colet%C3%A2nea-AMAR-diversidade-%C3%A9-assunto-de-crian%C3%A7ahttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/04/27/Colet%C3%A2nea-AMAR-diversidade-%C3%A9-assunto-de-crian%C3%A7aWed, 27 Apr 2016 12:37:51 +0000
“Devíamos ter medo de como as pessoas se odeiam, e não de como se amam”.
É assim que o escritor Valter Hugo Mãe começa o texto que vai na orelha dos livros da coleção infantil "AMAR". Poderia ser só mais um texto encomendado, mas aconteceu que foi amor. “Mandamos os livros em um dia, no outro de manhã as palavras dele já estavam na nossa caixa de e-mail”, conta Thiago Minamisawa, idealizador da coletânea. O encantamento pronto e natural do escritor português se estende também a Jean Wyllys, convidado para apadrinhar o projeto. “A literatura infantil tem que ser diversa, como a vida mesma é”, diz Jean como se abraçasse uma bandeira.
Contemplado pelo PROAC, o projeto “AMAR Coletânea de Livres Infantis” chega para falar com as crianças sobre nada menos que a matéria-prima da vida: diversidade. Afinal, todo mundo nasce para descobrir. Tudo cresce para se transformar.
Os livros serão distribuídos pela Secretaria Estadual de Cultura em escolas, centros culturais e bibliotecas públicas de São Paulo, além das unidades do Sesc com quem firmaram parceria. Produzidos também em formato Daysi (audiodescrição) pelas mãos da Fundação Dorina Nowill, levantam duas questões fundamentais: a urgência de falar sobre identidade e a importância de receber estímulo dos órgãos públicos. Aqui, a importância da acessibilidade se sobressai ao próprio objeto: simples para ser para todos.
Coordenado pelo cineasta Thiago Minamisawa junto com um coletivo de escritores e ilustradores, o projeto é formado por quatro “livres” – como eles chamam – de quatro duplas de autores diferentes: Eu (Mateus Rios e Thiago Minamisawa), Nonada (Cris Eich e Bruno H Castro), Existo (Marcia Misawa e Vinícius Cardoso) e Safo (Rosana Urbes). Todos trabalham com referências diversas e têm um denominador comum: querem ser manifestos de liberdade. “O que estamos fazendo não é livro, é livre. Serve para todas idades”.
Thiago conta para o Garimpo como tudo isso começou, a vontade de construir um espaço de diálogo sobre identidade e representação. “Eu sentia que faltava um lugar onde a criança pudesse ter espelhamento sobre diferenças de gênero. Olhando para a literatura infantil, encontrei poucos livros sobre o assunto, e mesmo assim era sempre algo muito específico. Nunca existiu uma coletânea que abordasse as quatro letras do movimento LGBT. A gente percebeu que, por regras de mercado, acabaram se formando alguns cânones da literatura infantil, o que obriga os livros a pertencer a alguma categoria específica”.
A fala de Thiago faz pensar: se os rótulos existem, antes de ultrapassá-los é preciso conhecê-los um a um, não é mesmo? E a motivação para isso veio de mundos completamente distintos. Guimarães Rosa, Leonilson, Bachelard, Carl Jung, Buda, Ovídio, Frida Kahlo. E por isso poesia, filosofia, psicologia, artes plásticas, espiritualidade. Tudo isso é assunto pra criança.
Aqui, um pouquinho do livro "Existo":
É tão bom olhar uma coisa sem pensar
na sua palavra.
O que existe lá dentro solta para fora
Vem uma sensação de maravilha.
Eterno Palavra esquisita. Mas a gente muda tanto, o tempo todo. Será que o eterno existe? Acho que só na alma, por isso ela brilha. Eu sou como o caleidoscópio
que vi na escola.
Ele é redondo, redondo, e muda faiscante a
cada
voltinha
que dá.
E uma espiada em "Eu":
Inspirados por O paraíso são os outros, único título infantil do português Valter Hugo Mãe, o coletivo de artistas sentiu o estalo: “Este livro não segue uma estrutura considerada padrão, mas ainda assim se afirma como literatura infantil. Foi aí que a gente percebeu que os parâmetros internacionais de livros sobre esse tema estão mais avançados que os do mercado editorial brasileiro. Nós temos um mercado super retraído, com muito medo, principalmente depois que o Governo Federal fechou o edital de compras. Muitas editoras estão lutando para sobreviver, e acabam publicando muito mais livros conciliadores do que transformadores.”
Conciliação x Transformação
Conciliar ou transformar? Qual dos dois movimentos é o da literatura infantil? Existe mesmo um papel a ser exercido quando o assunto é arte, linguagem literária, ilustração como linguagem?
“Durante o processo de pesquisa, teve muito esse questionamento: ‘o que estamos fazendo é mesmo literatura infantil? Se sim, pra qual faixa etária estamos falando?’. Mas aí entendemos que a recepção de uma criança a um livro infantil tem várias camadas, tanto a da autonomia – que é a que conversa diretamente com ela – quanto outras camadas que o mercado não privilegia, como a interpretação do desenho, a relação com a ilustração, a curiosidade sobre a sonoridade da palavra”, explica o autor.
E é aí que os livros preveem sempre dois momentos possíveis: a criança sozinha e a interferência do professor, da mãe, do pai. Este segundo ligado à delicadeza da interpretação, a diferentes possibilidades de abordagem e à própria concepção do adulto sobre o assunto.
“A questão da leitura mediada é muito importante aqui, como funciona a relação da criança com o adulto, promover a troca entre os dois, onde o adulto primeiro absorve e depois passa para a criança”, explica Thiago.
Em "AMAR", a diversidade é uma espécie de metabolismo geral, que rege o seu modo de estar no mundo e está presente em todos os aspectos dos livros, desde o prefácio até o formato, passando pela linguagem de cada autor e pelo caminho escolhido para chegar no assunto. “Coração é um órgão de partilha que não pede muita licença nem dá muita explicação”.
Se o texto de Valter Hugo Mãe começa com uma divagação, termina numa certeza quase impositiva: “Ostentem o amor. Vocês é que estão certos”.
O projeto “AMAR Coletânea de Livres Infantis” está em exposição na Casa das Rosas até o fim desta semana, dia 30 de abril.
Casa das Rosas – Av. Paulista, 37, São Paulo
Mais informações: https://www.facebook.com/amarlivresinfantis
]]>
5 livros para falar de otimismo]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/04/20/5-livros-para-falar-de-otimismohttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/04/20/5-livros-para-falar-de-otimismoWed, 20 Apr 2016 03:24:52 +0000
O que pode uma história no meio de um furacão? As páginas de um livro continuam abertas mesmo se estiver passando um vendaval? Quando a esperança brinca de esconde-esconde, os livros podem ajudar?
Para nossa sorte, a literatura também infere na realidade, no sentido de que a suspende para depois transformá-la. Voltamos de um livro de ficção mais cientes de que este é só um dos mundos, de que há outros possíveis, de que a possibilidade não acaba enquanto houver um horizonte para mirar.
Existem livros que falam justamente sobre esses tais horizontes, histórias que nos lembram que ensinar uma criança a ler palavra não é o suficiente, é preciso ensiná-las a ler o mundo, mesmo (talvez, principalmente) quando ele se esconde. Nos dias em que o mundo está tão desarrumado que é fácil esquecer onde buscar coerência e sentido, visitar outras realidades pode ser um caminho de volta para a nossa própria casa.
Com uma certeza quase inconveniente nestes tempos incertos, uma singela e incompleta (ainda bem!) lista de livros para falar sobre otimismo e esperança sem nem usar essas palavras.
1. A ÁRVORE VERMELHA
Como acontece quase sempre nos livros de Shaun Tan, os personagens aqui não têm nome - porque não precisam ter. São tão universais que um nome os limitaria em um tempo-espaço. “A árvore vermelha” conta a história de um dia na vida de todo mundo. Aqueles em que perdemos a capacidade de enxergar além e ficamos esmagados em nosso próprio senso de injustiça. Nada de interessante dá as caras no horizonte, tudo vai mal, ninguém entende, nada tem sentido. Dias em que (e aqui eu abro aspas para o Shaun Tan):
“O mundo é uma máquina surda”
Neste momento, o leitor levanta a cabeça – eu levantei! – e interrompe a leitura para pensar “É isso! Exatamente isso”. Este livro é feito desses pequenos e preciosos momentos em que leitor e obra se conectam. “Este livro me entende”. Quase não há narração aqui, mas não falta história. Um personagem perdido, rumando sozinho pela rua em busca ainda não sabe de quê. Até que de repente...
Não se pode passar desse ponto sem estragar todo o encanto do livro. “A árvore vermelha” é um livro para conhecer de perto, ler e reler, apreciar as ilustrações, encantar-se com a revelação como se fosse a primeira vez. E quem sabe, com sorte, surpreender-se com uma coisa qualquer fora das páginas do livro, e no fim descobrir que o mundo não é assim nem tão máquina nem tão surda.
2. TUDO DEPENDE DE COMO VOCÊ VÊ AS COISAS
Se você é daqueles que de vez em quando vê o mundo de cabeça pra baixo, este é o seu livro no mundo!
"Se ele soubesse o que fazer da vida, nada disso teria acontecido", diz a contracapa. Depois de ler a história, é inevitável pensar "Ufa! Ainda bem que ele não sabia!". Caso contrário, nada disso teria acontecido. E o "isso", aqui, é tanta coisa!
"Tudo depende de como você as coisas" ("The Phantom Tolbooth"), de Norton Juster, é um clássico universal da literatura infantojuvenil , de 1961. Para alegria dos brasileiros, ele chegou ao Brasil em 1999 pela Companhia das Letras.
