Lugar dos porquês



Há um artigo da professora argentina Marcela Carranza de que eu gosto muito, chamado "O rinoceronte na sala de aula", publicado na Revista Emília, em que ela faz, entre outras coisas, uma reflexão sobre o papel da arte dentro da sala de aula. É só olhar para as nossas próprias trajetórias escolares para perceber que a literatura nunca esteve perto de ser considerada arte, organizada quase sempre dentro das disciplinas de língua portuguesa, linguística. É sempre de "língua" que falamos quando queremos apresentar a uma criança em idade escolar o que é literatura, nunca de "linguagem". Entre uma coisa e outra, há um abismo. Mas antes de entrar em questões espinhudas como essa, fico na simplicidade de um trecho muito singelo que me chama a atenção neste artigo e de alguma forma me explica, nos meus porquês de começar este blog.


Ela diz:

Uma imagem do totalitarismo: o rosto daqueles que, quando olham para uma criança, sabem de antemão o que é e o que deverá fazer com ela".


Pois não é exatamente isso que fazemos com frequência ao observar uma criança? Esvaziamos a criança de seus saberes e da sua existência autônoma. Totalitarismo. Não há outro nome. Pois a criança é justamente o outro, e por isso mesmo totalmente imune a qualquer tentativa de compreensão absoluta. Por mais empatia que consigamos praticar (e a literatura auxilia e muito a desenvolver esse senso de que não estamos a sós no mundo, nos colocando em constante contato com o diferente), não é possível capturar outro ser por completo. Por que seria diferente com uma criança?


O que podemos fazer é tirar um tempo de observação e, nesse entremeio, nos permitirmos a algumas interrogações. Encontramos o nosso lugar de escuta também pelo olhar? Quais são as simbologias que a criança constrói ao mergulhar em uma história? Talvez viver nesse constante estado de pergunta seja um jeito de visitar as nossas crianças - as de dentro e as de fora. Afinal, se o universo adulto nos ergue a um patamar de seres humanos resolutos e bem resolvidos onde é preciso ter sempre à mão as respostas para qualquer questão, a literatura infantojuvenil é o lugar dos porquês. Que bom poder voltar a este lugar.


Como diria a Cecilia Meireles, “Tudo é mistério nesse reino que o homem começa a desconhecer desde que o começa a abandonar”. É tanta infância crescendo num mundo de perguntas blindadas, que é fácil esquecer de deixar as interrogações sempre acesas. Ai de nós viver num mundo respondido.



#criança #simbologias #língua #linguagem #arte #empatia

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