A história é sobre Milo, um garotinho entediado que nunca ficava satisfeito em lugar nenhum. Se estava na escola, queria ir pra casa, Se estava em casa, a cabeça estava longe. Nada pra ele era verdadeiramente interessante.
Até que um dia ele é pego de surpresa por uma imensa caixa de papelão em seu quarto. Um presente misterioso: uma cabine de pedágio. Mas para quê um garotinho entediado precisa de uma cabine de pedágio? Esse é só o começo de uma história que passa pelos lugares e personagens mais disparatados, como uma família em que todos nascem suspensos no ar, "com a cabeça exatamente na altura que terão quando forem adultos", e vão crescendo de cima para baixo: quanto mais velho se é, mais perto do chão. Parece estranho, mas tudo depende de como você as coisas. Tem a senhora Dúvida Atroz, a Desculpa Esfarrapada, a Doce Rima, a Razão Pura. Todos sempre prontos para mostrar a Milo o outro lado das coisas, o avesso da lógica, o inverso do lugar-comum.
Sem mais nem menos, diálogos geniais brotam de trechos despretensiosos, como este:
- Posso ver tudo o que está dentro, atrás, em volta de, coberto por ou que vem depois de qualquer coisa. Na verdade, a única coisa que não posso ver é aquilo que está diretamente diante do meu nariz.
- E isso não é um pouquinho inconveniente?
- Um pouco, mas é muito importante saber tudo o que existe por trás das coisas, e minha família cuida do resto. Meu pai prevê as coisas, minha mãe revê as coisas, meu entrevê as coisas, meu tio vê o outro lado de todas as questões, e minha irmã Alice vê o que existe por debaixo das coisas.
Ou este:
- Como é que se pode ver algum coisa que não existe?, bocejou o Mausquito, ainda não desperto de todo.
- Às vezes, é muito mais simples do que ver as coisas que existem, ele disse. Por exemplo, se alguma coisa existe, você só pode vê-la com os olhos abertos, mas, se não existe, pode ver perfeitamente com os olhos fechados. É por isso que as coisas imaginárias são quase sempre mais fáceis de ver do que as coisas reais.
- Então, onde fica a Realidade, latiu Toque.
- Aqui mesmo! - gritou, agitando os braços. - Vocês estão bem no meio da rua principal.
3. HOJE
Um livro sobre a importância de estar presente no presente. Que quer saber como você amanheceu hoje, e te lembrar que amanhã pode ser diferente. Afinal, se o problema maior de um dia pode ser uma baita dor de cabeça, amanhã já vai ter virado memória.
"Hoje", da escritora italiana Eva Montanari, conta a história de uma garotinha chamada Niki. Um dia - que pode ser hoje, amanhã ou ontem -, Niki está se sentindo como se sentirão em algum momento todos os outros seres humanos que andam pelo mundo: triste. A manhã vem cheia de desesperança, chateação, barulho. E Niki quer saber: “o que cabe dentro de um dia?”.
Publicado em 2014 pela editora Jujuba, "Hoje" vem para dimensionar o leitor sobre o tamanho de um mísero dia em uma vida em que se tem tantos. Ao mesmo tempo, aponta para a importância de reconhecer a potência do aqui e do agora, de antever neles as expectativas que ninguém percebeu ainda. De ter a inconveniência necessária de acreditar no futuro, mesmo que ele seja só o dia de amanhã.
4. SE VOCÊ QUISER VER UMA BALEIA
"Se você quiser ver uma baleia vai precisar manter os olhos no mar e esperar", diz o livro.
Da autora americana Julie Fogliano e publicado no Brasil pela Pequena Zahar, este livro é uma verdadeira ode ao poder da espera. Poderia ser apenas um garotinho afoito em um barco ansiando por ver baleias. Mas é tão mais do que isso que periga o olhar se perder.
E se isso acontecer, o livro te encontra, te chacoalha e avisa: "Se você quiser ver uma baleia, vai precisar saber para onde não olhar". Não cabem distrações para quem sabe o que espera?
A metáfora é a da baleia não por acaso. Afinal, como deixar passar despercebida uma coisa tão grande, não é mesmo? Mas talvez esteja aí o ponto chave da história: para alcançar o grande, precisamos saber passar com sabedoria pelo pequeno.
Como diz a máxima de Lao Tsé, "semeia o grande no pequeno". As rosas, os pelicanos e o verde que o personagem encontra pelo caminho ou avista de sua janela são apenas formas de chegar aonde a baleia o espera. Baleias aqui são sonhos, e sonhar acordado é tarefa para persistentes, afinal:
“Se você quiser ver uma baleia
vai precisar de uma poltrona não muito gostosa
e de uma coberta não muito quentinha
porque olhos com sono não enxergam baleias
e baleias não esperam para serem encontradas.”
5. PEQUENA COISA GIGANTESCA
Os livros de Beatrice Alemagna são imensos. E neste caso, não é modo de dizer, os livros são realmente imensos, fisica e artisticamente. Com belas ilustrações e pouquíssimas palavras, é o caso de "Os cinco esquisitos", "O que é uma criança?" e deste "Pequena coisa gigantesca", todos traduzidos no Brasil pela WMF Martins Fontes.
Este livro conta a história de uma pequena coisa, frágil, discreta e volátil que pode estar num grão de areia, num barulho, em uma lembrança perdida, em um olhar. Ela está em toda parte, embora nem todo mundo possa ver. Mas como pode, se como diz no título, ela é tão gigantesca? O que será?
“A senhora do crocodilo ficou à porta, a esperar por ela, durante longos meses. Nunca viu chegar nada. Há pessoas que não sabem reconhecê-la.”
“Um dia, como por brincadeira, ela escondeu-se numa lágrima e encheu um homem de nostalgia.”
Como diria o David Foster Wallace, "as realidades mais óbvias, claras e aparentes são as mais difíceis de conversar a respeito". Este livro fala sobre como nós, sendo crianças ou adultos, deixamos nossa vista se nublar pelas coisas desnecessárias e perdemos a capacidade de enxergar o que está bem debaixo do nosso nariz, como o personagem de Norton Juster.
Nesta história que não fala sobre medidas nem sobre proporções, a capacidade de vislumbrar a beleza contida nas pequenas coisas é que parece mensurar o tamanho de quem somos.
]]>
A primeira história infantil de Monteiro Lobato?]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/04/11/Qual-foi-a-primeira-hist%C3%B3ria-infantil-de-Monteiro-Lobatohttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/04/11/Qual-foi-a-primeira-hist%C3%B3ria-infantil-de-Monteiro-LobatoMon, 18 Apr 2016 21:15:56 +0000
Você provavelmente já ouviu falar de um peixinho. De um peixinho que morreu afogado. Da Velha História do Peixinho que Morreu Afogado. Opa, aí já é título de livro. E é mesmo, da escritora Marilia Pirillo com o ilustrador Eloar Guazzelli. Mas a história não é deles (Ou é? É de todo mundo?). Na verdade, ela está em muitos lugares, como acostuma acontecer com as histórias tão populares que nem dono têm.
O peixinho está em Mario Quintana, em Almirante & Bando, no cancionário popular brasileiro. Quem não se lembra daquela canção de infância "Peixe vivo" que se surpreendia nos versos "como pode um peixe vivo viver fora da água fria?” Mas o que poucos sabem é que a literatura indica que a história do pobre peixinho que morreu afogado foi a primeira história infantil que Monteiro Lobato escreveu, em 1920. Em "A Barca de Gleyre", livro de cartas entre Lobato e o amigo Godofredo Rangel, está a história de como Lobato conheceu o tal peixe.
"Certa tarde, na Editora, jogava xadrez com Toledo Malta, quando, no intervalo entre dois lances, este lhe conta a história de um peixinho que por haver passado um tempo fora d'água desaprendera a nadar, e de volta ao rio afogara-se. Perdi a partida de xadrez naquele dia, talvez menos pela perícia do jogo do Malta do que por causa do peixinho. O tal peixinho pusera-se a nadar na minha imaginação, e quando Malta saiu, fui para a mesa e escrevi a "História do peixinho que morreu afogado" - coisa curta. Do tamanho do peixinho. Publiquei isso logo depois, não sei onde."
E então voltamos a 2014. Deslumbrada com o mote de uma história tão popular que atravessou gerações e gerações, virou música, anedota e canção de ninar, Marilia fez uma pesquisa sobre a presença deste conto popular em diversas manifestações da cultura brasileira. Então, junto com o ilustrador Eloar Guazzelli, os dois trouxeram a história para os dias de hoje, embrulhada em um projeto de livro ilustrado cheio de esmeros e segundas leituras, assinado pela Raquel Matsushita, que mistura pantenes de cor para transmitir a ideia da fusão entre o real e o imaginário.
Daí o peixinho ser transportado para o rio poluído moribundo de uma grande metrópole (qualquer semelhança com São Paulo e seu rio Tietê não é mera coincidência) ser pescado por um homem engravatado e sisudo para depois ter com ele uma passageira amizade, ser devolvido à agua e pum: morrer afogado.
E de repente o que era só uma metáfora para o amor e seu poder de libertar e aprisionar na mesma medida, acabou se tornando uma outra coisa. "A história do peixinho que morreu afogado" é um símbolo da vida na cidade, para o tempo de contemplação que a correria urbana nos rouba. Somos todos um pouco como o peixinho que morre afogado. Mas somos também o homem. Como saber em que proporção somos o quê? Aí está o livro para provocar essas interrogações. O Garimpo foi ter um dedinho de prosa com a Marilia para saber mais sobre tudo isso.
Você teve a ideia de escrever este livro quando leu o conto "Velha História", do Mario Quintana, o simpático senhor que você desde adolescente observava de longe no calçadão da praia, em Porto Alegre. Muito legal essa história. Como foi isso?
Na verdade, li este conto ainda adolescente e mexeu comigo. Depois disso, o tal peixinho ficou nadando nas minhas ideias. Queria e precisava fazer algo com essa história mas não sabia bem o que. Uma década (!) depois, fiz uma oficina de animação onde precisava criar um storyboard como trabalho de conclusão. Veio a história do peixinho: com cenários porto-alegrenses, os personagens bem definidos e toda minha vontade de recontá-la. Fiquei tão animada com o projeto que o inscrevi num edital de produção cultural. Infelizmente, o projeto não foi selecionado e a história do peixinho voltou pra gaveta. Só agora, outra década depois, já escritora e ilustradora, eu decidi reavivá-la para transformá-la em livro.
Há algumas histórias que parecem não ter dono, e vão mudando de contador para contador. Essa parece ser mais uma dessas histórias. Pode falar um pouco sobre isso?
A minha versão se propõe a ser mais contemporânea. Coloco os personagens em um cenário de metrópole. O homem solitário passa a ser um empresário bem-sucedido e totalmente ocupado. E o peixe se transforma mais explicitamente em um delírio, uma quimera deste homem que gostaria de voltar para a infância – tempo em que era livre para sonhar – e, talvez, construir um futuro diferente para si.
O biógrafo Edgar Cavalheiro nos conta que essa foi a primeira história infantil que Monteiro Lobato escreveu. A questão da verdadeira autoria foi uma questão na hora de escrever e publicar o seu livro?
Eu só conhecia o conto de Quintana e a música “Peixe-vivo” (que seria a trilha do meu projeto de animação). Achava que para reescrever esta história teria de ter autorização dos herdeiros de Quintana porque acreditava que a história era dele. Quando descobri que Lobato teria ouvido esta história de um amigo durante um jogo de xadrez, e que a havia escrito e publicado, percebi que poderia se tratar de um conto popular, o que me daria a liberdade de escrever uma nova e particular versão. Assim, depois de pesquisar e confirmar a informação, mantive o esqueleto da história mas a reescrevi inteiramente, deixando, na verdade, poucas referências ao texto de Mario Quintana.
O trabalho do Guazzelli anda junto com as suas palavras, de mãos dadas. Como foi a concepção da linguagem que encontraram, e como foi a ideia de retratar o peixe voando?
Na verdade, conheço e admiro o trabalho do Guazzelli há muitos anos, da época em que vivíamos em Porto Alegre. De um tempo para cá, Guazzelli começou a desenhar, com frequência, peixes voadores nos cenários mais inusitados. Assim, desde que escrevi a história, pensei nele para ilustrá-la. Apresentei Guazzelli para a editora, fizemos uma única reunião para a leitura em grupo do texto, trocamos algumas ideias e tudo fluiu maravilhosamente. Para finalizar, a edição ainda recebeu o projeto gráfico luxuoso da Raquel Matsushita, que costurou texto e imagens e realçou o clima da história.
Um peixe vivo em um rio quase morto. Um homem que faz amizade com um ser de um mundo diferente do seu. O impulso de querer aprisionar o que amamos. Este livro é um pouco sobre solidão, um pouco sobre egoísmo? O que a história significa para você e para o leitor de uma grande cidade?
Acho que a história mexeu comigo desde a primeira leitura justamente por se tratar de solidão e da busca pelo amor, pela amizade, pela atenção. Quando falamos em solidão, pensamos em alguém vivendo isolado numa cabana distante de todos, mas a verdade é que a vida nas grandes cidades, com todos os afazeres, informações e uma multidão nos cercando também pode ser extremamente solitária. Talvez até mais do que numa cabana! Apesar de estarmos rodeados de pessoas, nossas relações estão cada vez mais impessoais, e a busca pelo amor, pela amizade e por atenção está crescendo de forma desesperadora.
O que está preparando para este ano? Novos livros, projetos, ilustrações, histórias?
Estamos passando por um momento delicado, o mercado editorial está bastante retraído, mas eu estou longe de pensar em ficar parada. Espero, com muita esperança, a publicação de dois novos livros para este ano. São dois infantis, um sobre uma menina que sonha em ter um lar, e outro sobre uma menina “aluada”, que se sente um ser de outro mundo. Sigo ministrando oficinas sobre literatura para crianças e jovens e, neste momento, estou ilustrando “As aventuras de Gulliver”, para a coleção Grandes Clássicos para Jovens Leitores, da FTD. Aguardem!
]]>
Entrevista: Blexbolex]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/04/11/Entrevista-Blexbolexhttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/04/11/Entrevista-BlexbolexMon, 11 Apr 2016 20:06:47 +0000
Já que Blexbolex foi assunto no post anterior, por que não escavar mais fundo no trabalho desse artista imenso do livro ilustrado infantil? E não é que encontramos pedras preciosas?
A entrevista abaixo é um achado, um presente. O ilustrador Daniel Bueno entrevistou o autor em 2013 para o blog da Cosac Naify. Originalmente publicado em dezembro daquele ano e com exclusividade, esse texto tinha se perdido dos leitores desde que o site da editora saiu do ar. Aqui, eles voltam a se encontrar. Sorte a nossa!
Nesse texto, cedido pelo Daniel e generosamente garimpado dos arquivos de ex-editoras da Cosac, há um pouco do mundo de cada um: palavra e imagem. Blexbolex, pseudônimo do escritor francês Bernard Grander, compartilha suas técnicas de ilustração, referências, preferências de linguagem e – o que mais nos interessa –, fala sobre as infâncias de quem lê e de quem escreve.
Daniel Bueno: Em "Cantiga", chama a atenção o modo como você consegue efeitos gráficos belíssimos através da sobreposição de retículas estilizadas e sintéticas manchas de cor. O livro, em seu conjunto, é também muito bonito: o formato, tipografia, a lombada etc. Gostaria de saber um pouco sobre o planejamento e processo de criação desse livro. Você fez muitos esboços? Prevaleceu o trabalho manual ou você recorre bastante ao computador?
Blexbolex: Geralmente não faço esboços, prefiro começar a trabalhar minhas imagens imediatamente no computador. Para esse livro, levando em consideração a complexidade do conteúdo narrativo das imagens, tive que fazer alguns esboços (parecidos com desenhos de storyboard) para assegurar que as imagens funcionariam bem nas ideias e composição geral. Neste caso, são desenhos bem pequenos, de alguns centímetros quadrados. Às vezes, a composição desse tipo de desenho é muito complicada, por isso escaneei alguns deles para servir de base às imagens finalizadas. Caso contrário, absolutamente tudo que faço é no computador.
"Cantiga" apresenta uma narrativa interessantíssima com palavras soltas que se somam para contar uma história. No livro "Saisons" (Albin Michel Jeunesse, 2008) a abordagem é outra, mas você também explora a relação entre uma imagem e uma palavra por página. De onde vem o interesse por esse tipo de solução e quando começou?
É difícil de responder. Pelo o que eu me lembro, as palavras, a linguagem são coisas que sempre me interessaram, na mesma medida que as imagens. As palavras são ideias (e ainda, isso não é completamente verdade) quando as dizemos, mais quando as escrevemos; são também imagens, por sua grafia, seu tamanho e eventualmente suas cores. E as imagens também são ideias porque elas evocam, mostram, contam. Sem dúvida, isso que estou dizendo é muito pouco e confuso. É uma coisa complexa. Para mim, as imagens são uma maneira de colocar em jogo todas essas coisas, com o objetivo de me surpreender, e aos outros também, caso queiram se prestar ao jogo pelo qual eu os convido a participar.
Você estudou serigrafia na Escola de Belas Artes de Angoulême. Seus primeiros trabalhos para o mercado editorial já exploravam a serigrafia ou houve um processo inicial com tentativas em variadas técnicas?
Eu fiz quadrinhos, um pouco de pintura; também me interessei pelo teatro, pela edição; tentei escrever, fiz um pouco de gravura no metal etc. Enfim, tentei todos os tipos de coisas, principalmente porque não sabia o que eu tinha vontade de fazer, o que pode ser às vezes uma vantagem ou um inconveniente. Em seguida, a oportunidade de trabalhar como tipógrafo em um escritório certamente foi decisiva.
Você apresenta soluções diversas nos trabalhos que faz: em alguns casos há a exploração de retículas e em outros, por exemplo, vemos manchas de cor homogênea, muitas vezes com paleta reduzida. Gostaria que falasse um pouco sobre essas experimentações da técnica de serigrafia: as descobertas, eventuais “erros” aproveitados de modo interessante etc.
Isto pode nos levar muito longe! Digamos simplesmente que a experimentação, o imprevisto (desejado ou não) fazem parte do meu trabalho. Sempre procuro atalhos, formas de sintetizar o que eu sei, o que me leva às vezes a fazer grandes desvios. Os processos que me levam à imagem me fazem sonhar, simplesmente.
Conheço seu trabalho desde o final dos anos 1990, quando comprei um fanzine francês com uma HQ de sua autoria. Também tenho o Comix 2000 e outras publicações. Lembro que algumas dessas histórias eram feitas com traço despojado e expressivos rabiscos e garatujas. Fiquei curioso pra saber um pouco sobre seus quadrinhos, como começou a atuar nessa área. E quais são as HQs que gosta de ler e que influenciaram, de algum modo, seu trabalho?
Fui um grande leitor de quadrinhos até o começo dos anos 1980. Depois, menos. As razões são que, quando eu era estudante, era levado a conhecer a história da arte – o que me encantou, e logo em seguida fui obrigado a ganhar a vida – o que foi difícil. Não tinha mais a mesma disponibilidade, e, é preciso dizer, não tinha mais dinheiro para seguir os quadrinhos que estavam sendo feitos naquela época.
Tintin foi importante (leitura familiar!), em seguida Philménon de Fred, Corto Maltese, Moebius e Tardi quase ao mesmo tempo, como também Krazy Kat. Depois, uma descoberta muito importante no começo dos anos 1990, Gary Panter, e também Mark Beyer, Charles Burns, e os franceses Pascal Doury e Bruno Richard, muito importantes a meu ver, mas passando por Frans Masereel também, que não faz quadrinhos, mas histórias em imagens.
Não consigo passar a lista completa de todos aqueles que me influenciaram: pegue o dicionário, a lista telefônica e a enciclopédia para começar.
O que acha da produção e legado das vanguardas artísticas do começo do século passado? Há maior interesse por certos artistas?
O fato de pensar minhas obras ao mesmo tempo de fazê-las em termos de impressão (serigrafia ou não), me levou a soluções próximas daquelas das de outros artistas anteriores a mim que já tinham experimentado ou praticado isso. Há também no princípio de redução dos meios uma elegância e uma inteligência que eu particularmente aprecio.
Não faço nada além de sempre me “refazer” perguntas sobre esses meios e soluções em um contexto totalmente diferente. Idem, a lista será muito longa e não se trata de uma lista fechada.
Você vê particularidades na ilustração de livros infantis europeus em relação a outros lugares do mundo (como os Estados Unidos, por exemplo)?
Não sei. Vejo coisas novas e surpreendentes todos os dias, e vindas de todos os cantos do planeta, de épocas diferentes. Não vou me arriscar a dizer sobre alguma especificidade, se é que uma coisa dessas existe. Me contento em fazer aquilo que faço, sem me colocar muitas questões.
Sua produção abrange desde livros para crianças até trabalhos para coletivos como United Dead Artists… As diferenças de público e finalidade das publicações interferem no seu trabalho? O que muda numa ilustração para crianças?
Um professor que eu gostava muito dizia: “Há coisas que se pensam, outras que se dizem, outras que se escrevem”. Eu diria que se dirigir às crianças ou adultos é algo da mesma ordem. Trata-se menos de uma autocensura que da consciência das pessoas às quais nos dirigimos, mas tento encontrar uma linguagem que seja adequada em função daquilo que eu tenho a dizer ou compartilhar. Na verdade, me sinto muitas vezes mais livre e mais à vontade frente às crianças, não tenho necessidade de impor as coisas, a questão de autoridade se coloca infinitamente menos, se é que ela se impõe. As barreiras do mundo adulto são muitas vezes difíceis de transpor.
Percebo que você escreveu parte considerável dos livros que já ilustrou. Você também faz muitos trabalhos sob encomenda, direcionados por briefings e conteúdos que não expressam necessariamente seus interesses? Como você enxerga a questão da liberdade criativa no seu trabalho?
Muitas vezes sou ilustrador, o que significa que aceito uma encomenda e exigências. No interior dessas obrigações, cabe a mim descobrir a liberdade que é permitida, o que não é sempre muito fácil. Quando sou o autor, sou eu que fixo as obrigações e determino quando as ultrapassar, o que é ainda mais difícil.
Há algum novo projeto em vista?
Atualmente, sou ilustrador, é isso que me faz viver. Agora, as exigências de prazo estão terríveis! Isso quer dizer que vou passar meus dias e minhas noites para talvez chegar somente à metade daquilo que estou com vontade de fazer.
Os projetos que eu poderia eventualmente trabalhar como autor me parecem longe! Totalmente fora de questão na verdade, se isso responde à sua pergunta!
Entrevista originalmente publicada no blog da Cosac Naify, dezembro de 2013.
Daniel Bueno é ilustrador, artista gráfico e quadrinista de São Paulo. Seu trabalho envolve contornos geométricos, colagem, texturas, pesquisa de grafismos e ilusão. "Tento escapar de soluções óbvias e um dos modos de fazer isso é deformar uma figura inicialmente redundante. O uso de elementos gráficos como entidades que podem ter outros significados também toma parte nesse processo." Como ilustrador, colaborou com mais de cinquenta revistas e jornais no Brasil e no exterior. Ilustrou três livros premiados com o Jabuti: “Um garoto chamado Rorbeto”, de Gabriel o Pensador, “O melhor time do mundo”, de Jorge Viveiros de Castro, e “A janela da esquina do meu primo”, de E. T. A. Hoffmann. Para visitar o seu trabalho, http://buenozine.com.br
]]>
O silêncio na literatura infantil]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/04/07/O-sil%C3%AAncio-na-literatura-infantilhttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/04/07/O-sil%C3%AAncio-na-literatura-infantilThu, 07 Apr 2016 19:27:40 +0000
Antes de chegar no silêncio, precisamos falar sobre a paixão. Mas o que a paixão pode ter a ver com a literatura infantil e juvenil? Não seria exagero responder "tudo".
O semiólogo francês Roland Barthes tem um livro muito simpático de 1984 chamado "O Rumor da Língua"*, uma série de ensaios em que ele explicita suas opiniões sobre literatura e linguagem. Em um trecho que nunca me saiu da cabeça, ele diz:
"Nunca lhe aconteceu, ao ler um livro, interromper com frequência a leitura, não por desinteresse, mas, ao contrário, por afluxo de ideias, excitações, associações? Numa palavra, nunca lhe aconteceu ler e levantar a cabeça?"
Essa expressão "levantar a cabeça" não por acaso está em itálico no livro e saltou da página no momento em que eu a li. Acho uma metáfora muito poderosa e desde então ela me acompanha (para não dizer persegue) quando o assunto é livro.
Para Barthes, isso de "levantar a cabeça" já é em si um ato de paixão. Quer dizer, mesmo estando totalmente mergulhado numa história, o leitor que levanta a cabeça concorda em interromper a leitura para depois voltar a ela e dela se nutrir para em seguida levantar a cabeça outra e outra vez. A literatura ali tem natureza dupla: ao mesmo tempo em que dispersa e leva para outros e muitos lugares, também canaliza, raciocina e organiza, dá foco à realidade. É um mecanismo apaixonado. E a literatura para crianças está minado deles, consideravelmente mais do que a literatura adulta, e por um motivo simples: o silêncio.
Se a gente vasculhar a nossa memória de leitor, não vai ser difícil encontrar momentos de levantar a cabeça durante a leitura de um livro adulto, mas quase sempre eles acontecem pela teimosia de encontrar em meio a uma grande quantidade de palavras, ideias e associações o espaço para o silêncio existir. É preciso um leitor paciente e obstinado para criar o silêncio e persistir na reflexão.
Na literatura para os pequenos, o espaço já está ali. Ele pode ser uma página dupla só com ilustrações, uma folha de guarda toda cheia de ícones e símbolos e até mesmo uma página em branco absoluto; enfim, o silêncio está em qualquer instante propositalmente (e aí a palavra "propósito" se torna fundamental) designado para que a história se interrompa e o leitor preencha a parte que falta.
O livro "Cantiga" (Cosac Naify, 2014), do francês Blexbolex (pseudônimo do escritor francês Bernard Grander), é um bom exemplo para esse tema, pois já nasce de uma intenção de silêncio.
O livro todo é feito assim: uma ilustração e uma pequena sentença embaixo formada apenas de um artigo e um substantivo, por exemplo: "a casa", "a floresta", "o caminho". A narrativa que envolve e amarra essas pequenas frases quem constrói é o leitor, até que, em um dado momento, as palavras são suprimidas e pronto: silêncio. Fica só a imagem, às vezes seguida de uma vírgula, de reticências ou de ponto final, para sugerir as muitas possibilidades de preenchimento que o leitor tem quando se permite indagar: "o que poderia haver aqui?"
A princípio, é só uma criança voltando da escola para casa, mas pode ser mais, e é. E o autor não poderia ser mais certeiro quando abre o livro dizendo que esta é "uma história antiga como o mundo: ela recomeça a cada dia". Também não por acaso é que o personagem "O desconhecido" apareça com força. Aliás, vale dizer que o autor deste livro recebeu um prêmio curioso, o de Livro Mais Bonito do Mundo, na feira de Leipzig, na Alemanha, por conta da obra "L'imagier des gens" ("Pessoas", 2008). "Cantiga", em sua versão original americana, foi considerado um dos dez livros mais bonitos de 2013 pelo New York Times Book Review, e recebeu o Prêmio Pépite du Livre, entregue pelo Salão de Montreuil.
detalhes do livro Cantiga", de Blexbolex (Cosac Naify, 2014)
Quando falamos de um livro para criança, nada mais potente do que reconhecer nesses espaços em branco o lugar do desenvolvimento cognitivo e associativo.
"Quando escutamos a maneira singular com a qual as crianças nomeiam o mundo, colocamos em saudável tensão nossas fibras interpretativas", diz Cecilia Bajour no livro "Ouvir nas entrelinhas - o valor da escuta nas práticas de leitura" (editora Pulo do Gato, 2012).
Ainda neste livro, uma afirmação iluminada: "A linguagem contém mundos e é poliglota". E é isso. O adulto tende a achar que a palavra é só o que ela quer dizer. Ficamos quase sempre na intencionalidade do texto, mas entre querer dizer e poder dizer há um mundo mágico e infinito. A linguagem literária é por excelência o reino do poder, no sentido de possibilidade, e a criança percebe isso com imensa naturalidade. "A fala das crianças é habitada por surpreendentes esforços metafóricos de ir além de um universo de palavras que começa a ser construído e ainda é pequeno", complementa Cecilia.
Outros exemplos de livros infantojuvenis que são repletos de espaço de silêncio:
Hoje - Eva Montanari (Jujuba, 2014)
Lá e aqui - Odilon Moraes e Carolina Moreyra (Pequena Zahar, 2015)
A árvore vermelha - Shaun Tan (SM, 2009)
Inês - Roger Mello e Mariana Massarani (Companhia das Letrinhas, 2015)
Este chapéu não é meu - John Klassen (WMF Martins Fontes, 2013)
Se você quiser ver uma baleia - Julie Fogliano e Erin E. Stead (Pequena Zahar, 2013)
Passarinha - Regina Berlim e Thais Beltrame (Peirópolis, 2011)
...e muitos outros que ainda vou descobrir ou me lembrar 5 minutos depois de publicar este texto.
Ps*: "Rumor da Língua" está esgotado nas livrarias e nos sites de venda de livros (na Estante Virtual, não se encontra por menos de R$100 patacas. Mas você pode acessar e baixar o pdf no Scribdou ler o livro online na íntegra aqui.
]]>
Empodere uma criança! Machismo e desigualdade social: grandes questões para gente miúda]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/03/31/Empodere-uma-crian%C3%A7a-Machismo-e-desigualdade-social-grandes-quest%C3%B5es-para-gente-mi%C3%BAda-1https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/03/31/Empodere-uma-crian%C3%A7a-Machismo-e-desigualdade-social-grandes-quest%C3%B5es-para-gente-mi%C3%BAda-1Thu, 31 Mar 2016 17:44:19 +0000
"Se hoje lemos sem estranhar muito do que dizem estes livrinhos é porque, ao que parece, esse tal amanhã ainda não chegou. Tomara que não demore”.
É assim que termina o texto de abertura dos mais novos títulos da coleção “Livros para o Amanhã”, da editora Boitempo, pelo selo Boitatá. “As mulheres e os homens” e “O que são classes sociais?” acabam de chegar às livrarias. São os dois últimos da Coleção, premiada na Feira de Bolonha agora em abril. E que coleção. A editora responsável pelos livros da Boitatá, Thaisa Burani, define essas duas obras como “sementes de desconfiômetro”, uma espécie de iniciação à crítica social. “O sistema ensina as crianças a serem indivíduos ambiciosos, extremamente competitivos e não cooperativos. Ensina que não há tempo para nos ocuparmos de questões sociais, muito menos para tentar mudar o mundo”, explica Thaisa. “Além da empatia, ambos os livrinhos me parecem empoderadores”.
Como os próprios títulos sugerem, os livros são cada um a seu modo verdadeiras odes à igualdade, o primeiro em relação à disparidade entre os gêneros e o segundo uma reflexão sobre o que torna as pessoas desiguais. Literatura é lugar de liberdade, e esses livros sabem bem disso.
A fala dos editores no prefácio faz pensar: o que estamos ensinando às crianças sobre a relação homem-mulher, sobre os abismos sociais? A decisão de republicar uma coleção feita em 1978 na Espanha, que nasceu logo depois da morte do ditador Francisco Franco, revela que se ainda precisamos falar sobre repressão depois de 40 anos, ainda temos muito a aprender sobre democracia, tanto na política quando nas relações humanas mais cotidianas.
Se uma menina não se senta com as pernas fechadas, ela não é uma boa moça? Dizer o que pensa não é coisa de mocinha? Por que algumas pessoas têm que parar de estudar para trabalhar e depois passar a vida recebendo ordens? Pobres e ricos não são pessoas iguais com oportunidades diferentes?
Suprimir esses temas das mediações de leitura, da conversa em casa e do ambiente escolar é deixar à solta noções fundamentais para a sensibilização da criança em relação ao outro. Coisas tão simples quanto incentivar uma menina a brincar do que quiser, e dizer a um menino que está tudo bem se ele quiser usar cor-de-rosa. Esses livros são oportunidades para um primeiro contato com a ideia de igualdade, alteridade, liberdade compartilhada, individualidade.
Algumas reflexões do livro:
“A classe alta é
como uma jaula,
na qual é quase impossível entrar
e da qual ninguém quer sair”
“A classe alta
quer continuar sendo minoria,
para repartir o que tem entre menos pessoas”
"Já a classe média
acabou ficando no meio de tudo
Não é a que decide
(embora dê ordens),
nem é a que obedece
(embora passe a vida
cumprindo ordens)."
“Muitos pais educam os meninos
para que se tornem homens importantes.
Enquanto as meninas são educadas
para se tornarem as esposas
dos homens importantes.”
As ilustrações são textos à parte, e terminam de dizer o que as palavras não disseram. Por isso, a leitura das imagens aqui proporcionam ideias fortes. Como disse a Thaisa, a ilustração “é uma forma mais fenomenológica e imaginativa de interpretar o mundo”. Ela dá o exemplo de desenhos simples que provocam reflexões profundas. “Há uma passagem do texto [de “As mulheres e os homens”] que diz simplesmente “Por isso os meninos se vestem de um jeito e as meninas de outro”, que não faz nenhum juízo de valor, é apenas uma constatação da realidade. Mas a ilustração que acompanha essa frase mostra um garotinho usando um vestido e exibindo um trejeito tipicamente feminino para o pai, que está visivelmente carrancudo. No livro, os desenhos são como denúncias silenciosas: uma mulher algemada a um homem, uma menina dentro de uma gaiola, a mulher no papel de progenitora resoluta e dócil.
Segundo a Boitatá, “o desafio da ilustradora espanhola Luci Gutiérrez foi criar uma série de desenhos que atualizasse o debate sobre gênero e o tornasse acessível ao universo infantil”. Imagens que remetem à submissão histórica que até hoje posicionam o feminino (seja em uma mulher ou em homem homosexual) em uma posição inferior na escala de importância social e que ainda não foi superada pela sociedade.
40 anos depois, o que mudou?
Conhecida no mercado editorial como “a casa do pensamento crítico”, a Boitempo Editorial faz com o selo Boitatá e o público infantil o mesmo trabalho de repensar o mundo, o capitalismo, as regras sutis que regem uma vida compartilhada em sociedade.
Estes livros fazem parte de uma série de quatro volumes dirigida a jovens leitores que foi publicada originalmente entre 1977 e 1978, pela editora La Gaya Ciencia, de Barcelona, na Espanha. Naquela época, fazia menos de três anos que o ditador Francisco Franco havia morrido, e a Espanha vivia um período de transição que traria as primeiras mudanças democráticas. Enquanto isso, o Brasil estava em plena ditadura. Quase quatro décadas depois, os livros foram garimpados em um sebo pela equipe da editora espanhola Media Vaca, que considerou que tanto o espírito quanto boa parte do texto continuavam completamente atuais. Por isso decidiram reeditá-los, desta vez com novas ilustrações. A ideia e o texto foram concebidos por um grupo multidisciplinar de educadores e pesquisadores espanhóis, o Equipo Plantel, cada qual com um ilustrador diferente. Na edição da Boitatá, quase nada foi alterado ou acrescentado.
E aí voltamos inevitavelmente ao começo deste texto. Uma coleção que se chama Livros para o amanhã, e ainda estamos falando sobre ela, respirando com alívio por esses livros dizerem tudo o que dizm, por olharem nos olhos das crianças e dizerem tanto sobre o que às vezes não conseguimos. Talvez o amanhã não tenha mesmo chegado. Tomara que não demore.
Aqui, o papo com a editora Thaisa Burani na íntegra:
Garimpo: O livro "As mulheres e os homens" adapta o debate sobre gênero para o universo infantil. Na sua opinião, que tipos de concessão é preciso fazer para alcançar um objetivo como esse?
Thaisa: Tanto nessa nova edição espanhola quanto na nossa tradução optou-se por manter o texto totalmente preservado. Mas sim, acho que o grande mérito da Media Vaca foi a escolha dos ilustradores para essa edição atual. No caso específico do livro "As mulheres e os homens", o trabalho da ilustradora Luci Gutiérrez é louvável, porque ela consegue criar narrativas visuais muito poderosas, que enriquecem o texto e vão muito além dele. Só para dar um exemplo, há uma passagem do texto que diz simplesmente “Por isso os meninos se vestem de um jeito e as meninas de outro”, que não faz nenhum juízo de valor, é apenas uma constatação da realidade. Mas a ilustração que acompanha essa frase mostra um garotinho usando um vestido e exibindo um trejeito tipicamente feminino para o pai, que está visivelmente carrancudo, desaprovando o gesto. É uma imagem forte, da qual podemos depreender uma série de interpretações e questionamentos. Nesse sentido, a ilustração é uma ferramenta muito poderosa no trabalho com o público infantil, porque ela diz muito sem precisar de nenhuma palavra. É uma forma mais fenomenológica e imaginativa de interpretar o mundo, e nesse livro específico, que trata de um tema complexo e “adulto”, ela soube jogar muito a favor.
Já "O que são classes sociais?" pretende discutir com a criança o que leva uma sociedade a ser desigual. Você acha que falta empatia à criança da sociedade de hoje? Se sim, quais são os fatores que levam a isso?
A empatia é uma qualidade inerente ao ser humano, essencial para a preservação da espécie. E, assim como todas as outras emoções e sentimentos, ela precisa ser trabalhada e exercitada, a fim de formar a nossa inteligência emocional. Mas numa sociedade capitalista e competitiva como a nossa, cujos valores máximos são o lucro e o sucesso individual, muitas dessas qualidades empáticas acabam sendo esquecidas, para não dizer solapadas. Não podemos dizer que esse fenômeno é uma novidade do nosso tempo, mas talvez ele esteja sim ficando mais acirrado. Particularmente acho isso muito perigoso, porque gera toda uma sociedade de indivíduos isolados que não se importam com os outros à sua volta, ou que se conformam com discursos meritocráticos hipócritas. Acredito que quando mais cedo um ser humano olhar para essas questões e se sensibilizar com elas, mais autonomia ele terá para nortear sua formação num sentido mais humanista e cooperativo.
Que ferramentas o livro utiliza para fazer a criança enxergar o outro como seu igual?
Acho que o grande mérito do livro é tentar expor, de forma simples e direta, que as pessoas são iguais apenas no discurso, pois existe uma série de vantagens e desvantagens sociais que são dadas de berço. O livro evidencia que a nossa sociedade é pautada pelo mercado de trabalho, que as profissões nos tornam diferentes, e tenta mostrar que o filho do rico não vai ser gari, simplesmente porque o filho do rico vai estudar nos melhores colégios e, quando crescer, vai para uma boa universidade se formar na carreira que ele escolher. Já o filho do pobre, se não quiser ser gari, precisará se esforçar muito acima da média para compensar o fato de ter estudado em colégios piores, ou o fato de ter de começar a trabalhar bem mais cedo. Claro que é uma lógica simplista e introdutória, nossa sociedade possui contradições e elementos muito mais profundos do que isso, mas entendo esse livro como uma primeira “semente do desconfiômetro”, uma introdução à crítica social.
Em que sentido a educação atual contribui para que existam lacunas de entendimento na cabeça da criança em relação a esses dois temas – disparidade de gênero e classes sociais?
De modo geral, nosso sistema educacional está voltado para a lógica de mercado. O senso comum entende a escola como um investimento, e entende a criança como um profissional em formação. Eu mesma já sou de uma geração de crianças que tiveram a rotina transformada em uma grade de horários, que precisavam se dividir entre a escola (educação formal) e as aulas de inglês, natação, piano, teatro, pintura etc. (especializações). E acredito que o acirramento do neoliberalismo nos últimos vinte anos tenha aprofundado essa dinâmica. Então embora muitas escolas inseridas nessa lógica tenham seu valor, não podemos negar que é um sistema que, colateralmente, ensina as crianças a serem indivíduos ambiciosos, extremamente competitivos e não cooperativos. Ensina que não há tempo para nos ocuparmos de questões sociais, muito menos para tentar mudar o mundo ou a nossa realidade. E, como não há tempo, já que tempo é dinheiro, o melhor a fazer é se adequar a essa realidade e se contentar dentro da sua bolha individual de sucesso. No limite, são lacunas comuns justamente porque não dão retorno financeiro – ao contrário, apenas desviam da rota.
Além dos temas já trabalhados na coleção Livros para o Amanhã, que outros assuntos você considera de importância vital discutir com a criança? Na sua opinião, qual é o limite entre o universo da criança e o universo do adulto – se é que existe um limite?
Como você mesma levantou, a empatia é um norte do selo Boitatá. Então queremos abordar todas as temáticas que envolvam essa questão, como direitos humanos, tolerância, representatividade, cidadania e respeito à diversidade. Para dar um exemplo concreto, temos no forno agora dois livros de ficção. Um deles conta a história de um Monstro Rosa divertido e trapalhão que nasce num ninho de bichos brancos sisudos. Muitas abordagens podem nascer daí, como bullying, respeito às diferenças e até mesmo subversão.
Já o segundo conta a história de um pássaro que tem as asas curtas e não pode voar, então procura uma maneira de solucionar isso. Ao mesmo tempo que trabalha a questão da solidariedade e do compartilhamento de saberes (pois o pássaro descobre que muitas outras aves não podem voar), discute de uma forma muito delicada a questão das deficiências físicas. Além da empatia, ambos os livrinhos me parecem empoderadores (ambos os protagonistas são vítimas que lutam por alterar sua situação), o que considero fundamental nesse tipo de trabalho.
Quanto aos limites entre o universo infantil e o do adulto, acho que acima de tudo deve estar a ética. Ou seja, em termos temáticos, talvez seja possível falar de qualquer coisa, desde que a abordagem se paute em princípios éticos. E com “princípios éticos”, eu quero dizer não ser sensacionalista, não ser dogmático, não se aproveitar da sua condição de adulto mais experiente para impor a sua própria visão de mundo. Como editora, eu defendo muito o direito ao questionamento. Porque mesmo na coleção Livros para o Amanhã, que é paradidática e defende claramente certos valores (democracia, justiça social e feminismo), a abordagem é aberta a questionamentos e a diferentes interpretações, além de ser claramente introdutória. É, em suma, um convite ao aprendizado. E é nesse sentido que pretendemos caminhar.
]]>
Antes Depois - e tudo o que acontece no meio]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/03/23/Antes-Depois-e-tudo-o-que-acontece-no-meiohttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/03/23/Antes-Depois-e-tudo-o-que-acontece-no-meioWed, 23 Mar 2016 19:41:13 +0000
Se tivesse epígrafe, talvez este livro começasse assim: "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."
Editado pelo selo Livros da Raposa Vermelha", da WMF Martins Fontes, o francês "Antes Depois" (título original: Avant Après), escrito e ilustrado por Anne-Margot Ramstein e Matthias Aregui, chegou às prateleiras brasileiras no ano passado, portanto, não deveria ser nenhuma novidade. Exceto pelo fato de que é. É muita novidade e é todos os dias, todas as vezes que o abrimos, sempre que uma página é virada. Um livro que, com algo tão simples quanto uma geleira no lugar de um campo, faz pensar em ancestralidade, em antecedência.
Livro pra criança? Livro pra adulto? "Antes Depois" é um crossover, impossível de classificar. Não é difícil imaginar o livreiro, o mediador, o bibliotecário, o professor pensando: é arte? é livro ilustrado? cabe em qual prateleira? Importa muito menos pensar nisso do que se deixar levar pela ideia: um contínuo antes e depois que só termina na percepção do leitor.
Tem a noite que vira dia, a semente que vira árvore, o botão que vira flor, a abóbora que vira carruagem. E de repente a coisa começa a ficar mais complexa. À medida que os signos vão avançando, o campo semântico se expande, e às vezes o entendimento é uma melancolia: floresta que virou prédio, polvo que virou tinta, incêndio que se transformou em vazio.
Com suas cores e ilustrações cativantes, o livro faz pensar. Afinal, que importância tem discutir com as crianças os antecedentes das coisas? E a resposta está na impermanência, que é o denominador comum da vida. Sem impermanência, não existem mudanças, tudo o que é vivo está diferente hoje daquilo que era ontem, e assim vai. É reconhecendo que tudo - de plantas a situações históricas, políticas e sociais - já foi semente, início, ideia, que conseguimos entender o estado atual das coisas. O princípio de futuro potencial em tudo o que está no presente começa justamente pelas crianças, que serão os adultos de amanhã. Por isso é que um livro simples como esse pode iniciar aquela conversa difícil de "de onde viemos, para onde vamos" com os pequenos. Contar uma história bem contada também é discurso, e discurso é ato político, sempre.
Mas voltemos ao livro. "Antes Depois" traz um desenho por página, lado a lado, como se dividisse o mundo no meio, até que uma ilustração de página dupla se esparrama pelos dois lados e eleva a percepção para passear ainda mais longe. Algumas sugerem metáforas, outras levantam dúvidas, mas todas contam uma história.
Um livro pra gastar horas e horas, e mesmo assim não chegar a tudo. Dá pra rir, chorar, perceber, descobrir, e dá pra mergulhar num mistério profundo - algumas sequências de ilustrações, mesmo depois de olhar e olhar de novo, ainda são interrogações, como a sequência de um vasto campo verde que se transforma em estrada bifurcada, cruzamento impávido. O que o livro estaria sugerindo?
Tem outras que emocionam, sensibilizam. Como esta aqui, que o leitor fica olhando, olhando...
até que:
E o pensamento voa: "Ahhh, então é isso!"
"Antes Depois" fala de tempo. E pede tempo. Para acessar o que ele propõe, o leitor tem que anular a pressa e desviar do perigo das interpretações rápidas. O resultado pode ser mágico, imensurável. Como diz Fiorella Farinelli, no prefácio do livro, La Pedagogia della Lumaca, de Gianfranco Zavalloni:
"A importância do caminho, portanto, não da chegada. Do tempo do caminho, que deve ser lento, não só para aceitar o passo de quem é mais fraco, mas para que, seguindo a curiosidade e as emoções, cada um possa aventurar-se, descobrir outras pistas, fazer desvios, voltar atrás, trocar pensamentos e sentimentos, contruir relações. E amanhã, exatamente por ter realizado uma caminhada deste tipo, possa não esquecer o que aprendeu."
Às vezes, o que era depois vira antes, o que era nunca vira possibilidade.
Um livro para falar com as crianças (e nós mesmos) sobre a inevitável impermanência das coisas, sobre quem éramos antes de sermos quem somos, o que vivia aqui antes de nós, sobre o tempo e as possibilidades, a espera e o vagar que existe em tudo o que é vivo e se movimenta. Não por acaso, uma das últimas sequências de ilustrações do livro é um interruptor acendendo e apagando. E tudo começando de novo.
O que acontece depois é um grande segredo. Exatamente como na vida.ANTES DEPOIS (Avant Après) Livros da Raposa Vermelha (WMF Martins Fontes) Edição: 1ª Edição - 2015
Número de Páginas: 172
]]>
Lúcia Hiratsuka: "O movimento de abrir, olhar, folhear um livro nos conecta com uma pausa dentro do caos do dia a dia"]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/03/21/L%C3%BAcia-Hiratsuka-O-movimento-de-abrir-olhar-folhear-um-livro-nos-conecta-com-uma-pausa-dentro-do-caos-do-dia-a-diahttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/03/21/L%C3%BAcia-Hiratsuka-O-movimento-de-abrir-olhar-folhear-um-livro-nos-conecta-com-uma-pausa-dentro-do-caos-do-dia-a-diaMon, 21 Mar 2016 19:18:02 +0000
Hoje, começa em Paris a terceira edição da Primavera Literária Brasileira. Sob a batuta de Leonardo Tonus, do Departamento de Estudos Lusófonos da Universidade de Sorbonne , o festival não conta com o apoio financeiro do Governo francês ou do Brasil, tudo é feito de forma colaborativa, para apresentar a diversidade literária brasileira a estudantes de diferentes faixas etárias e espaços de ensino.
Organizado este ano também pela editora Simone Paulino, da Nós, e pela escritora Verônica Lessa, a Primavera Literária (ou, em francês, Printemps Littéraire Brésilien), escolheu alguns autores brasileiros de literatura infantil e juvenil para representar o gênero. Para a sorte dos franceses, Lúcia Hiratsuka está entre eles.
Por lá, Lúcia vai falar não só sobre seus livros, mas também da diversidade do livro ilustrado no Brasil, ao lado do ilustrador e escritor Roger Mello, além de participar de uma mesa na Universidade de Sorbonne com Paula Anacaona, e de mediar uma oficina de sumiê.Para falar do encantamento dos livros da Lúcia, não basta falar dos prêmios Jabuti, APCA, dos selos de Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. É preciso parar e olhar. E olhar de novo e com mais calma. Algumas literaturas são como recantos, pontos de refúgio. Os livros de Lúcia são alguns desses lugares.
"Orie" (imagem ao lado), inspirado nas memórias de sua avó, é um exemplo de como seus livros podem transportar o leitor para outros mundos e possibilidades. Prestes a ir para a Primavera, que começa hoje e vai até o dia 31 de março, ela parou uns instantes para contar como vai ser esse encontro, falar sobre a potência do livro ilustrado, e do que vem por aí.
Na Primavera Literária, você vai estar ao lado de outros 29 escritores e artistas do livro. Como foi o convite e o que significa pra você representar a literatura infantil brasileira em outro país?
Em 2015 recebi um convite para participarde uma antologia de autores brasileiros na edição especial da Revista Pessoa para o Salão de Paris. A edição impressa foi em francês, a digital em português, também em inglês. E um tempo depois, conheci o curador Leonardo Tonus, da Universidade de Sorbonne, sempre empenhado em divulgar a literatura lusófona. E conversamos sobre essa 3a edição da Primavera Literária em Paris; soube que um dos propósitos é divulgar a literatura brasileira. Acho importante que tenha um espaço para a literatura infantil. Ano de homenagem acontece numa época apenas, mas a ideia desse evento é ter continuidade. Assim a nossa literatura vai encontrando o seu espaço, mesmo que devagarinho. Muitos autores estarão no Salão de Paris, outros moram por lá. No meu caso, vou juntar nessa viagem a visita à Feira do Livro Infantil de Bolonha.
O que você vai apresentar a eles, pode contar um pouco sobre a sua programação no evento?
Terei três encontros. Um deles na Universidade Sorbonne, estarei junto com a Paula Anacaona, da Editions Anacaona. Vamos apresentar o livro BANZO- mémoires de la favela (traduzido do livro Becos da memória), de Conceição Evaristo. Participei desta edição francesa com algumas ilustrações em sumiê. Na Casa da Cultura Japonesa na França, será uma mesa junto com Roger Mello. Vai depender também dos mediadores, mas acredito que falaremos um pouco sobre a diversidade dos livros ilustrados no Brasil, as nossas experiências e referências. E um dia foi reservado para o Atelier de Sumiê.
E por falar em Paris, seu último livro, "As cores dos pássaros" (2015) viajou para lá no ano passado, para o Salão do Livro. Como foi?
Ainda são poucas as chances de autores brasileiros serem publicados em outros países. A minha principal energia está voltada para as crianças do Brasil, o que for além disso também é muito bacana. É importante que as crianças tenham contato com autores de países distantes, cultura tão diferente, paisagens diversas.
Uma parte do seu trabalho se dedica a recontar mitos e lendas do Japão. É preciso "adaptar"essas histórias para as crianças desse outro mundo de cá? Em outras palavras, o que é ser uma criança que lê dentro de uma cultura que está ainda em sua infância em relação ao livro ilustrado?
Eu sempre pensei nesses contos e lendas como clássicos, pouco divulgados no Ocidente. O reconto começa pela seleção das histórias. Escolho as que me encantaram quando criança e que continuam me encantando, ou intrigando,e que trazem conflitos humanos universais. Aleitura compartilhada em casa não é ainda um hábito aqui, falando de uma forma geral. É um problema cultural. Mas hoje temos mais encontros, espaços para discutir a questão, inclusive o livro ilustrado. Isso vai fazendo alguma diferença, assim espero.
Seus livros suspendem o leitor em outro tempo - o da delicadeza, da serenidade - por isso tantos adultos se identificam, talvez por precisarem desse momento de interrupção. Você concorda? Qual é pra você a maior dificuldade em fidelizar como leitor uma criança desse mundo acelerado em que a gente vive?
O próprio movimento de abrir, olhar, folhear um livro, já nos conecta com uma pausa dentro do caos do dia a dia. Quando criança, eu lembro que queria saber o que havia além daquele espaço conhecido por mim, uma zona rural, uma cidade, o trem que ia pra longe. Até onde? E como seria o mundo? Qual o meu papel nesse mundo? Hoje, ainda quero conhecer outros lugares, outras culturas, vivências diversas, talvez sempre com questões semelhantes. Buscamos na leitura um significado para a nossa vida. Parto desse princípio e tento colocar toda a energia na história em que estou trabalhando. Se faço o melhor que posso, depois é esperar que o livro encontre o seu leitor.
Qual é a diferença pra você entre o diálogo com adultos e com a criança? Sua escrita e ilustração fazem concessões ou tudo é permitido?
Acredito que a diferença não está no tema. Quando uma criança brinca, ela está tentando apreender o que é viver, como lidar com certas situações. Com o momento, com a vida, com a morte, com as transformações. Eu busco trabalhar com a linguagem que ajuda a expressar o essencial da ideia. De início tudo é um caos. Depois, a questão central vai se revelando. Fiz concessões ou criei livremente? Não interessa mais quando eu sentir que a ideia encontrou a sua forma de se expressar.
O que está preparando para este ano? Já há um próximo livro, projetos, novidades?
Este ano, eu não vou pensar em publicar. Ainda nem divulguei direito o livro O guardião da bola (ed. Moderna), história inspirada em uma lembrança do meu pai. Mas venho fazendo experiências. Tem uma lenda que me atrai muito, de um personagem com um talento especial, mas que justo esse talento atrai uma situação de perigo. E gostaria de me planejar para escrever um texto mais longo, inspirado nas pessoas que passaram pelo sítio onde cresci.
]]>
"Quantas vezes o real não nos parece fantástico?" As ilustrações de Rebeca Luciani]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/03/16/O-universo-fant%C3%A1stico-de-Rebeca-Lucianihttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/03/16/O-universo-fant%C3%A1stico-de-Rebeca-LucianiWed, 16 Mar 2016 14:39:18 +0000
Mistos de realismo mágico com fantasia de criança, os desenhos da ilustradora argentina Rebeca Luciani são como lugares que o leitor tem a sorte de ir conhecendo. Lugares com nomes curiosos, como "Animais que fazem coisas em silêncio", "O baile da tarântula", "Breve história de um breve amor". Lugares que são também imagens, criadas de dentro para fora para embrulhar histórias que não são suas, mas que passam a pertencer-lhe assim que conhecem suas cores e texturas. Um conceito tão dela que ganhou até nome "psicologia do personagem".
Premiada pelo mundo afora e publicada em países tão opostos quanto Emirados Árabes, França e Itália, ela tem no Brasil a sua segunda casa, "um universo à parte", como ela diz. Por aqui, ela tem três livros publicados - o mais recente chegou pela Edições SM este ano, "No Parque", de Iuri Pereira, “Cachtánka”, de 2013, uma adaptação do conto de Tchekóv traduzido pela Tatiana Belinky, "Se essa rua fosse minha", de Eduardo Amos, e "Diáfana", de Celso Sisto, publicado pela Scipione em 2011.
Aproveitando que a Rebeca vem para São Paulo em abril para o Laboratório de Ilustração do Ideário*, e que logo logo chega um novo livro com as ilustrações dela no Brasil - "O fantástico arroz de Filomena", escrito pelo mineiro Maurilo Andreas, está previsto para sair ainda este ano, pela editora Aletria -, fui garimpar dentro de suas caraminholas de artista para saber o que ela pensa sobre a relação palavra e imagem, sobre tudo o que brilha entre uma coisa e outra.
Você começou a desenhar com 4 anos, mas como chegou ao livro infantil?
Eu desenhava muito - como todas as crianças, suponho. Minha primeira lembrança de estar desenhando é aos quatro anos, quando meus pais haviam comprado umas canetinhas e eu passava horas desenhando com elas na janela que dava para o pátio. Depois disso, foram papéis pequeninos, grandões, cadernos. Eu nunca deixei de fazer o que eu mais gosto nesse mundo que é desenhar. Ainda não sabia que existia um ofício, o de ilustrador, meu sonho era ser pintora. Toda minha formação sempre foi no caminho das Belas Artes, pois para ser pintora eu supunha que devia me formar. Aos 23 anos, em uma crise artística, de repente não podia pintar mais, tive um bloqueio. O que eu ia fazer da minha vida se já não pintava? O golpe foi bem forte. Um dia, saí para caminhar pela cidade, entrei em uma livraria, e botei os olhos nos livros ilustrados infantis. Decidi ali que me dedicaria a isso. Isso aconteceu há 17 anos.
É mais difícil pra você se comunicar com o adulto ou com a criança? E por quê?
Pra mim, o importante é poder me conectar com o outro. E quero dizer comunicar-se bem com o outro. Esse fenômeno pode ser tão fácil com um adulto quanto com uma criança.
Na suas ilustrações, você se preocupa em tentar dizer coisas que o texto não conseguiu? Quer dizer, existe algo que só o desenho pode alcançar?
Penso que o livro ilustrado é o casamento do texto com as imagens. Existe um diálogo entre ambos, e esse diálogo não tem por que ser um monólogo. Acho que o bom de ser um autor (pois já está na hora de entendermos que nos livros infantis o ilustrador também é autor) é ter uma voz própria. De um lado, tem a voz do escritor, e a ela se soma a voz do ilustrador. Acho que a imagem propõe uma leitura que não precisa ser literal. A escrita e a imagem criam um dialogo e nesse diálogo é que se vai conhecendo o livro.
Nos países onde você atua, Argentina e Espanha, existe uma tensão entre a importância do texto e a importância da imagem? Há espaço para um trabalho autoral, experimental?
Acho que no mundo todo, há vários anos, o livro ilustrado vem encontrando um lugar onde todos estamos crescendo - escritores, ilustradores, editores, leitores, educadores. E vamos entendendo que se trata de um trabalho em equipe. Estamos cada vez mais abertos para criar livros que venham para surpreender.
Pra você, qual o papel de uma ilustração em um livro infantil ilustrado?
Pra mim, o papel de uma ilustração em um livro infantil é fundamental. As crianças têm uma relação mais direta com a imagem do que com a palavra escrita. Elas primeiro desenham, esses são seus primeiros signos. Logo aprendem a ler, e então a escrever. A imagem aproxima de uma forma direta a palavra escrita. No diálogo entre texto e desenho, a narrativa que acontece é essencial para criar um bom livro ilustrado.
Quando está ilustrando um livro, você pensa na criança que vai acessar aquela imagem? Quer dizer, você tem uma espécie de "leitor imaginário"?
Sinceramente, não. Quando ilustro um livro, me deixo levar por minha própria criança, a criança que sou eu mesma. Não posso desenhar pensando nos outros, nem no editor, nem em nada. Só me deixo levar por essa intuição interna de que isso que acabo de ler me pede uma imagem que possa acompanhar a história.
Pode explicar o que é "psicologia do personagem"? Gostaria que falasse um pouco sobre esse conceito em relação ao seu desenho "Animales que hacen cosas en silencio", por exemplo.
Quando falo da "psicologia dos personagens", me refiro a algo muito pontual que surgiu do que considero uma deficiência na hora de desenhar. Parto de uma experiência pessoal ao observar os meus trabalhos, e isso também tenho notado no trabalho de outras pessoas. Basicamente, trata-se de pensar "afinal, de onde desenhamos? Desenho de dentro, ou desenho de fora?" Muitas vezes, observava meus personagens e via que estava tão preocupada em "fazê-los bem" que eles não passavam de um desenho bonito, mas que não transmitiam nada. Aí entendi que isso era desenhar de fora: uma obsessão absoluta pelo formal, sem se preocupar em conectar-se verdadeiramente com quem é esse personagem, o que acontece com ele, o que sente. Quando descobri isso, encarei os personagens de um lugar mais curioso, peço que me contem quem são para que eu possa contar aos outros. Depois disso, é interessante ver como voltamos ao papel em branco, nem sempre propondo ou impondo. "Animales que hacen cosas en silencio" é um livro escrito por Lolita Bosch e editado por Kalandraka. É um dos livros com os quais sinto que mais cresci até hoje. Ele me fez escutar como nunca antes os silêncios.
Entre a observação da realidade e a entrega à imaginação, a ideia de um desenho se transforma? Você se preocupa com os limites entre o real e a ficção?
Os limites estão só na nossa cabeça. Quantas vezes o real não nos parece fantástico? E vice-versa.
Você ilustra as palavras de outras pessoas. Já escreveu um texto para crianças? Pensa em um dia ilustrar um texto seu?
Tenho muitas coisas escritas por mim, e só quatro bons textos. A verdade é que eu nunca me dou tempo para ilustrá-los, justamente por estar sempre a cargo de textos dos outros. É algo pendente, vamos ver se me encorajo.
Hoje, o que mais te inspira na hora de criar um desenho?
Cada vez mais me interessam os espaços, inclusive hoje em dia me seduzem mais os espaços que os personagens. Um espaço pode contar tudo, inclusive, pode contar coisas do personagem sem necessidade de trazê-lo à cena. Um espaço pode nos contar tudo. Por isso, hoje estou mais atenta do que nunca, observando cada árvore, cada parque, cada montanha como se fosse a primeira vez que os visse.
Há previsão de próximas publicações no Brasil?
Sim, estou trabalhando agora mesmo em um livro que sairá pela Aletria, "O fantástico Arroz de Filomena". O autor é de Belo Horizonte e se chama Maurilo Andreas. Fala do amor e da aceitação do diferente. É um livro bem grande, tem bastante texto, é um total de 20 ilustrações a toda cor. Está sendo trabalhoso mas estou muito, muito, contente com o livro que estamos criando. Tomara que junto com esse, venham novos projetos.
Esta é a quinta vez que você realiza esse laboratório aqui em São Paulo. Qual sua relação com o Brasil?
Sinto que cada dia mais me cabe o clichê "cidadã do mundo". Faz anos que vivo em movimento, principalmente entre La Plata, minha cidade natal, e Barcelona, minha cidade de adoção. O Brasil, pra mim, é como o "namorado que te fascina". Amo esse país, minha música favorita é a música brasileira, minhas comidas preferidas também. Aí tenho amigos, família de amigos, pessoas muito queridas. A cada vez que vou para o Brasil, sinto mais como se fosse minha casa. Adoro o idioma e este ano decidi deixar de falar portunhol e comecei a fazer aula de português. A verdade é que o Brasil me parece todo um universo à parte: suas cores, seus cheiros, seus sons. É um lugar cheio de magia, caos e força; um lugar que sempre consegue me contagiar e me encher de sensações novas.
Mais sobre esse mundo fantástico a toda cor, você encontra no site da artista: www.rebecaluciani.es
*Rebeca Luciani vai ministrar duas oficinas em São Paulo, entre os dias 4 e 8 de abril, no Ideário, em Pinheiros. A primeira é "Cor & Ilustração", e a segunda "Emoções, personagens e ambientes". O sobre cor será no período da tarde, e o de personagens, à noite.
Inscrições, conteúdo dos encontros, valores e etcéteras devem ser enviadas para Larissa Ribeiro pelo e-mail labilus@gmail.com
Aqui vai um servicinho completo pra ninguém se perder por aí. Ilustradores, fiquem espertos, as inscrições vão até 18 de março (sexta-feira).
Laboratório de Ilustração
com Rebeca Luciani
Onde:Idéario- Rua Prof. Rubião Meira, 59, Pinheiros, São Paulo-SP
Quando: de 4 a 8 de abril de 2016
Inscrições: até 18.03
]]>
Lugar dos porquês]]>https://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/02/19/Reino-do-mist%C3%A9riohttps://www.garimpomiudo.com/single-post/2016/02/19/Reino-do-mist%C3%A9rioFri, 19 Feb 2016 17:15:59 +0000
Há um artigo da professora argentina Marcela Carranza de que eu gosto muito, chamado "O rinoceronte na sala de aula", publicado na Revista Emília, em que ela faz, entre outras coisas, uma reflexão sobre o papel da arte dentro da sala de aula. É só olhar para as nossas próprias trajetórias escolares para perceber que a literatura nunca esteve perto de ser considerada arte, organizada quase sempre dentro das disciplinas de língua portuguesa, linguística. É sempre de "língua" que falamos quando queremos apresentar a uma criança em idade escolar o que é literatura, nunca de "linguagem". Entre uma coisa e outra, há um abismo. Mas antes de entrar em questões espinhudas como essa, fico na simplicidade de um trecho muito singelo que me chama a atenção neste artigo e de alguma forma me explica, nos meus porquês de começar este blog.
Ela diz:
“Uma imagem do totalitarismo: o rosto daqueles que, quando olham para uma criança, sabem de antemão o que é e o que deverá fazer com ela".
Pois não é exatamente isso que fazemos com frequência ao observar uma criança? Esvaziamos a criança de seus saberes e da sua existência autônoma. Totalitarismo. Não há outro nome. Pois a criança é justamente o outro, e por isso mesmo totalmente imune a qualquer tentativa de compreensão absoluta. Por mais empatia que consigamos praticar (e a literatura auxilia e muito a desenvolver esse senso de que não estamos a sós no mundo, nos colocando em constante contato com o diferente), não é possível capturar outro ser por completo. Por que seria diferente com uma criança?
O que podemos fazer é tirar um tempo de observação e, nesse entremeio, nos permitirmos a algumas interrogações. Encontramos o nosso lugar de escuta também pelo olhar? Quais são as simbologias que a criança constrói ao mergulhar em uma história? Talvez viver nesse constante estado de pergunta seja um jeito de visitar as nossas crianças - as de dentro e as de fora. Afinal, se o universo adulto nos ergue a um patamar de seres humanos resolutos e bem resolvidos onde é preciso ter sempre à mão as respostas para qualquer questão, a literatura infantojuvenil é o lugar dos porquês. Que bom poder voltar a este lugar.
Como diria a Cecilia Meireles, “Tudo é mistério nesse reino que o homem começa a desconhecer desde que o começa a abandonar”. É tanta infância crescendo num mundo de perguntas blindadas, que é fácil esquecer de deixar as interrogações sempre acesas. Ai de nós viver num mundo respondido.
]]>